O título do post é um descarado aproveitamento de uma frase de Margarida Bentes Penedo no seu artigo de hoje no Observador: "No fundo, o PAN não faz política, faz sentimentalismo".
Andava há uns dias com uma vaga ideia sobre um post que falasse da discussão sobre o acesso a creches gratuitas nos Açores, não sobre a substância da coisa, mas sobre a acrimónia da discussão.
Tanto quanto percebi, o Chega resolveu fazer uma proposta de critérios de acesso a creche gratuita que beneficiava os pais empregados, proposta essa que terá sido aprovada.
O problema de fundo é a escassez de oferta de creches gratuitas, matéria em que parece que o actual governo dos Açores até tem dado uns passos para o resolver.
Convenhamos que sem escassez relevante de acesso a creches gratuitas, mesmo que seja porque o acesso é pago, não haveria questão nenhuma porque a generalidade das pessoas teriam acesso a lugares nas creches, no caso de haver muitos lugares gratuitos em creche, ou a selecção far-se-ia com base na capacidade económica dos pais, o que naturalmente beneficiaria os mais ricos em relação aos mais pobres, entre os quais estão os beneficiários do RSI.
Resumindo, a discussão é uma discussão normal sobre critérios de acesso a creches gratuitas num contexto de escassez de oferta.
Há bons argumentos para adoptar critérios de acesso preferencial em função do rendimento e há bons argumentos para adoptar critérios de acesso preferencial em função da disponibilidade dos pais.
No primeiro caso, considera-se que as crianças que mais beneficiam com esse acesso são as crianças provenientes de meios sociais mais frágeis e pobres (é de um paternalismo e injustiça tremendos considerar que a capacidade de educar bem os filhos é uma questão meramente económica e de rendimento da família, desprezando o esforço e os resultados de milhões de famílias pobres do mundo que, apesar do contexto difícil, educam bem os seus filhos, independentemente de ser verdade que é melhor ser rico, bonito e ter saúde, que ser pobre, feio e doente).
No segundo caso considera-se que resolver os problemas dos pais que têm de conciliar um dia inteiro de trabalho com a educação das crianças é um bem social de primeira grandeza.
Em qualquer caso, esquecer o problema dos pais trabalhadores e das suas dificuldades, fazendo belos discursos sobre o bem maior da educação dos filhos que nos cria a obrigação de defender as crianças de ambientes familiares tóxicos, frequentemente associados à pobreza, é alimentar o ressentimento contra as franjas da sociedade mais marginais, sobretudo se essa marginalidade não for vista com um azar da vida mas a consequência das opções de pessoas adultas e responsáveis.
Resumindo, não é política, é sentimentalismo, o campo preferencial do crescimento da banha da cobra populista, que se move mais facilmente no império das emoções que na secura da racionalidade em que seria bom que as decisões difíceis fossem discutidas.
As pessoas com RSI não trabalham, como tal, bem que podem cuidar dos filhos em casa e desocupar lugares nas creches para quem trabalha.
ResponderEliminarSe não gostam têm boa solução, arranjam um emprego e nessa altura passam a ter acesso gratuito à creche.