segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Família

 


Tenho para mim que todos os modelos de adaptação da célula familiar que tenham como objectivo a solidariedade e transmissão de conhecimentos são legítimas, até porque  a minha casa não constitui propriamente um modelo linear.


É dentro desta perspectiva que sou um acérrimo defensor da manutenção duma estrutura familiar forte, que vai muito para além da fracção nuclear. É por um projecto assim que me bato, em que a liberdade é promovida em equilíbrio com a responsabilidade duns em relação aos outros e com a sua história. A família quando alicerçada em sólidos valores é o salutar bastião do livre arbítrio do individuo em relação aos grandes movimentos de massificação e de poder. Para a sociedade em geral, a família constitui o garante duma essencial diversidade estética e cultural: possuidora cada uma do seu legado de informação transgeracional, a família alargada é um insubstituível microcosmos, qual espelho e plataforma de mediação dos seus elementos com a comunidade e com o Mundo. Este factor é extremamente útil para um privilegiado desenvolvimento das crianças: as estruturas familiares mais sólidas potenciam uma resistência inteligente à massificação e à  submissão dos indivíduos aos grandes poderes como as avassaladoras modas impostas pelo Mercado e... pelos Estados demasiado intrusivos.


É fácil entender porque é que as mais cruéis ditaduras do século XX sempre combateram os modelos tradicionais de família, que de facto tendem a funcionar como autênticas bolhas de oxigénio numa sociedade sufocada pela pressão do controlo.


Finalmente considero uma causa algo obscura o extremo individualismo promovido pelas correntes liberais de costumes, hoje em dia patrocinadas pela generalidade dos poderes políticos. Sem consistentes referências sociológicas e culturais, as pessoas tornam-se vulneráveis, qual papel em branco fácil de ser preenchido e doutrinado por qualquer sinistro poder. Que até pode ser o Estado. 


 


Este texto, entre outras coisas estava em dívida para com a Jonasnuts 

13 comentários:

  1. "É fácil entender porque é que as mais cruéis ditaduras do século XX sempre combateram os modelos tradicionais de família"

    E não foram as primeiras.... como é que era aquela história de colocar irmão contra irmão, pai contra filho?

    ResponderEliminar
  2. Caro João Távora.
    Creio que concordarás que isso não implica que todas as outras famílias sejam obrigatoriamente configuradas segundo o modelo que consideras preferível.

    ResponderEliminar
  3. Não há neste post de que eu discorde (no essencial, vá), a questão que eu acho que nos divide tem a ver com aquilo a que chamamos família. A minha família são os que eu escolho (que não são necessariamente os que me calham na lotaria genética), são as pessoas com quem eu escolho partilhar esta jornada. A forma como formalizo (ou não) essa escolha (papel passado, igreja, sinagoga, seja o que for) não tem qualquer importância para a minha escolha.

    ResponderEliminar
  4. Isto digo eu, que até nem sou monárquico22 de fevereiro de 2010 às 12:50

    Há coisas que me deixam completamente boquiaberto.

    Tive conhecimento de dois ou três processos de adopção, e, para além do tempo interminável que os casais tiveram que esperar, passaram por montes de entrevistas e fizeram-lhes todo o género de perguntas.

    Lembro-me de ter comentado qualquer coisa como «bolas, eu dizia aos técnicos passem mas é muito bem, que uma coisa é procurarem entregar a criança a gente idónea e outra quererem devassar a privacidade de cada um».

    Afinal, hoje em dia diz-se que lésbicas e gays conseguiram adoptar (pessoas individuais podem fazê-lo, como se sabe), ignoro como e à luz de que critérios e se o fizeram escondendo a orientação sexual.

    --------------------

    Se contra o casamento de homossexuais o sou medianamente (e nada me repugnaria uma solução de união civil), sou radicalmente contra a adopção por homossexuais.

    Colocar crianças pequenas à guarda de dois pais ou de duas mães, levadas à escolinha e dela trazidas por essas pessoas, situadas perante as outras que têm uma mãe e um pai (mesmo que estejam divorciados ou haja uma viuvez), fazê-las espectadoras de manifestações de afecto, melhor, de atracção sexual que perceberão distintas das que vêem por onde andarem, parece-me monstruoso.

    ResponderEliminar
  5. Eu partilho na íntegra o texto do João Távora.
    Está certo? Para mim está. É esse o meu conceito de família. Acresço, porém, que concordo também com o comentador Jonas...há sempre lugar para juntarmos à nossa família, aqueles que gostam de nós, que se interessam por nós. O sangue não é impeditivo disso, sendo certo muitas vezes, e isso eu «quase não entendo», encontramos mais o espirito de familia no «estranho» à família, do que no parente.

    Mas...as provações, os instrumentos de prova, não raro, estão na família, e tudo funciona como num exame...sofremos, calamos como na «Escola» mas há que passar com a melhor «nota», para não termos que repetir e, assim, vencer a estagnação...

    Educadinha

    ResponderEliminar
  6. não podia concordar mais com este post.

    ResponderEliminar
  7. Cara Jonasnuts: Se leu bem o que escrevi e concorda no essencial ainda bem, isso é que é importante.

