quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Os crimes pós-coloniais

O ex-jornalista e doutorando em Cambridge, João Moreira da Silva, escreveu hoje uma resposta a João Pedro Marques sobre "as reparações históricas pelos crimes do colonialismo português".


O artigo em si é descartável e sem argumentos perceptíveis, com excepção do argumento clássico da wokaria de que o presente resulta do passado, portanto é legítimo e razoável exigir hoje, aos herdeiros do passado, que acertem as contas.


A mim faz-me confusão que um historiador parta do princípio de que o passado está estabelecido ao ponto de ser possível atribuir responsabilidades, com reflexos definidos no presente, porque isso é a negação da profissão de historiador que, por definição, é alguém cuja actividade consiste em reescrever permanentemente o passado.


Passando por cima dessa perplexidade, o artigo reflecte a grande omissão desta discussão sobre as reparações: os crimes pós-coloniais.


As elites negras que governam as antigas colónias com mão de ferro são dos principais beneficiários actuais dos regimes coloniais, visto que o seu acesso ao poder, com exclusão de todos os outros, se deve, inteiramente, à legitimidade que lhes foi reconhecida por se terem oposto, de armas na mão, ao poder colonial.


Sem colonialismo não haveria movimentos armados anti-coloniais e sem movimentos armados anti-coloniais não haveria fundamento moral para a entrega do poder absoluto a grupos armados, sem qualquer consulta aos povos desses territórios, criando as condições objectivas (como, acertadamente, diriam os marxistas) para a exploração dos povos e da terra em benefício da pequena minoria que governa esses povos há 50 anos.


A partir desse facto - que é um dos crimes do colonialismo, a entrega do poder absoluto a uma minoria armada, sem qualquer consulta aos povos - as elites que governam há cinquenta anos enriqueceram, o que é o menos, e mantiveram os seus povos em condições materialmente miseráveis e sem liberdade e autonomia de decisão.


A wokaria tem por hábito ter uma posição racista, marcando a distinção entre beneficiados e prejudicados com base no teor de melanina da pele de cada um, omitindo, de forma sistemática, a responsabilidade quer dos que venderam escravos (com base no argumento paternalista de que as sociedades africanas tradicionais eram manifestamente infantis e incapazes de se opôr aos poderes coloniais durante três ou quatro séculos), quer das elites negras que usaram o sentimento anti-colonial ocidental para aceder ao poder e o usar de forma discricionária durante as últimas décadas.


Já seria tempo de aplicarem os seus quadros teóricos de análise - "de onde nascem, para João Pedro Marques, as desigualdades do presente, senão do passado? Será possível “isolar” o passado e simular um presente que começa do zero, como se nada para trás de nós moldasse as nossas vivências atuais? Quando é que o presente começa, e quem decide o fim do passado?" - às sociedades pós-coloniais e começarem a exigir reparações ao MPLA e à Frelimo, só para citar dois exemplos evidentes.

5 comentários:


  1. "as reparações históricas pelos crimes do colonialismo português"


    Podiam "reparar" (só a tradução literal mostra a falta de intelecto) os crimes resolvendo Cabo Delgado. Bem melhor que andare a discutir 1900 e troca o passo

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  2. E, já agora, reparações também à malta do 27 de Setembro.

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  3. Atendendo a que as tribos com que Portugal se encontrou eram bem mais violentas - sendo a escravatura endémicas antes dos portugueses chegarem nem sequer a maior barbaridade - talvez seja Portugal que deva pedir indeminização...

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  4. Conheci Moçambique de alto abaixo e sinto pena que Os libertadores Frelimos e cª arruinassem tudo o que de Bom tinham recebido da maldita colonização.
    E Angola idem. Luanda a Paris de África que devastaram toda a boa organização.
    Afinal, ocorrem diariamente, filas e filas de Angolanos há embaixada portuguesa pedindo um visto para Portugal.

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  5. Para ficar completo, falta a parte dos "crimes pré-coloniais" - tipo as coisas estarem em pior estado antes da colonização do que depois.


    Também se podia pedir indemnização por isso - "Ora, são 11 cidades, 3 mil km de via férrea, 200 escolas, etc. É cartão ou dinheiro?"

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