"De repetente, não mais que de repente" (gosto imenso deste verso) passou a discutir-se o número de presos políticos antes e depois do 25 de Abril.
É um progresso, durante anos era impossível falar de presos políticos depois do 25 de Abril (os únicos que reclamavam, com sucesso, esse estatuto, não eram presos políticos, eram os militantes das FP25, presos por terrorismo e associação criminosa).
O problema é que os donos da verdade histórica (um dia destes vi um historiador, doutorando em Cambridge, ou seja, não propriamente um mané qualquer, defender a existência de uma comissão com os PALOPS para se estabelecer a verdade histórica em relação à escravatura e confesso que ainda estou de queixo caído sobre o poder da ideologia sobre a racionalidade, ao ponto de um historiador achar que é possível estabelecer, para sempre, uma verdade histórica), dizia, os donos da verdade histórica sobre o Estado Novo precisam de muitos, muitos presos, executados, torturados, para manter viva a sua versão do Estado Novo.
Acontece que o Estado Novo foi uma ditadura, com uma polícia política, que prendia, torturava, exilava pessoas com base nas suas ideias políticas, mas foi, historicamente, uma ditadura bastante contemporizadora com grande parte da oposição, não prendendo, matando ou exilando tanto como outras ditaduras contemporâneas, mesmo eliminando ditaduras como a de Pol Pot que terá liquidado um terço do seu povo, penso que a maioria, à fome.
E acontece que o regime posterior ao 25 de Abril, em especial durante o Processo Revolucionário em Curso, também prendeu bastante gente, quer por terem pertencido à polícia política do regime anterior, quer por razões várias, algumas delas ainda desconhecidas, nalguns casos.
É normal que depois de uma revolução, a população prisional que se pode considerar presa por razões políticas, como os agentes da PIDE, seja relativamente grande, sobretudo se comparada com o fim de um regime que não era especialmente agressivo com a oposição, excepção feita aos militantes do PCP que tinham actividade oposicionista e se mantinha clandestinamente no país.
Acontece que a SIC, como muita gente, ficou escandalizada com a demagogia habitual de André Ventura sobre o assunto, e resolveu fazer um peça que, dizem eles, serve para verificar se é verdade ou não o que disse André Ventura.
Em vez de avaliar serenamente os factos, resolve falar com Irene Pimentel, que do alto da sua autoridade (na verdade, do alto do seu estatuto de proprietária da verdade sobre o assunto), desata a desqualificar quem quer que seja que discorde dela: ""Eu estudei na Torre do Tombo, não vejo esses historiadores, alguns até são historiadores, mas políticos, deputados, nunca os vi na Torre do Tombo, a ver os arquivos da PIDE, e eu estive seis meses só para contabilizar os presos de 45 a 74. [Estamos a falar de] 12.800 e qualquer coisa", explica a historiadora, acrescentando que esta contabilização não conta com todos os estrangeiros presos ou imigrantes".
Não duvido que Irene Pimentel estivesse tempos infindos à procura dos dados, o que duvido é que não perceba o absurdo deste argumento: "o regime deposto pelo 25 de Abril tinha quase 4.400 prisioneiros políticos, 127 dos quais em Portugal continental e os restantes nas colónias, à data da Revolução".
É que se é para comparar, claro que a comparação tem de ser feita entre coisas comparáveis: se antes do 25 de Abril se somam os presos nas colónias, depois do 25 teriam de somar-se os presos nas antigas colónias, se se contam apenas os do continente numa altura, têm de se contar apenas os do continente na outra altura.
Acho esta discussão uma parvoíce, e acho a referência de André Ventura pura demagogia característica da sua retórica (não se podem comparar presos políticos num regime estabilizado, com o resultado das convulsões de uma revolução, num regime que estava ainda longe de estabilizar), sendo evidente que houve presos políticos, partidos ilegalizados e decisões contrárias ao Estado de Direito depois do 25 de Abril, sendo, por exemplo, altamente questionável a retirada coerciva de nacionalidade, sem opção dos próprios, a milhões de pessoas, entregando o seu futuro a regimes ditatoriais.
Mas se é para fazer a discussão à boleia de uma declaração de Ventura, então que se faça uma discussão racional, e não nos termos em que Ventura quer, com a cumplicidade, evidentemente involuntária, da SIC e de Irene Pimentel.
Toda essa conversa dos presos políticos (tanto no Estado Novo como depois do 25ABR é uma grande "charlatanice" e é mais querer acreditar, que ter bases sólidas para acreditar.
ResponderEliminarFui preso logo a seguir ao 25ABR, por denúncia de um triste "progressista" encartado, e logo solto pelos militares, até houve brinde com whisky e tudo.
Mas nunca me passou pela cabeça chamar-me, ou ver-me como preso Político.
Foi um equívoco, um engano tonto num tempo confuso, só isso
E também é minha convicção que muita dessa gente que fala sobre a coisa, nem é tanto por saberem ou sequer ter algo a dizer é mais para parecerem entendidos e ganharem estatuto
Ora bem!
ResponderEliminarDeixe lá o Ventura em paz. Sabemos bem o q aconteceu no Prec e o q pretendiam os q agora se ofendem com o Ventura. As atrocidades e a ferocidade desses loucos revolucionários estão bem documentadas por muito q as tentem silenciar. O livro sobre o q fizeram a Marcelino da Mata é um exemplo. A verdade custa. Temos pena.
