Vi que o governo autorizou a compra de aviões para os fogos, repetindo decisões de outros governos.
Assim sendo, repito também o que disse há uns anos sobre o assunto (publicado originalmente no Público, em 2014, com o título "Antes cabras que aviões", não sei se com algumas diferenças em relação ao texto que agora transcrevo porque não posso ler o que escrevi para o Público sem eu pagar para ter acesso a um texto que dei ao Público sem pedir dinheiro nenhum em troca):
"Exmo. senhor ministro da Administração Interna,
Li que tenciona gastar 27 milhões de euros em cada um dos aviões para os fogos.
Tenho uma proposta para lhe fazer: entregue-me os 27 milhões que custa um Canadair e deixe-me geri-los, absolutamente pro bono.
Explico-lhe o que farei com eles. Faço um concurso para projectos que tenham as seguintes características:
1) Terem uma área geográfica definida; 2) Usarem, de forma integrada, fogo, cabras e sapadores para gerirem o mato; 3) As mesmas pessoas responsáveis por gerir o mato serão responsáveis pelo combate nessa área geográfica (usando ferramentas com cabos de pau e pinga-lume, como alguém dizia um dia destes, judiciosamente).
Os projectos poderiam ser de proprietários, associações de proprietários, ONG, associações de bombeiros, qualquer pessoa ou instituição, excluindo o Estado e qualquer associação em que o Estado tivesse mais de 15% do capital.
Da experiência que tenho por gerir um projecto que tem algumas semelhanças com o descrito (financiado, veja lá, com o Fundo EDP de Biodiversidade, porque o Fundo Florestal Permanente é gerido como sabe), eu diria que tipicamente um financiamento de 500 mil euros seria suficiente para financiar cinco anos a gestão de qualquer coisa como 2500 a cerca de 5000 hectares, incluindo um rebanho de 200 cabras e apoio técnico, em especial para o uso do fogo, quer na prevenção, quer no combate.
O seu Canadair financiaria cerca de 50 projectos, ou seja, a gestão e combate em 100 a 200 mil hectares. Não ficaria o problema dos fogos resolvido, isso é certo, mas também não fica com o Canadair.
E repare na diferença. O Canadair é importado, as cabras são de fabrico nacional. O Canadair usa combustíveis fósseis, as cabras são recursos renováveis. O Canadair cria custos de manutenção, as cabras criam cabritos. O Canadair não altera os dados do problema, as cabras estrumam o solo e aumentam a produtividade. E, last but not the least, no fim do seu tempo de vida útil o Canadair dá ainda despesa para o seu desmantelamento e tratamento dos resíduos e as cabras dão chanfanas.
Não falo sequer na diferença de criação de emprego, não falo da presença de gente no território, não falo da diferença no equilíbrio territorial, não falo da transferência de recursos entre o litoral e o interior.
E não falo da sustentabilidade futura: o Canadair não cria riqueza e vai ser preciso de novo gastar mais 27 milhões qualquer dia, as cabras reproduzem-se e criam oportunidades de negócio incríveis, como pode imaginar, por exemplo, pensando na grande distribuição a fazer promoções de cabrito como forma de apoiar o esforço colectivo de gestão do fogo.
Pense nisto, senhor ministro, porque talvez estejamos de acordo num ponto essencial: inteligente, inteligente é sermos capazes de gerir o fogo e não precisar dos melhores meios possíveis para o tentar combater.
Até porque o fogo teima em se rir dos Canadair e outras sofisticações tecnológicas, continuando só a obedecer a quem o combate com os pés no chão, com as mãos em cabos de madeira e com uma cabeça fria que saiba usar o fogo contra o fogo."
As cabras não rendem comichões..........
ResponderEliminarAlém de que - está implícito, mas valerá a pena sublinhar - mais vale prevenir do que remediar.
