terça-feira, 24 de março de 2026

Jornalismo formatativo

transacao casas.jpg


Quando vi que ontem tinha saído mais este relatório do INE, sobre preços da habitação, sabia que ia encontrar hoje, na primeira página do Público (não forçosamente a grande manchete da capa, como aconteceu, poderia ser apenas uma pequena chamada de primeira página), uma referência a mais um artigo de Rafaela Burd Relvas a demonstrar que as políticas de habitação do governo (deste e dos anteriores) estão erradas porque não optam pela limitação administrativa dos preços.


A minha dúvida era só sobre o papão que seria agora usado, visto que o peso das compras de estrangeiros diminuíram e que Rafaela Burd Relvas é muito criativa a encontrar formas originais de dizer o mesmo de sempre (ao ponto de conseguir que o jornal faça uma grande parangona sobre o facto dos preços subirem mais onde há mais oferta, como se não fosse normal que a oferta aumente onde os preços crescem mais, isto é, onde a procura aumenta mais rapidamente que a oferta).


Façamos um resumo breve dos últimos dias da campanha política contrabandeada como informação pelo jornal Público nesta matéria, maioritariamente por Rafaela Burd Relvas.


No Sábado passado havia manifestações convocadas em 16 cidades portuguesas pela organização Vida Justa, apoiada por noventa outras organizações e colectivos "comme ils disent" (aproveitando para fazer propaganda de uma música muito boa de Aznavour sobre travestismo e homossexualidade, num tempo em que não era fácil fazê-lo).


Logo, o Público acha bem, para mobilizar o povo, entrevistar Rita Silva, licenciada em Desenvolvimento Comunitário e Saúde Mental, com um mestrado em Desenvolvimento e doutoranda de Economia Política, activista nas questões do direito à habitação e à Cidade, e membro da tal organização Vida Justa.


Não vou discutir a entrevista, que se espraia por duas páginas e contém explicações muito interessantes para o aumento do preço das casas que negam essa ideia de oferta e procura (a classificação da lei da oferta e da procura nestes termos não é minha, é de Rita Silva) que agora anda por aí, mas apenas assinalar que o Público acha normal entrevistar uma das promotoras de uma manifestação, concedendo-lhe duas páginas, exactamente no dia da manifestação (opção, por exemplo, que não adoptou no caso dos promotores da Marcha pela Vida que estava convocada para o mesmo dia).


No dia seguinte, Rafaela Burd Relvas faz uma peça sobre a manifestação de Lisboa (não sabemos o que aconteceu nas outras quinze cidades para onde foi convocada), em que entrevista alguns participantes e nos diz que as manifestações da Vida Justa têm vindo a perder manifestantes, mas ainda assim devem ser qualquer coisa entre mil e dois mil manifestantes (uns 20 manifestantes por cada organização ou colectivo que a apoia, diria eu), sendo o Público totalmente omisso em relação à Marcha pela Vida que terá juntado o dobro das pessoas.


Na Segunda-feira o Público lá faz uma referência à Marcha pela Vida, não porque tenha reparado que tinha o dobro dos manifestantes da manifestação a que o Público já tinha dedicado umas três páginas nos dois dias anteriores, mas porque, na opinião do Público tinha havido um incidente no fim dessa manifestação (o Público acha que o arremesso de um cocktail de Molotov para o meio de um grupo onde estão crianças é um incidente, eu acho que o Público está parvo), talvez por isso tenha dado descanso à campanha pela limitação administrativa dos preços das casas, exactamente no dia em que o INE produz informação relevante, com base na qual fiz o boneco com que começo este post.


O boneco mostra que Rafaela Burd Relvas tem razão quando diz que as medidas dos governos não têm feito diminuir os preços da habitação (felizmente, digo eu, num país em que 70% dos agregados são donos das casas onde vivem, a diminuição dos preços de habitação traduzem-se num empobrecimento muito generalizado) e também tem razão em dizer que os preços têm aumentado mais que as transacções nestes últimos dois, três anos.


Se o preço das casas fosse determinado pelos governos, isso quereria dizer que as medidas dos governos têm beneficiado mais a procura que a oferta, o que realmente pode estar a acontecer, só que, desmontado o mito dos estrangeiros, seria preciso criar um novo papão e Rafaela Burd Relvas (e o Público) não desiludem, agora são as empresas que, comprando mais caro que as famílias, fazem aumentar os preços das casas.


