O meu último post não é sobre as vantagens ou desvantagens da prestação de cuidados de saúde por privados ou pelo Estado, é sobre os abutres que aproveitam a morte de pessoas para defender as suas bandeiras políticas (não é de agora o meu nojo por essa atitude, já em 2013, há mais de dez anos, tinha escrito este texto a propósito de Viriato Soromenho Marques aproveitar a morte de bombeiros para fazer andar a sua agenda anti-eucalipto).
No entanto, inevitavelmente, lá aparecem os comentários que pretendem discutir isso, a maior parte dos quais ignoro, mas há um que vale a pena realçar (mesmo não tendo nenhuma relação com a substância do post anterior).
"O problema é os hospitais mais diferenciados serem todos públicos".
Eu não vejo aqui nenhum problema, a propriedade das paredes dos hospitais é um assunto que me interessa pouco, a mim só me interessa saber se cumprem bem o seu papel e cobram um preço aceitável pelos seus serviços. A definição de preço aceitável é um preço generalizado no sector e que os utilizadores podem pagar.
Os hospitais privados ou estatais, tal como qualquer outra empresa ou pessoa, reagem a estímulos e, consequentemete, é absurdo pretender que os hospitais privados façam o mesmo que os hospitais públicos quando as regras que os regem não são as mesmas.
O caso da medicina intensiva é um bom exemplo porque, legalmente, apenas uma entidade pode transportar doentes urgentes e emergentes, o INEM (transporte primário, isto é, do exterior para o sistema de saúde, a questão acho que não é bem assim para o transporte secundário, isto é, o transporte de doentes dentro do sistema de saúde, por exemplo, quando são transferidos de uma unidade de saúde para outra).
«Doente emergente»: doente que apresenta situação clínica com risco instalado, ou iminente, de falência de funções vitais; «Doente urgente»: doente que apresenta situação clínica com potencial de falência de funções vitais.
Também por opção administrativa e legal, o INEM só transporte doentes para hospitais estatais (o mesmo tipo de opções que foram tomadas na resposta à epidemia de Covid, em que o Governo optou por prescindir da capacidade instalada nos privados).
Daqui resultará, com certeza, que quem quer que trabalhe em medicina intensiva, tenha incomparavelmente mais oportunidades de trabalho e de evolução nos hospitais estatais, sendo difícil aos hospitais privados criarem serviços de cuidados intensivos muito diferenciados quando, por definição legal, a procura de cuidados intensivos está fortemente condicionada no sentido de encaminhar os doentes emergentes e urgentes para as instalações de saúde estatais.
Como corolário, não sei se estão interessados nisso, mas mesmo que estejam, dificilmente os privados conseguem desenvolver serviços de medicina intensiva comparáveis com os que existem nos hospitais estatais diferenciados (sim, porque existem muitas instalações hospitalares estatais em que os cuidados intensivos também não são diferenciados, por razões perfeitamente razoáveis).
Desta circunstância não resulta a demonstração de que os privados só fazem coisas básicas e só são melhores em hotelaria, o que resulta é a demonstração de que o sistema hospitalar português, por opção política e administrativa, não funciona como uma rede que optimiza os recursos disponíveis em cada momento, porque introduz diferenciação em função da propriedade do hospital que, provavelmente, dá origem a uma resposta menos eficiente da que seria possível, com os mesmos recursos.
Insisto, no entanto, que não era este o tema do meu post anterior, mas sim o facto de se usar a morte de pessoas para fazer andar agendas políticas, em detrimento da avaliação serena do que correu mal e do que se tem de fazer para na próxima correr melhor.
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