“Nós temos é que matar o homem branco como sugeria o [Frantz] Fanon. O homem branco que nos trouxe até aqui tem de ser morto. Para evitarmos – como dizia Orlando Patterson – a morte social do sujeito político negro é preciso matar o homem branco, assassino, colonial e racista“.
Esta é uma famosa frase de Mamadou Ba, que os polígrafos desta vida dizem que não pode ser descontextualizada e que o próprio Mamadou Ba considera desonestamente citada, se tirada do contexto, mas a frase é mesmo esta e Mamadou Ba está (evidentemente em sentido figurado) a reconhecer razão a Fanon (que tinha sido referido por alguém da assistência a quem Mamadou Ba está a responder).
Agora imaginemos que uma frase absolutamente simétrica (incluindo no contexto) era dita por alguém da "extrema-direita".
Lembrei-me disto porque um amigo meu ficou muito indignado por eu ter feito um post a perguntar qual era mesmo o perigo da extrema-direita, tendo esse meu amigo ficado à espera que eu escrevesse um post sobre as declarações de dirigentes e afins do Chega.
Como há milhares de pessoas a sinalizar a sua virtude assinando uma petição para criminalizar a liberdade de expressão, como eu não preciso de fazer essa sinalização e não tenho qualquer razão para andar a comentar as tolices de Ventura e afins (sendo as tolices auto-evidentes, para mim, não se ganha nada em andar a martelar na mesma tecla, excepto no caso de achar que a liberdade de expressão deve ser limitada à expressão da virtude), achei boa ideia passar antes os olhos pelo discurso da extrema-esquerda sobre a gestão dos subúrbios pobres das grandes cidades.
Como disse, e muito bem, Rui Moreira, o discurso de que a única face do Estado nesses subúrbios é a polícia é falso, a habitação, ou pelo menos os serviços urbanos de água, electricidade e tratamento de resíduos, é providenciada pelo Estado, as prestações sociais são uma das grandes fontes de rendimento desses bairros (não há, nesta afirmação, qualquer juízo de valor, também é a Segurança Social o principal financiador do mundo rural, actualmente), os transportes públicos servem esses bairros, as escolas e creches existem, a prestação de cuidados de saúde existe, etc..
Mas mais, que não disse Rui Moreira, boa parte das associações que trabalham com essas comunidades são financiadas, pelo menos parcialmente, pelo Estado.
A esquerda insiste em contestar sistematicamente o funcionamento das instituições, o que é especialmente visível quando os tribunais decidem de forma diferente daquilo que serviria melhor a agenda a extrema-esquerda, dando origem a comunicados inflamados protestando contra o racismo do sistema de justiça português.
"Em todos os casos de brutalidade policial que resultou nas mortes de cidadãos negros, racializados, a PSP nunca foi convincente sobre as condições e motivos destas mortes. Portanto, num país cuja polícia está inegavelmente infiltrada pela extrema-direita racista, as mortes de pessoas negras às mãos de agentes policiais levantam as maiores dúvidas e preocupações sobre as reais motivações das intervenções policiais que acabam nestas mortes".
O parágrafo citado é do SOS Racismo, mas corresponde ao discurso dominante da extrema esquerda, a mesma que se ofende pelo facto de Israel falar da inflitração das agências da ONU pelo Hamas.
Estranhamente, a extrema-esquerda não se apercebe de que se é verdade que há uma sobre representação de ciganos e não brancos nas vítimas das acções policiais, também é verdade que essa sobre representação também se verifica em todo o percurso relacionado com o crime, incluindo no sistema prisional.
E quando alguém estuda o assunto, identifica rapidamente a principal (há várias) raiz dessa sobre representação no mundo do crime: a pobreza.
É uma extrema esquerda que prefere falar da violência policial (o fim de linha), esquecendo-se de defender seriamente as duas principais instituições que melhor defendem os deserdados da vida dos contextos adversos em que sobrevivem: a família e a escola.
Por mim, uns e outros podem dizer o que quiserem, não são as palavras que matam ou ferem pessoas e, na maior parte dos casos o discurso é tão troglodita que auto-limita os seus efeitos mas, se tiver de escolher, eu diria que o discurso da extrema-esquerda é bem pior que o discurso da extrema-direita, não no conteúdo, que é igualmente cavernícola, mas no facto de ser muito mais levado a sério por muito mais gente, que deveria ter muito mais juízo que o que tem.
Toda essa esquerda (da mais ortodoxa à mais caviar pós-moderna)ainda há poucas semanas perdeu mais uma oportunidade de serem coerentes(pois tanto enchem a boca contra a injustiça) e dizerem algo contra a violência vinda das ditas minorias,no caso em pleno centro de Lisboa com a morte de 3 pessoas (uma delas grávida).
ResponderEliminarhttps://youtu.be/FIABl0zVSiI?si=zKVuLxPsDM1UST8K
A esquerda é perigosa, porque se esconde atrás da aparente virtude das suas "causas", enquanto vai avançando, ondulante como uma víbora. A esquerda vai sempre em frente, sem pressa, coleante e mansa até chegar à presa.
ResponderEliminarTodos sabemos como muda a pele!
Vou fazer de advogado do diabo. (como sabem, diabo, só há um).
ResponderEliminarPortugal tem uma excelente posição no que respeita a violência policial. Um morto pela polícia cada 2 anos em média de 30, muitíssimo abaixo de países como França, EUA ou Alemanha e muitos outros.
Acresce que os governos a par de equipamento móvel e de comunicações que sempre foi insuficiente e hoje está degradado, não forneceram à polícia "wecameras", "tasers" nem armamento alternativo com balas de borracha. tudo existente nos países que referi.
Como questão de fundo, sem ir ao concreto, neste panorama, louvar a polícia é moralmente correcto, especialmente como reação a declarações que a demonizam e são exibidas em manifestações do BE como o cartaz "Polícia bom é o polícia morto".
André Ventura (ou Pedro Pinto?) disseram que se calhar se disparassem mais a matar não havia tantos criminosos (ou perto disso estou a citar de cor). A primeira observação que faço é que isto não é incitar, que seria, por exemplo "devem dispara mais vezes a matar". A segunda é que podia ter sido dito pelo Senhor de La Palice. O que levanta a questão de saber se a frase foi politicamente errada ou não. Moralmente terá sido mas politicamente tenho dúvidas.
É que, se Ventura queria atenção, conseguiu. E isso é uma vitória política. E maior favor lhe fizeram com a queixa-crime. Se não for condenado a mensagem que vai passar é "Ventura tinha razão". Se for condenado tirará enormes dividendos por vitimização.
Acho que a esquerda em geral e a extrema esquerda em particular, não têm noção que o ruído alimenta comunicação social (e vice-versa, é "feed-back") mas não enche urnas de voto.
ResponderEliminarÀ medida que a força e a severidade da realidade for surgindo o juízo irá aparecer, a insanidade discursiva canhota cairá em descrédito ou asco. Vai ser amargo, mas não há como fugir.
A realidade ganha sempre ao discurso!