Não, nunca conheci José Forjaz e não conheço nada do seu trabalho, a não ser a partir das muitas horas que passei num dos seus primeiros projectos em nome pessoal, a casa que desenhou para a irmã mais velha e para o cunhado, ligação inútil porque na altura os meus interesses não tinham qualquer relação com os sítios em que estava, porque nem sabia o que era a arquitectura e, last but not least, porque a minha memória é péssima.
Acontece que um dos meus colegas de escola, cujo rasto perdi durante anos, mas cujo contacto retomei há alguns anos, viveu nessa casa e tem um album de fotografias que lhe é dedicado e tive curiosidade em ver quando começaram a chover referências à morte de José Forjaz.
Numa dessas fotografias reparei num que referia o facto de, à porta, estar o carro do pai de José Forjaz, o que me despertou a curiosidade de saber como foi José Forjaz parar a Moçambique (por ter curiosidade sobre esse tipo de coisas é que recomendo, de vez em quando, a leitura de livros como o "Torna-viagem", ou o "Antes que a gente morra", gosto de testemunhos em primeira mão, e a verdade é que vamos morrer todos, levando connosco o que aprendemos, se não o deixarmos escrito).
Eu não tenho paciência para o discurso a preto e branco (sim, há ironia na escolha desta caracterização desse discurso, mas também objectividade) actualmente dominante sobre o colonialismo (uma boa ilustração do que me irrita está bem descrita neste artigo do Senhor João, que o Observador publica hoje, descrevendo o comportamento do rebanho woke) e, para além disso, tenho um grande fascínio pela possibilidade de falar com pessoas que viveram a morte dos mundos que os criaram, quer tenham ou não consciência de que o mundo que os criou morreu.
Comecemos bem atrás.
O colonialismo é uma ideia da segunda metade do século XIX e, no caso das colónias portuguesas, é uma história que verdadeiramente começa no fim do século XIX.
Até lá, o que havia era uns pontos de apoio para o comércio e pouco mais.
Tomemos como ponto de partida a mudança de capital de Moçambique, em 1898, meros 70 anos depois dos primeiros portugueses se estabelecerem permanentente no que é hoje a cidade de Maputo e meros trinta anos depois do reconhecimento de facto da soberania portuguesa sobre a região, que ainda demoraria mais uns anos a que fosse reconhecida de jure pelas potências coloniais da altura.
Durante as primeiras décadas do século XX, e na sequência de algumas acções militares do fim do século XIX que pacificaram a região (Gungunhana é derrotado em Chaimite, a cerca de 200 quilómetros de Maputo, em 1895), a cidade vai crescendo, com base no seu porto e no caminho de ferro que a ligava ao interior de África, nomeadamente à então república do Tansvaal e depois África do Sul, mas o governo português não tem grandes meios e condições para levar a cabo uma verdadeira política colonial, mantendo um regime de prazos e companhias majestáticas em Moçambique, como forma de afirmação da soberania, a par de uma retórica colonialista com pouca relação com a realidade (de que a cedência ao ultimatum inglês, de 1890, era a demonstração clara).
Com o Estado Novo, quer por razões de eficácia da acção do Estado, quer por razões ideológicas de afirmação nacional, quer porque o mundo tinha mudado, a política colonial vai alterar-se no sentido de efectiva ocupação e administração das colónias.
Ao mesmo tempo, com a crise económica dos anos 20, o principal destino da emigração portuguesa, o Novo Mundo, deixa de ser atractivo, o que faz com que mais gente decida ir para África tratar da sua vida, sobretudo porque a emigração pós-guerra só vai passar a ser relevante no fim dos anos 50 e anos 60.
O pai de José Forjaz, pressionado pelas dificuldades em criar sete filhos, decide ir para Moçambique, juntando-se-lhe a mulher uns anos depois, com os três filhos mais novos (houve atrasos nesse reagrupamento familiar, relacionados com concursos para professores, ao contrário do mito dos colonialistas que iam para as colónias explorar terceiros sem dó, grande parte dos que vão para as colónias africanas ou são pessoas desesperadas à procura de um vida melhor e decididas a correr quaisquer riscos para isso ou, como é o caso, são funcionários que não podem correr riscos e só vão com situações relativamente estabilizadas).