É claro que se Rafaela Burd Relvas quisesse informar os seus leitores, em vez de os querer formatar, teria ligado a informação que foi publicada ontem com a informação publicada uns dias antes, no dia 20 de Março, sobre "RENDIMENTO E CONDIÇÕES DE VIDA – HABITAÇÃO, ENERGIA E AMBIENTE, em que poderia verificar que quase noventa por cento dos agregados em risco de pobreza vivem em casas com mais de dez anos e estão satisfeitos ou muito satisfeitos com a casa que têm, ou seja, ao contrário do que pretende Rafaela Burd Relvas, a falta de casa não é um grande problema para cerca de 90% dos agregados em risco de pobreza, nem, por maioria de razão, para os outros, é sim um grande problema para uma pequena fatia da população que se caracteriza por chegar agora ao mercado de trabalho (por ser muito nova, ou por ter imigrado há pouco tempo) e ter baixos rendimentos.


E que esses, do que precisam, é de mais casas, coisa que se resolve mais facilmente liberalizando o arrendamento, reforçando a confiança dos proprietários e construindo mais casas que limitando administrativamente os preços (quer de arrendamento, quer de venda), solução que em todo o lado em que foi adoptada deu o resultado que a teoria económica prevê: escassez de oferta.


De resto, Rafaela Burd Relvas repete, pela enésima vez, a conversa de que Portugal é o país europeu com casas mais sobrevalorizadas (ideia que vai buscar a um estudo do ano passado), esquecendo-se de explicar que o conceito de sobrevalorização desse estudo não é um conceito objectivo, é uma construção teórica absurda que compara preços de casas (uma coisa que diz respeito uma parte relativamente pequena das casas existentes num país, que são aquelas que estão no mercado num determinado momento) com rendimentos da população, que é um fluxo económico que diz respeito a toda a gente (que inclui a esmagadora maioria da população que não está, neste momento, a comprar ou arrendar casa).


Por que razão é possível a alguém em concreto (poderia dar o exemplo de Joana Gorjão Henriques com a sua campanha privada relacionada com a quantidade de melanina que se tem na pele, ou Inês Schrek a escrever sobre saúde) usar o Público para campamnhas políticas pessoais contrabandeadas de jornalismo?


Por uma razão simples, porque os responsáveis pelo jornal e a generalidade do jornalismo acredita mesmo que o jornalismo não é uma actividade cuja função central seja informar os seus leitores, mas sim formatar os seus leitores.

28 comentários:

  1. Ok, a função do jornalismo, de um determinado jornalismo é tentar formatar as pessoas que compram e lêem os jornais.
    E qual é a função dessas pessoas, dos compradores?
    Continuar a comprar?
    Ou se as botas que me tentam calçar são demasiado apertadas, deixar de usar botas, dar descanso aos pés?
    Não será preferível umas alpercatas, uns chinelos de enfiar no dedão ou mesmo andar descalço que calçar os botins da igualdade submissa?

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  2. Isto não é para mim óbvio.


    Se as pessoas vivem numa casa e essa casa aumenta de valor de mercado, as pessoas não ficam mais ricas, porque não podem disponibilizar esse valor a não ser vendendo a casa em que habitam, e então ficariam ricos mas sem-abrigo.


    Nos EUA parece que é comum os bancos disponibilizarem crédito pessoal aceitando como garantia uma hipoteca, e então as pessoas que habitam uma casa que aumenta de valor ficam de facto mais ricas porque podem, hipotecando essa casa, adquirir um crédito pessoal maior. Em Portugal, porém, segundo julgo (posso estar errado), não é costumeiro os bancos fazerem isso.


    O aumento do valor das casas somente beneficia aquelas pessoas que, além da casa em que habitam, dispõem de uma outra casa que podem vender. E muito menos do que 70% da população está nessa situação.

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  3. a falta de casa [...] é [...]um grande problema para uma pequena fatia da população


    Curiosamente, porém, estudos de opinião dizem que a carestia das casas é um dos problemas que nais preocupa os portugueses.

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  4. O leitor dotado de um módico de discernimento opta, fatalmente,  pelos conceituados produtos da Editorial Renova...
    Garantia de qualidade , imparcialidade e ética , face ao esfregão em causa...E a outros esfregões " de referência" que vão andando por aí...por enquanto...
    Juromenha

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  5. a função do jornalismo, de um determinado jornalismo é tentar formatar as pessoas que compram e lêem os jornais


    Historicamente, sempre assim foi. Desde sempre que o objetivo do jornalismo - e do texto escrito em geral - é apresentar uma certa visão da realidade.