    ResponderEliminar
  8. EXCERTOS DE «MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO»:

    Acabam de chegar a casa furibundos. Lívidos. Histéricos. Jamais haviam sofrido semelhante desaforo.

    A proposta parecia tentadora, girérrima, e o cachet sempre seria um agradável reforço pra umas férias com muito sol e muito bronzeador, daquele que custa uma nota mas afasta o perigo solar a atrai o bronze.
    Tinham ido os três: o Tótó, o o Miky e o Miguelito, o seu querido filho adoptivo.
    (- Miguelito, nada! Eu sou o Miguel e fax'avor quero ir para o rugby.
    - Mas filho, que mania! Um desporto tão violento...).

    O Miguel (Miguelito) lá ia suportando como podia aquelas secas imensas das exposições e da maldita arte. Sempre a arte, as pinturas, as cores, as paisagens. Tinha 14 anos e já gostava de gajas.
    Mas naquele dia não lhe desgradara a ideia do anúncio. Parece que só precisava dar quatro chutos na bola, correr no relvado, dar uma psicadela de olho e depois sentar-se com ar muito feliz entre o Tótó e o Miki.
    Foi assim que estes lhe explicaram. Tudo muito fácil. Partiram os três para os estúdios da TV, onde aliás trabalhava um ex-namorado do Miky. Seria rápido e seguro. Regressariam com o cachet e o Miguel já tinha uma história para contar na escola.

    Mas não é que saiu tudo ao contrário? Depois de uma breve espera, apareceu um senhor - ouviu chamar-lhe «director comercial» que desbundou em gestos e frases gaguejadas, intermináveis, com o Tótó e o Miky.
    Estes gesticulavam, berravam, ameaçavam com o tribunal...
    - Isto é um escândalo...
    - ... descriminação!
    E o homem tentava acalmá-los, desculpava-se, baixava a voz como a pedir-lhes para não se esganiçarem tanto...
    Nada! Vieram embora sem os quatro chutos na bola, o cachet e a história para a rapaziada da escola.
    O Miguel quis saber porquê.

    E o Tótó e o o Miky lá lhe foram explicando que a aqule spot publicitário era só para familias convencionais, casais heterossexuais?

    - Como os pais dos meus amigos? É por isso que eles não podem vir cá a casa? - perguntava o Miguel muito desapontado, vagamente enojado com a camisa cor-de-rosa dos seus pais adoptivos.

    ResponderEliminar
  9. "É fácil entender porque é que as mais cruéis ditaduras do século XX sempre combateram os modelos tradicionais de família"

    Ai sim? Quais ditaduras? E como?

    ResponderEliminar
  10. Senhor João Távora concordo plenamente consigo em tudo o que escreve sobre a família e o seu papel na sociedade, o único e ligeiro reparo que nada retira de valor ao seu pensamento, é de rigor histórico pois como já alguém observou, das ditaduras do século XX apenas a comunista por motivos ideológicos combatia a família.

    ResponderEliminar
  11. Caro João.

    Não é preciso ter uma grande família para se ser um grande humanista.

    Alguns dos maiores casos de dedicação e humanismo que conheço provêm de famílias monoparentais que por acaso do destino uniram os seus laços para contrariarem as carências de uma sociedade que os rejeitou ou olhou de soslaio.

    Concordo com o texto aplicado ao factor educação, esse sim um ponto fundamental para formar um cidadão.

    A família será sempre um bastião fundamental mas não tem de estar fundamentalmente colocado como meio único de servir de base à formação do bom cidadão.

    Quanto à noção de família e Estado comunistas, não se esqueça meu amigo que o regime neo-fascista (utilizo o termo porque não sei catalogar num contexto político) de Salazar era fundamentado na família, não como forma de fazer prevalecer o humanismo mas sim como forma de preservar o atraso de um povo em nome de uma tradição.

    Muitos liberais e social-democratas combateram este conceito de família do Estado Novo, monárquicos liberais também e foram perseguidos por isso.

    A meu ver a família estará sempre acima do Estado mas há que ter em conta que milhares de pessoas estariam bem melhor sem família do que com ela e felizmente não é o meu caso; nesses casos o Estado terá de ter sempre a responsabilidade de desagregar a família tendo em vista o interesse maior da criança !

    ResponderEliminar
  12. Caro Nuno: a sua primeira afirmação está de acordo com o que eu escrevo no 1º paragrafo.
    De resto a atribuição a Salazar, que cometeu erros e abusos, dum conspirativo apoio à família para sustentar o atraso nacional, parece-me uma teoria algo fantástica. Insisto que a família estruturada, mais ainda em termos alargados, tende a funcionar como um espaço de autonomia e liberdade em relação aos grandes poderes.
    Cordeais saudações,

    ResponderEliminar
  13. Caro João.

    Talvez tenha a sua razão.

    Fui um pouco injusto ao misturar o conceito de família com o conceito de Estado Rural de Salazar pois a família é mais que isso !

    No fundo segui a cartilha do regime de Deus Pátria e Família mas se as houveram que alimentaram o sistema também as houveram que tudo fizeram para o derrubar, algumas pagaram um preço muito alto !

    Retribuo as cordiais saudações.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...