José Forjaz terá 16 anos, acaba o liceu na então Lourenço Marques (o liceu que frequentou deveria ter sido inaugurado há muito pouco tempo, é de 1952, e vinte anos mais tarde, quando o frequentei, continuava a ser um belíssimo edifício, bem demonstrativo da alteração da política de investimento do Estado português nas colónias), uma cidade em franco crescimento (em 1955 é aprovado o seu primeiro Plano Geral de Urbanização, que é depois substituído pelo seu Plano Director, em 1969, com fortíssima influência de Álvaro Dentinho, provavelmente o arquitecto paisagista mais criativo da sua geração e um dos de maior influência na prática de ordenamento do território fortemente enraízado na compreensão dos territórios para que planeia) e de grande modernismo no edificado.
E pouco depois vai estudar arquitectura para o Porto, faz um mestrado em Nova Iorque, estabelecendo-se na Swazilândia, não em Moçambique em que continuam os pais e irmãos.
Embora durante os seus anos da Swazilândia vá de vez em quando a Moçambique, é só depois da independência do país que vai para Moçambique, fazendo a carreira pública e de arquitectura conhecida no país, com uma grande proximidade ao regime, que suponho que terá variado com o tempo.
Embora outro dos seus irmãos ainda tenha ficado em Moçambique uns anos (poucos) depois da independência, a verdade é que o regime fez a opção de hostilizar os "colonialistas brancos", confundindo regimes políticos com pessoas com base na cor da pele, e fazer andar para trás a política de acolhimento de quadros que tinha vindo a ocorrer desde meados dos anos 40 (quando também o meu pai foi para Angola, embora numa situação um bocadinho diferente, porque todos os seus dez filhos nasceram em África com a excepção do único que nasceu em férias), desperdiçando um capital humano brutal que, na sua larga maioria, estava disposto a viver num Moçambique independente (não era o caso do meu pai, que estava a preparar a reforma que iria ocorrer em 75 ou 76, mas seria o mais provável no caso de alguns dos meus irmãos mais velhos que entretanto, depois de estudar em Lisboa, tinham voltado para Moçambique).
Não sei se poderia ter sido de outra maneira - a história não admite contra-prova - mas o facto é que os regimes e os governos fazem opções, não tão livremente quanto se poderia pensar, é verdade, mas fazem opções, e a opção dos regimes pós-coloniais tem sido a de preferir a retórica que favorece o seu exercício do poder à responsabilidade de cuidar dos seus cidadãos.
Por muito que isso seja compatível com percursos pessoais e humanos como os de José Forjaz, o facto é que foi feito à custa do desperdício de um capital humano que se reflecte até hoje no dia a dia das pessoas comuns desses países.
Essa responsabilidade é de quem foi tomando essas opções ao longo dos últimos 50 anos e é bom não esquecer isso nas discussões sobre pós-colonialismo e o futuro desses países.
«quem não consegue dar pão, fornece nacionalismo»
ResponderEliminarentretanto os povos fogem para os braços do colonizador
Ainda há umas semanas li sobre os prazos na wiki. https://en.wikipedia.org/wiki/Chikunda
ResponderEliminarprazeiros
Pode ler a "Breve história de Moçambique" onde esse tipo de perturbações estão bastante pormenorizadas (o facto da tsé-tsé ser endémica impe os agricultores de ter gado, o que torna as culturas pastoris do centro e agrícolas do litoral praticamente incompatíveis)
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarDizia um articulista- há uns tempos- no CM, que á porta da embaixada portuguesa em Luanda todos os dias havia uma fila com 1000 angolanos a querer vir para o país Colonizador.
ResponderEliminarNão somos assim tão maus!
No caso de o Henrique ainda não ter conhecimento dele, chamo a atenção para este outro, e recente, livro sobre Moçambique, apesar de não resultar de um «testemunho em primeira mão»:
ResponderEliminarhttps://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/lourenco-marques-os-boers-e-muito-mais-1010208
Obrigado
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ResponderEliminarQuando li o post do HPS, lembrei-me dum texto imperdível "A síndrome Isabella" que lhe recomendo.
Daqui:
https://delagoabayworld.wordpress.com/category/pessoas/helena-cabecadas/
Já agora, mais do que um blog, trata-se de um quase arquivo de memórias sobre Moçambique antes de 74 e que nos dá a "dimensão" da vida quotidiana naquela província ultramarina. (Os temas são variados e estão por ordem alfabética na coluna à direita). A não perder:
https://delagoabayworld.wordpress.com/