Quando alguém vai fazer uma operação complicada, mas banal, e tem uma paragem cardio-respiratória que obriga a uma transferência para um hospital mais diferenciado, morrendo na sequência, os abutres reconhecem-se por usar essa morte para as suas campanhas políticas contra os privados e a favor do Estado, ignorando que todos os anos há dezenas de transferências de pessoas entre hospitais estatais, exactamente porque é impossível ter todos os sítios onde se prestam cuidados de saúde preparados para todas as situações.
Quando uma operação policial corre mal, do que resulta uma morte, os abutres reconhecem-se por usar essa morte para as suas campanhas políticas contra as instituições e capitalismo racista, ignorando o registo bastante bom da polícia portuguesa em matéria de mortes às mãos da polícia, interpretando as poucas e relativamente ligeiras condenações de polícias em tribunal como uma demonstração do racismo do sistema de justiça e não a demonstração de que a polícia, de maneira geral, cumpre as regras bem estritas de uso de arma de fogo, bem como ignorando que a sobre-representação de ciganos e estrangeiros, em especial vindos dos PALOP e Brasil, nessas mortes corresponde a uma sobre-representação desses grupos no mundo do crime (em especial, no crime dos crimes, o tráfico de droga) que resulta, em grande medida, da sua sobre-representação entre os pobres e deserdados da vida.
Quando uma catástrofe natural resulta em dezenas de mortes, os abutres reconhecem-se por usar essas mortes para as suas campanhas políticas, sejam mais partidárias, sejam mais gerais para forçar opções políticas relacionadas com alterações climáticas, ignorando que a previsão da evolução precisa de fenómenos meteorológicos (não confundir com a previsão de padrões climáticos, uma coisa bem mais fácil e segura) é extraordinariamente difícil, dando origem a situações como as da tempestade Ofélia, em Portugal, em que a previsão de chuva, que não se verificou, potenciou a existência de centenas de ignições num dia de ventos fortíssimos e que um sistema de avisos meteorológicos demasiado catastrofista e com pouca discriminação (não existe um alerta negro para situações de perigo excepcional, por exemplo) gera uma fadiga social que faz com que as pessoas deixem de reagir aos avisos meteorológicos, sendo sempre possível que um erro de previsão de meia dúzia de quilómetros, perfeitamente razoável, leve a decisões que o futuro acaba por revelar terem sido erradas e de consequências dramáticas.
A polarização das sociedades e da política é isto, a exigência permanente de perfeição aos outros, e a complacência permanente perante as nossas responsabilidades.
Até lhe demos um prémio Nobel, ouvimo-lo há sessenta anos, mas pelos vistos não aprendemos o suficiente com ele: "I wish that for just one time you could stand inside my shoes/ And just for that one moment I could be you/ Yes, I wish that for just one time you could stand inside my shoes/ You'd know what a drag it is to see you"
Grande texto.
ResponderEliminarObrigado pela partilha.
"
ResponderEliminarMuito bem
ResponderEliminarCumprimentos
Fernando Antolin
É uma ecologia - há abutres porque há um nicho.
ResponderEliminarPode-se escolher remover os incentivos à "abutridez", ou penalizar a dita. É capaz de ser preciso cortar muito fundo.
Subscrevo
ResponderEliminarOs estatistas não perdem uma.
Na gestão florestal e na saúde, deixem o mercado funcionar. Os privados servem melhor o interesse público do que qualquer máquina estatal.
O problema é os hospitais mais diferenciados serem todos públicos. O problema é a iniciativa privada ser em Portugal muito boa, mas só para coisas pouco diferenciadas.
ResponderEliminarEu dira que quem come a carne também deveria ser capaz de roer os ossos.
Uma coisa é termos um sistema (o SNS) que tem hospitais menos diferenciados e outros mais diferenciados. Outra coisa é termos pseudossistemas que só têm hospitais pouco diferenciados e que despejam tudo o que de mal neles ocorre para um outro sistema.
Excelente post.
ResponderEliminarDeixe-me confirmar umas coisas (não é a minha área) e se as confirmar, farei um post sobre isto
ResponderEliminarOs hospitais respondem às necessidades do mercado, e às possibilidades de pagamento. Gerindo o risco. Como qualquer empresa.
ResponderEliminarMas já não são tudo rosas.
As últimas experiências em consultas não programadas já se aproximam de umas urgências públicas, fruto ao afluxo de gente que vai fugindo do público.
Muito bem dito.
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ResponderEliminarRepare que nada de mal haveria se o hospital privado menos especializado, quando transfere o doente para o hospital público mais especializado, pagasse ao hospital público o serviço.
Agora, se o hospital privado não paga nada ao público, então temos um sistema de exploração do público pelo privado.
A sua ideia é a de que se eu for a uma mercearia verificar que não tem laranjas, indo por isso à mercearia do lado comprar laranjas, a primeira mercearia deveria pagar as laranjas que eu levasse, é isso?
ResponderEliminarExcelente. Só lhe faltam mesmo as penas ...
ResponderEliminarExcelente analogia.
ResponderEliminarA analogia não se aplicava quando uma mercearia não tivesse laranjas e sim quando vendesse laranjas podres.
ResponderEliminarMas tem alguma informação de que tenha havido algum procedimento médico inadequado, para usar a venda de laranjas podres como analogia?
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ResponderEliminarA analogia não se aplicava quando uma mercearia não tivesse laranjas e sim quando vendesse laranjas podres.
E fosse outra loja a proceder à troca de produto danificado.