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ResponderEliminarE não é esse o argumento para poucos presos politicos pós 25 Abril?
Isso é que seria normal.
Salientar ainda:
-fraca resistência ao golpe
-falta informação sobre a cronologia dos presos politicos. Quando foram presos?
-falta informação sobre a localização, onde mais foram presos?
-falta informação sobre qualidade dos presos, foram agentes da PIDE o maior número de presos e por mais tempo?
ResponderEliminarAh, Irene Pimentel, a tal que afirmou que o Presidente dos Estados Unidos da América, em 2017, tinha mostrado ignorância ao afirmar, em Varsóvia, que a União Soviética, em 1939, tinha invadido a Polónia.
Tal basta para aquilatar da (falta de) qualidade da "historiadora"
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ResponderEliminarpor falar em bentura:
https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/03/o-virtuoso-andre-ventura-e-as.html
Claro que houve presos políticos -e de todas as cores- durante o regime do antes 25Abril e durante o "prec".
ResponderEliminarMas o importante são "as reparações históricas" mencionadas pela nossa prestigiada classe política. Como tal devia começar-se imediatamente por reparar as perdas sofridas pela actual petro-bilionária classe político-militar aficana, sempre democráticamente apoiada pela incorrupta organização das Nações ditas Unidas.
Percebo a inveja do autor por não ter sido ele o entrevistado, mas só vim aqui para afirmar que a seguinte frase não é minha: "
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ResponderEliminarQuanto à repetição da crítica à "historiadora" relativamente à divisão da Polónia entre a Alemanha nazi (sim ,esta invadiu a Polónia em 1/9/39) e a União Soviética, negociada no Tratado Molotov/Ribentrop já respondi abundantemente e não o vou fazer de novo. Ao menos critique factos e não ficção.
ResponderEliminarA "Descolonização" a desordem e caos que se instalaram foi com grande probabilidade o lado mais negro e trágico do 25ABR.
ResponderEliminarUm dia os historiadores escreverão a história desses dias em que a ordem e a decência desabaram e então se verá de que lado esteve a culpa se é que a houve.
Os meus parabéns ao autor do post. Sem ele, nunca ficaria a saber, e a ignorância não faz bem a ninguém, que há que pense que “
ResponderEliminarHps a repor a verdade dos factos, onde a Pimentel coloca ideologia. Muito bem. Argumentos irrefutáveis.
ResponderEliminarJá começamos a estar bastante fartos de uma certa esquerda, ou melhor, de certos historiadores de esquerda revolucionária, que me parece uma gente transtornada, com sindrome de AMNS (Auto-Mutilação Não Suicida). Já seria mau demais se se circunscrevessem apenas às capelinhas do seu círculo «woke». Mas tal não acontece: porque estão naquele limite do entorse intelectual, amoral e imoral de que padecem _ diria próximo do limiar do borderline. E daí, sentirem este impulso irreprimível de propagar (e impor) o seu discurso doentio, que envenena e contamina toda a nossa identidade colectiva, cultural, social e histórica _ a disrupção que tenta destruir a nossa auto-visão de Pátria.
ResponderEliminarInsisto: essa perspectiva «woke» onde pontua a visão "presentista" da História (olhar o passado com os olhos do presente) espelha bem esse desejo mórbido que sente alívio na auto-flagelação: deve-se açoitar a nossa própria História, chicoteá-la, auto-inflingir-lhe dor, angústia. escoriações, mutilações.... E finalmente, finalmente... o sentimento de culpa colectiva no seu esplendor! E a vergonha, a repulsa e a raiva do passado, esse crime que merece castigo.
Não era minha intenção comentar este assunto mas tantas referências que vi à PIDE, levam-me a lembrar o seguinte. A PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado - como polícia internacional, tinha as funções de polícia de fronteira, as do antigo SEF hoje repartidas (estupidamente na minha opinião) e representava Portugal na Interpol. Tinha competências exclusivas em todo o tipo de crimes internacionais, ou seja, todos os tráficos, e enorme número de outros que normalmente tinham ramificações internacionais, como falsificação de moeda, roubo de joias e de obras de arte. Teria assim umas centenas de elementos entre inspectores, agentes, amanuenses, motoristas, que nunca exerceram funções de polícia política e foram, durante muitos meses, tratados exactamente como os outros.
ResponderEliminarA mesma SIC que que coloquei na página deles no Linkedin, aquando do 50º aniversãrio do 25A, em que eu inseri cópias das notícias do cerco ao congresso do CDS no Palácio de Cristal, Porto, em 1975!!!... Percebe-se melhor ainda, o que é a ""verdade histórica"" para esse pasquim...
ResponderEliminarFiz uma visita ao ano 2034 pelo sexagésimo aniversário do 25 Abril, encontrei este texto num jornal progressista:
ResponderEliminarResumindo . A atitude futura da Esquerda ao 25 de Abril dependerá dos votos que quiserem comprar.
ResponderEliminarA hostilidade de vastas faixas do Partido Democrata dos EUA e do Partido Trabalhista do UK aos "brancos" está aí para o demonstrar.
Afora os avençados, coitados, que, para compensar os salários de miséria e sustentar as famílias, se entretinham a denunciar colegas, clientes, alunos, enfim o que justificasse receber mais uns santos antónios. Tudo gente boa, como diria o Trump.
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