ResponderEliminar«estado em tudo se mete» desastradamente
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ResponderEliminarMesmo assim, os 27 milhões iriam desaparecer mais cedo ou mais tarde: sapadores e os subsídio-dependentes que fossem englobados nesse projecto que mais cedo ou mais tarde iriam abandonar o projecto a não ser que o Estado fosse financiando os tais 27 milhões mais inflação todos os anos.
A única solução é implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais, a começar, repito, a começar, pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos.
Ora, isto iria provocar o rápido povoamento do interior do país aumentando significativamente o número de aldeias em todo o país que iriam, pelo seu próprio interesse, criar pequenos negócios agro-pecuários e florestais e seus derivados (criação de riqueza).
Obviamente a criação de caprinos e ovinos iriam atingir muito rapidamente alguns milhões de cabeças.
O aumento da produção agrícola, pecuária e o aproveitamento silvícola juntamente com as centenas de milhares de pessoas em todo o interior rural fariam desparecer os incêndios.
Com tanta carne caprina e ovina (além da bovina, suína e avícola) , rapidamente os preços iriam tornar-se competitivos e os consumidores poderiam não consumir tantos recursos piscícolas marinhos o que poderia proporcionar o aumento dos recursos marinhos nomeadamente a sardinha.
No fundo, o que é preciso é dar uma valente machadada no socialismo (ao implementar as reformas estruturais) e proporcionar condições para que a economia natural (capitalismo) prevaleça e se expanda, pois milhares de empreendedores iriam a começar a produzir muito rapidamente produtos e serviços.
Seria bom que esta gente dos governos desse ouvidos a quem sabe da poda, mas é o desse. As cabras não viabilizam grandes hipóteses de arranjar umas boas massas pela via da corrupção, mas com os muitos milhões dos aviões, isso é canja.
ResponderEliminar""? Tenho a ideia que o Pol Pot já fez isso. E era socialista. Sem ofensa, até porque ao ler uma das últimas crónicas deste blog (que não é do HPS, e poderá ser irónica), consegue-se perceber o que motivou os Khmers Vermelhos.
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ResponderEliminarEstás completamente equivocado JPT.
A implementação dum salário mínimo é que é um medida de engenharia radical, que por cá foi implementado logo após o 25 de Abril, ou seja, quando os comunistas tomaram conta do país.
Não houve ninguém que tivesse vontade/coragem política de abolir isso, por isso, nominalmente vai aumentando todos os anos sendo a primeira causa da enorme devastação silenciosa (dificultando a operacionalização das empresas, constrangendo investimentos, dificultando a criação de riqueza e de postos de trabalho, destruindo a produtividade , bloqueando a inovação e minado o moral) que vai ocorrendo no país a todos os níveis. Não esquecer que isso é um aumento de impostos para as empresas que reverte posteriormente para toda a sociedade.
E alguma coisa de útil, tem ideia?
ResponderEliminar"Vontade política" de eliminar uma retribuição mínima legal para um conjunto cada vez maior de pessoas que votam (e fazem greves) parece-me impossível que haja ou alguma vez venha a haver, numa democracia (regime que, enquanto nos forem emprestado dinheiro e a gente o for pagando, se manterá). Para mais, tinha de ser a "vontade política" de 2/3 dos deputados, porque o raio do salário mínimo está previsto na alínea a) do n.º 2 do art.º 59.º da Constituição (não vale a pena dizer que é socialista, já sei, até porque está lá escrito).
ResponderEliminarJPT
ResponderEliminarÉ por causa destas aberrações legislativas, que mais cedo ou mais tarde surge a resposta da gestão, criando soluções alternativas, como, por exemplo, criam empresas de trabalho temporário que fornecem os "trabalhadores", ou seja, em vez dos custos laborais serem classificados contabilisticamente como Custos com Pessoal na Demonstração de Resultados, são englobados nos Fornecimento e Serviços Externos na Demonstração de Resultados, ou seja, há, devido à legislação, um trabalho desnecessário dos gestores, ou seja, perda de tempo e dinheiro, em vez dos gestores dedicarem-se ao essencial.
