segunda-feira, 23 de março de 2026

Um equívoco frequente

"o mercado poderá ser parceiro e não senhor, e a universidade poderá continuar a ser aquilo que nenhuma máquina, por sofisticada que seja, consegue substituir, um lugar onde se aprende não só a fazer, mas a julgar."


Estou a citar um professor universitário (tive de ir ver do que é que sabia, porque ser professor universitário não diz nada sobre o que sabe o professor, pode saber tudo de matemática e zero de pintura, como pode saber tudo de música e zero de evolução biológica) num artigo que, desde o título, é uma longa demonstração de como a academia convive, serenamente, com os mais claros equívocos, sem sequer os identificar como tal.


O equívoco até talvez seja mais claro noutro parágrafo: " A universidade terá de resistir à tentação de se definir apenas como fornecedora de competências para o mercado a cada estação. A sua função é também guardar tempo longo, memória crítica, rigor intelectual e formação do carácter".


O equívoco que me interessa (há dois, nas citações, um sobre o que deveria ser a Universidade, que não vou discutir, tenho mais que fazer que explicar por que razão estaríamos muito mal se a formação de carácter fosse delegada nas Universidades, outro, que é o que me interessa, sobre o que é um mercado) tem largo curso na sociedade, não faltando pessoas que falam do mercado como sendo o Mercado do Bolhão, isto é, um sítio onde se compram e vendem coisas.


O mercado, no sentido geral que está nas citações, inclui o Mercado do Bolhão, mas não é um sítio em que se compram e vendem coisas, o mercado, nesse sentido genérico, são relações entre pessoas, com a complexidade que decorre das pessoas serem complexas e diferentes, somando a complexidade e diversidade da forma como as pessoas se relacionam entre elas (por alguma razão se diz que o ingrediente central do mercado não é o dinheiro, mas a confiança).


Infelizmente, boa parte da academia acha que a Universidade não deve ser escrava do mercado, deve ser escrava do que os académicos pensam que deve ser a Universidade, baseados na ideia de que "o mercado" é só um Mercado do Bolhão em grande escala.


Por mim, preferia uma academia escrava do mercado, no sentido de mercado que melhor o define: um conjunto infinito de relações pessoais mediadas por um sistema de informações a que chamamos preço.

8 comentários:

  1. Pois eu que só tenho a quarta classe, pensava que a Universidade era o Lugar onde homens que sabiam, ensinavam os que queriam saber, sobretudo a aprender a pensar e a aprender a partir de que viam, faziam e experimentavam.

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  2. A Universidade deve ser o Lugar onde se Guarda transmite e ensina a pensar, a saber e a aprender saberes gerais e especializados.


    A Universidade deve olhar e privilegiar o que é substantivo e importante e deixar-se dos modismos e tretas que por aí floresceram e apodrecem ainda, desde que Bruxelas teve a triste ideia de derramar uma pipa de massa para a "Formação" e "Qualificação" tendo em vista dar ao  País um; Quadros e dois; Excelência.


    O Resultado prático é que não há cão ou gato que não seja Doutor, Mestre, Especialista ou Perito ou Expert em alguma coisa, mesmo que espremida seja coisa nenhuma.


    Depois tem o velho automatismo Português que obriga a quanto mais  qualificação melhor a remuneração, ainda que a qualificação nada tenha a ver com a função.


    O resultado foi a tremenda escassez de trolhas engajados aos molhos e doutorados á pressa para encher as Faculdades onde é óbvio vão replicar-se.


    Depois de quase 900 anos de porrada, tombos, escorregadelas e uma ou duas quedas monumentais, é de crer que apesar de tudo, o País aguente.


    Mas podia ter tido melhor Sorte

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  3. Eu li o artigoe concordo consigo, as ideias explanadas pelo autor são uma anormalidade normal, o mercado deve-se submeter ao que as primas donas definem. Pois, já nem pensam, quanto mais estudar a história.

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  4. Já somos dois a estar enganados. A opinião que acabou de exprimir, de valiosa que é, não tem preço. 

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  5. recusei convite para catedrático química orgânica porque a universidade inclui grande nº de inutilidades que se guerreiam entre si e detestam a abertura ao país para melhorar a qualidade de investigação.
    ficam a milhas das que frequentei em França e Itália

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  6. Concordo com a sua visão da Universidade. Pena quem decide não o ler, reflectir, e agir conforme os factos aqui expostos
    o futuro passará por duas universidades, uma de cursos inúteis que servirão para pagar o sector e mandar uns quantos para desemprego eterno, e outra restrita a poucos com capacidade intelectual e financeira, que terão acesso a formação nas áreas que o mercado exige.

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  7. Os catedráticos de “química orgânica” devem saber exprimir-se por escrito, no caso em português? 

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