sábado, 24 de agosto de 2019

A Amazónia ainda vai ter muito que agradecer a Bolsonaro

Foi num comentário de Frederico Lucas que vi pela primeira vez a ideia (depois vi várias pessoas a dizer o mesmo) de que a Amazónia parece ter muito a agradecer a Bolsonaro: o desmatamento da Amazónia, um grave problema ambiental do ponto de vista da perda de biodiversidade e de relação com as alterações climáticas, ocorre desde os anos setenta, teve picos algures lá atrás, algum abrandamento posterior, mas pelos dados dos últimos anos, tem estado a aumentar (os dados deste Agosto são maus, mas menores que os de 2012 e 2014, menos de metade dos de 2007, embora quase o dobro de 2012, se se consultarem estes dados, que são coerentes com os da Nasa, medidos a partir das emissões, que indicam 2019 como estando mais ou menos na média dos últimos quinze anos).


O NASA Earth Observatory é claríssimo, na análise até ao dia 22 de Agosto: "As August 16, 2019, an analysis os Nasa satelite gata indicated that total fire activity across the Amazon basin this year has been close to average in comparison to the past 15 years (The Amazon spreads across Brazil, Peru, Colombia, and parts of other countries). Though activity appears to be above average in states of Amazonia and Rondonia, it has so far appeared below average in Mato Grosso and Pará, according to estimates from Global Fire Emissions Database , a research project that compiles and analyzes NASA gata" (obrigado Paulo Fernandes pela referência). 


E, no entanto, Macron quer o G7 a discutir os fogos na Amazónia (sem a presença dos países implicados), a ONU já falou no assunto, o Papa disse qualquer coisa e anda por aí um enorme frisson.


O que mudou de essencial este ano (visto que as variações nos números parecem relacionar-se mais com as normais variações meteorológicas anuais, mesmo que neste caso não se esteja a falar de fogos brutais de áreas favoráveis ao fogo, mas sim de queimadas conduzidas pelos agricultores e criadores de gado, numa região muito pouco favorável ao fogo)?


O que mudou foi Bolsonaro.


Talvez o mais evidente sintoma disto seja a monumental hipocrisia do Bloco de Esquerda e de Catarina Martins que, em 2017, pedia que chovesse para resolver os fogos de Pedrogão e criticava a instrumentalização política de tragédias com origens complexas (e muito bem), mas dois anos passados não tem o menor pudor em apontar o dedo a Bolsonaro como responsável por uma tragédia com origens complexas, e com forte expressão muito anterior a Bolsonaro.


A primeira palavra do título do destaque de ontem do Público, sobre os fogos na orla da Amazónia (o chamado arco da desmatação, que vai muito para lá do Brasil. incluindo uma forte actividade de desmatamento na Bolívia de Evo Morales, sem que ninguém lhe peça contas) é "Bolsonaro".


Manuel Carvalho, no mesmo Público, faz um editorial criticando o sectarismo da discussão sobre o desastre da Amazónia, sem no entanto deixar de escrever, contra os dados, "Será assim tão difícil reconhecer que não, o problema da desmatação da Amazónia não começou com Jair Bolsonaro e que sim, desde que Bolsonaro está no poder que a desmatação atingiu o ritmo mais alto em muitos anos" (a mim não me custa nada reconhecer as duas coisas, os dados existentes é que são um bocado relutantes em reconhecer esta última parte).


E depois, duas páginas depois, no mesmo Público, temos mais uma declinação do monumento à hipocrisia que é a posição do bloco de esquerda por Pedro Filipe Soares, e Rui Tavares na última página, a responder ao director do Público que sim, eles têm mesmo dificuldade em reconhecer que o problema do desmatamento da Amazónia é mesmo um problema antigo que tem atravessado governos de todas as cores e feitios.


Até agora o que parece ser a grande contribuição de Bolsonaro (saltando por cima da retórica do próprio e olhando para os dados que existem) é o facto de se ter criado um alvo que toda a gente pode criticar, abrindo espaço para que o problema global do desmatamento da Amazónia seja de novo um tema central para tanta gente, deixando de ser escamoteado ou desvalorizado como tem sido há muitos anos a esta parte.


Para quem, como eu, acha sempre que os governos influenciam muito menos os processos sociais do que pensam, mas ainda assim os influenciam, Bolsonaro não me aquece nem arrefece nesta matéria (aliás, até hoje, para além de uma retórica frequentemente infantil, de vez em quando passando para a grunhice pura e dura, ainda não percebi o que Bolsonaro tem feito com o poder que lhe entregaram), mas é bem provável que a remoção do escudo protector que a superioridade moral da esquerda tem criado em relação à discussão do que faz a esquerda com o poder que lhe é entregue, seja uma excelente, embora involuntária, contribuição de Bolsonaro para uma gestão mais sensata do problema do desmatamento da Amazónia.


E isso seria motivo para que a Amazónia, se tivesse consciência, agradecesse profundamente a Jair Bolsonaro.

4 comentários:

  1. Excelente!!! Muito obrigado!!!

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  2. micron com colete amarelo
    'derepemtemente' todos sabem de tudo

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  3. Só falta o membro da 'Nomenklatura' - Francisco Louçã - dizer que a culpa dos incêndios na Amazónia é do - EUCALIPTO . . .

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  4. O Bolsonaro anda a deitar fogo à Amazónia desde 1970. Não sejam mentirosos.

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