Outras alternativas, foram criadas pelo próprio Estado ao criar os recibos verdes, o despedimento colectivo, etc., quando tudo poderia ser mais simples, rápido e eficaz, e já agora, daria milhões se a legislação fosse simples com as reformas estruturais que mencionei.
Se houvesse a abolição do salário mínimo e a liberalização dos despedimentos cairia praticamente toda a legislação laboral e se os descontos fossem abolidos (tanto os descontos por parte dos trabalhadores (11%) como por parte da entidade patronal (23,75%), além de quase toda a legislação da segurança social, cairia mesmo a quase totalidade dum Ministério com muitas dependências e organismos incluídos.
Era assim antes de 1974, mais coisa, menos coisa e, coisa estranha, saíram de Portugal um milhão e meio de pessoas e do campo ainda mais (porque muitas foram para as cidades).
ResponderEliminarHenrique Pereira dos Santos
ResponderEliminarSempre houve (há vários séculos) uma tendência de saída do interior para o litoral e provavelmente sempre haverá, afinal, é nas cidades que sempre houve e haverá as melhores oportunidades de crescimento pessoal, tanto ao nível económico, social, cultural, etc.
Durante o século XX, além de saírem para o litoral, no início, as pessoas saíam para o Brasil e colónias, depois nos anos 50 para as colónias, nos anos 60 e 70 para França para fugir à guerra colonial e no pós 25 de Abril, para o litoral e quando a crise aperta para o exterior.
O problema é a tendência acelerada da saída do interior, porque simplesmente a subida do salário mínimo todos os anos torna cada vez mais difícil e menos competitiva a obtenção de rendimentos para uma larga população ficando muito poucos por lá.
As cidades principais do interior têm poucos habitantes face ao seu potencial, as vilas são pequenas e muitas aldeias são minúsculas (dá para perceber isso quando os imigrantes reaparecem em Agosto) ou muito simplesmente desapareceram.
Voltando aos incêndios, não há gente suficiente para criar competitivamente ovinos e caprinos (deveriam ser às centenas de milhar de cabeças senão mesmo ultrapassar mais de um milhão de cabeças) para limpar as florestas, haver carne, leite, queijo a preços muito mais baratos que os actuais e mesmo assim rentáveis para os produtores.
Ainda haveria um melhor aproveitamento agro-florestal, produção de estrume e composto, reflorestamento, criação de pequenos negócios familiares que gerariam lucros suficientes para novos negócios mais sofisticados.
A tendência de saída acelerada é dos anos 60, quando não havia salário mínimo, o que invalida toda a sua argumentação
ResponderEliminarQuanto às restrições aos despedimentos, e ao peso da burocracia e das contribuições nos contratos de trabalho, e aos seus resultados (recurso ilícito ao trabalho temporário, às falsas prestações de serviços e bolsas de investigação) não podia estar mais de acordo, sendo que o Estado e as Empresas Públicas são os primeiros a violar a lei. É, de facto, escandaloso que seja mais fácil uma pessoa divorciar-se do que despedir um trabalhador, e está na ordem do possível alterar esse estado de coisas. Já os restantes pontos, contendem com a dignidade das pessoas (se admitirmos que não há salário mínimo, admitimos que uma pessoa pode trabalhar por dormida e comida, por exemplo; e se admitirmos que não há descontos, admitimos que não haja qualquer forma de segurança social, e mandamos grande parte de população para a Mitra), que é uma fronteira da liberdade.
ResponderEliminarSaíram para evitar serem mobilizados para a guerra colonial, não saíram por motivos económicos.
ResponderEliminarÉ fácil contornar. É só colocar valor baixo.
ResponderEliminarPenso que depois de uma barbaridade deste tamanho, não faz sentido qualquer conversa
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