domingo, 19 de abril de 2026

Assim não vamos lá, Sérgio

Gosto de Sérgio Sousa Pinto, tenho genuína simpatia por ele, e isso é completamente independente de haver matérias em que discordamos radicalmente.


Ontem, por acaso, ouvi-o dissertar sobre o Estado Novo (Sérgio Sousa Pinto ainda não tinha feito dois anos no 25 de Abril, portanto o que conhece desse mundo é de estudar e de ouvir dizer) e não vou discutir o quadro negro que traçou sobre a sociedade de medo da época.


Chamou-me a atenção, no entanto, um argumento completamente absurdo que usou.


Citando de cor (ou seja, com eventuais diferenças em relação ao que realmente disse), Sérgio Sousa Pinto diz que conhece os argumentos do grande crescimento do PIB nos anos 50 e sobretudo sessenta, mas que é um argumento sem valor nenhum porque, diz ele, vindo o país da pedra lascada e dos carreiros de bois, era fácil ter crescimento de 4 ou 5% ao ano (uma das coisas de que gosto em Sérgio Sousa Pinto é esta habilidade para usar hipérboles como forma de deixar claro o que pretende dizer, sabendo toda a gente que são exageros retóricos. Já falar em crescimentos de 4, 5 ou 6%, é uma modéstia relevante em relação a vários dos anos em causa).


Em rigor, a primeira manipulação consiste em deixar sub entendido que quem fala do período de maior crescimento (e convergência com os países mais desenvolvidos, este aspecto não é despiciendo) entre meados dos anos 50 e 1973 (eu uso sempre 1973 para balizar este período porque estou convencido da importância que teve o choque petrolífero da época) é porque quer glorificar o Estado Novo e não apenas por ter algum amor à objectividade, respondendo ao argumento recorrente de que o Estado Novo empobreceu o país e as pessoas, o que é redondamente falso.


Não seria, no entanto, este aspecto que me faria escrever este post, é mesmo a substância do argumento de Sérgio Sousa Pinto, que está a dizer que quanto mais pobre se é, mais fácil é ter crescimento económicos robustos.


O argumento não tem pés nem cabeça por uma razão simples: quando mais pobre se é, menor é o capital disponível, e o crescimento económico exige capital (uma circunstância externa que de repente faz fluir um monte de dinheiro para o lado do pobre, como no caso dos países produtores de petróleo, pode levar a um crescimento extraordinário de países pobres, embora isto possa dar origem à "maldição dos recursos" que dificulta o crescimento quando um fluxo extraordinário de dinheiro entra num país cujas estruturas económicas não estão preparadas para responder produtivamente a esse fluxo).


É, no entanto, muito interessante por entreabrir a porta a mais uma mistificação sobre as grandes conquistas de Abril: o 25 de Abril forçou e tornou mais rápida a resposta a problemas sociais relevantes que existiam, isso sim, é claro, mas à custa de uma substancial destruição de capital e subsequentes dificuldades económicas.


Do ponto de vista da sociedade os anos posteriores ao 25 de Abril são de baixos crescimento (em grande parte por causa do tal choque petrolífero, com certeza, mas também como consequência da destruição de capital que dificultou a resposta da sociedade ao choque petrolífero) e do ponto de vista do Estado traduziu-se em intervenções sucessivas do FMI, para mitigar os efeitos do desequilíbrio das contas públicas.


É a minha vez de dizer que conheço o argumento de que os grandes grupos económicos ligados ao regime é que beneficiaram dos grandes crescimentos do PIB nos anos 50 e 60, até 1973, exactamente por estarem ligados ao regime, portanto esta destruição de capital era inevitável com o desmantelamento desses grupos, só que o argumento carece de demonstração como, aliás, Vítor Bento e Luciano Amaral já demonstraram, ao analisar a história do grupo CUF (Luciano Amaral) e no prefácio ao livro daí resultante (prefácio de Vítor Bento que vai para lá do grupo CUF).


A história económica do impacto do 25 de Abril no país, e em especial os efeitos da destruição de capital promovida activamente pelo PC, pela extrema esquerda, pelo MFA posterior a Setembro de 1974 e por grande parte do Partido Socialista, está por fazer, o que é pena.


É pena porque ajudaria a limitar o absurdo de grande parte da argumentação anti-capitalista (muito visível nas redacções dos jornais, se alguém tiver dúvidas, é só ver a maluqueira das discussões sobre a política de habitação), pela demonstração, inequívoca, de que a destruição de capital promovida logo depois do 25 de Abril, sobretudo no ano e pouco que vai de Setembro de 1974 a Novembro de 1975, nos prejudicou a todos.


A ideia peregrina de que não se podem discutir os lados mais sombrios do 25 de Abril porque isso é servir a reacção, é uma ideia que ainda que tivesse alguma validade quando o regime não estava inteiramente consolidado, do que duvido, seguramente é hoje uma ideia que prejudica mais a democracia e a celebração do 25 de Abril do que seria desejável.

8 comentários:

  1. SSP é um militante de um dos vários PS, mas todos procuram atribuir a culpa aos outros. 
    ao meu querido Amigo Raul Rosado Fernandes roubaram: a casa da Família, os 20 ml he de terrenos que possuía e gado de qualidade que adquirira. o PS ajudou a festa do comunas.
    tudo se conjuga para o regresso do PS ao governo, através da UGT e não só, mas também.
    o PS e Chega, depois de brincarem às casinhas vão fazer o mesmo ao país.

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  2. pinto e o atrevimento da ignorância   -   e da ignorância baseada na "clubite"...
    Mas tem (dão-lhe...) palco...
    Juromenha

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  3. Excepcionalmente bom este post, que aliás, poderia ser o esboço de um livro sobre o tema.


    E também acho imbecil e até criminoso, que discutir, pensar e estudar as sombras, e alguns esqueletos do 25ABR possa ser, de perto ou de longe, um atentado á Democracia.


    O 25ABR teve zonas de Luz e também de Sombras, como todas as Revoluções. 


    Querer escamoteá-las equivale a falsifica-las e bem vistas as coisas, a diminuí-las.


    Uma tontice










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  4. Essa história está por escrever, e só poderá ser escrita por alguém numa universidade estrangeira. Assim como a história dos dissidentes do PCP... Nunca, jamais, em tempo algum, a nossa academia permitirá que lhe destruam a estória da carochinha e nunca se vai colocar na posição de ter de justificar as suas posições, e de dar razões dos disparates que papagueia. 

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  5. Por mais voltas que dê, continua com a despudorada defesa do salazarismo. Parece mais novo que o Sérgio Sousa Pinto. E continua sem perceber, nunca o irá conseguir, porque há pessoas que comemoram o 25 de abril. Sombrios, e miseráveis, eram outros tempos. Haja memória.

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  6. Fiquei com curiosidade: é capaz de citar uma linha deste post em que se defenda o salazarismo?

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  7. Caro Anónimo 02;27


    "Sombrios e miseráveis".


    Se a expressão refere o antes de ABR74 não parece a mais adequada. 
    Vivi esses tempos e eram tudo menos "sombrios"


    Se refere o pós ABR74, idem aspas. Também os vivi e francamente, foram tudo menos "sombrios".


    Se se pretende caracterizar pessoas, quer do antes, quer do pós ABR74, creio haver de tudo; 


    extrovertidos, mais ou menos "fechados", risonhos, tristonhos, silenciosos, barulhentos, etc.

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  8. Inteiramente de acordo.


    E fatalmente será assim

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