    Conforme Yuval Noah Harari mostra no seu livro de 2024 Nexus, a função da comunicação humana em geral sempre foi dupla: por um lado comunicar a realidade, por outro tentar convencer o recetor das ideias do emissor.

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  6. Os compradores fazem o que querem e ninguém tem nada com isso.

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  7. Com tanta asneira é natural que não seja óbvio.
    Quem tem uma tonelada de ouro não é rico até vender o ouro, é a ideia base dos disparates seguintes.

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  8. Como o nome indica, os estudos de opinião, são apenas conjuntos de opiniões, e convém, em matéria económica, avaliar essas opiniões sabendo que entre os que as pessoas dizem que querem e o que realmente fazem há uma enorme distância.
    Como eleitores votamos a favor de leis de protecção do trabalho justo, de elevados padrões ambientais e sanitários, etc., mas depois, como consumidores, compramos no chinês, que é exactamente o que se passa no mercado de habitação: toda a gente diz que é impossível os portugueses comprarem casas e todos os anos o número de transações aumenta, esmagadoramente entre portugueses que compram e vendem casas.

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  9. O Público não tem a menor intenção de comunicar a realidade, o Público catequiza, não comunica, em muitos casos

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  10. as agressões de uma claque a uns futebolistas e as mitomanias online de uns "incels") é de estarrecer o tratamento jornalístico deste caso, mesmo considerando a "omertà" imposta pelas redacções, desde sempre, à "Marcha (anual) pela Vida"  (tanto que só soube da sua existência quando me vi cercado pela multidão, há uns anos, precisamente, na Rua de São Bento).

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  11. O mais espantoso foi o célebre cocktail Molotov que segundo li "não deflagrou nem explodiu".


    Ora um cocktail não ter explodido não é extraordinário porque os Molotov simplesmente não explodem.


    Já não ter deflagrado é revelador da grunhice tosca e bronca que lhe subjaz.

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  12. Se houver uma bolha, como aliás dizem que há com o preço das casas, a coisa não é comparável.

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  13. Ninguém tem nada com isso... até o acto de compra ser colocado na esfera publica.  Aí pode comentar-se, não?

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  14. Errado, tudo errado.
    O hps está correcto na sua análise, faltam argumentos para refutar.

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  15. Exactamente 
    O mercado de habitação em Portugal está bem e recomenda-se, por mais que Públicos e Observadores, antros do marxismo, queiram divulgar o oposto.
    Existe criação de riqueza, valorização do património, e acesso ao mercado dentro das possibilidades financeiras dos cidadãos. 

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  16. Quem tem uma tonelada de ouro não é rico até vender o ouro


    A diferença é que quem vende ouro não fica com falta de nada. Quem vende a casa em que habita fica sem-abrigo.
    Portanto, quem tem uma tonelada de ouro é efetivamente rico; quem tem uma só casa, que habita, não fica muito rico por ela se valorizar, uma vez que não a pode vender, sob pena de ficar sem-abrigo.

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  17. Uma importante referencia sobre estudos de opinião:

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  18. Ocorreu um ataque terrorista em Portugal há uns dias. Nenhum jornalista o noticiou. 

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  19. Claro que pode comentar, mas continua a não ter nada com isso

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  20. A ideia de que quem vende a sua casa fica sem abrigo porque não pode pagar um hotel ou comprar outra casa mais barata está ao nível da sofisticação intelectual do resto do comentário.

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  21. E existe uma crescente dinamização do mercado evidenciado pelo aumento do número de transacções.

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  22. Também sobre as opiniões dos cronistas do Público ningém tem nada a ver com isso, e no entanto cá estamos

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  23. Exacto.
    E se deixarem o mercado actuar ainda mais livremente, melhor a situação irá ficar

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  24. https://www.jn.pt/nacional/artigo/comprar-casa-em-portugal-exige-esforco-superior-a-40-do-rendimento-mediano/18066043


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  25. Isso não refuta nada
    Concentre-se no dinamismo do mercado e na criação de riqueza.

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  26. Página Um pelo menos não escondem o que se passou:


    https://www.paginaum.pt/2026/03/24/cobertura-jornalistica-sobre-o-ataque-violento-na-marcha-pela-vida-na-mira-da-erc


    Note como os outros jornais escondem que a ERC está supostamente a averiguar.

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