sábado, 28 de dezembro de 2019

"terrível destruição de riqueza nacional na era da troika"

A frase de título do post é exemplar para explicar os problemas profundos do jornalismo dominante.


A frase está no editorial do Público de hoje, é escrita por Manuel Carvalho (há por lá outros editorialistas que é natural que escrevam coisas destas sem que se justifique qualquer sobressalto por parte dos leitores) que não é propriamente um novato em questões de economia. Aliás, estou convencido de que a frase aparece apenas num automatismo de escrita sobre os activos que se vendem em Portugal, sem ser propriamente uma frase pensada para dizer o que diz.


Só que a frase está tão errada que, aparecer assim, como se fosse normal escrever isto, diz mesmo muito sobre a nossa iliteracia económica: a diminuição do PIB no tempo da troica não corresponde exactamente à destruição de riqueza, mas sim ao mero ajustamento entre economia e finanças no país.


Durante anos, antes da troica, fomos paulatinamente destruindo riqueza, ao mesmo tempo que o endividamento nos permitia disfarçar o que estava a acontecer. Criar dívida é o resultado de se gastar mais que o que se ganha, ou seja, é consumir riqueza, pelo menos temporáriamente. Se essa dívida servir para aumentar activos que depois nos permitem produzir mais riqueza, compensa esse consumo de riqueza temporária, mas se não servir para aumentar a nossa capacidade futura de criar riqueza, então criar dívida é destruir riqueza.


O que se fez, no tempo da troica, foi resolver, parcialmente, os mecanismos de destruição de riqueza que estavam instalados, repondo a nossa capacidade futura de produzir riqueza e pagar dívidas, ou seja, o que se fez no tempo da troica foi parar a destruição de riqueza e lançar as bases para a futura criação de riqueza.


Que, ainda hoje, o editorial do Público, subscrito por Manuel Carvalho, persista em espalhar histórias da carochinha inventadas por destruidores profissionais de riqueza, diz mais sobre a crise da imprensa e os problemas estruturais do país que sobre o tempo da troica.


Não admira por isso que a conclusão geral do editorial seja o reforço do proteccionismo de Estado como solução para Portugal, retomando exactamente a base da destruição de riqueza que nos conduziu à "era da troika".

2 comentários:

  1. Não é só por termos um sistema partidocratico/oligarquico endemico e uma lei eleitoral fechada à sociedade que o país não avança há um quarto de século. É porque a classe jornalística tem vindo a afastar os poucos que traziam algum debate incomodativo para a ribalta, puxando cada vez mais para baixo o  nível da informação e sendo responsável pela apatia da maioria da população que já nem vê, e bem, qualquer interesse em se deslocar para votar. 

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  2. O Manuel Carvalho é, como já tive oportunidade de denunciar, uma p(rostit)uta deste regime esconso. Sendo que o que ele escreve é o que pensa: não precisa de estudar para aprender. É um fura-vidas da escola da estupidez natural - um fulano que sabe estar no lado vencedor. Se a ortodoxia fosse outra, ele seria outro - sem reticências ( para ter saudavelmente algumas, teria de fazer algum esforço - e ele não gosta. Nem precisa )

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