sábado, 28 de março de 2026

O jeitinho é uma instituição nacional

O Governo lançou mais um apoio à realização de fogo controlado, recorrendo à espécie de saco azul que existe para estas coisas a que se dá o nome de Fundo Ambiental (a falta que me faz uma Iniciativa Liberal que tivesse um mínimo de respeito pela sua história).


Fantástico, se eu for dono de um terreno, posso recorrer a esse mecanismo para financiar a sua gestão através de fogo controlado, pensei logo eu, erradamente.


Fantástico, se eu for uma empresa de resinagem, de gestão florestal, de produção pecuária, posso recorrer a esse mecanismo para financiar a sua gestão através do fogo controlado, melhorando o desempenho económico e ambiental da minha empresa, pensei logo eu, erradamente.


Fantástico, a Montis, uma associação de conservação da natureza que leva gestão a terrenos marginais em que ninguém está interessado, exactamente os que mais ardem, pode expandir o seu programa de fogo controlado, pensei log eu, erradamente.


É que, numa opção sistemática e completamente consciente deste Governo, os apoios à gestão florestal ficam interditos a quem faz directamente gestão florestal, pessoas, empresas e associações independentes, o tal programa define como beneficiários apenas as seguintes organizações:


Comunidades intermunicipais (que não são donas de terrenos nem fazem gestão florestal, de maneira geral), Autarquias locais (Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia) (que podem ou não ser donas de terrenos mas, de maneira geral, não fazem gestão florestal directa), Organizações de produtores e proprietários florestais (que não são donas de terrenos e só fazem gestão florestal por mandato de terceiros, cobrando por esse serviço, ou directamente, ou através de um sistema de quotização), Entidades Gestoras de Baldios (essas sim, fazem gestão florestal), Entidades Gestoras de Zonas de Intervenção Florestal (que não são donas de terrenos e só fazem gestão florestal, quando fazem, por mandato de terceiros) e Associações Humanitárias de Bombeiros (que não são donas de terrenos e não fazem gestão florestal).


A ideia é clara: os proprietários e gestores são pessoas em quem não se pode confiar e devem ser obrigadas a arranjar um jeitinho qualquer para incluir os seus terrenos nas opções de terceiros, pagando o respectivo tributo (em dinheiro ou submissão, depende das circunstâncias), para poder beneficiar, parcialmente, do pagamento que a sociedade decidiu que era razoável fazer pelo serviço que prestam.


Portugal é assim, um país de jeitinhos, em que a pequena corrupção é incentivada pelas regras e, quando por razões fortuitas alguém resolve fazer perguntas sobre as razões para que alguém receba dinheiro para despesas de representação ao mesmo tempo que imputa a terceiros essas despesas, há logo um coro de pessoas a justificar a bondade ou irrelevância de não cumprir as regras que previnem a pequena corrupção e o tráfico de influências.


Abandonai toda a esperança, vós que aqui viveis, escreveria o outro se vivesse hoje em Portugal.

5 comentários:

  1. Muito do que os governos fazem é isto, não é só em Portugal. Fomentar a economia politica, aquela que está dependente da criação das regras e regrinhas. 
    Montenegro sabe muito bem isto, tem/teve uma empresa precisamente para ajudar a manobrar nesta economia que foi criada pelos politicos.

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  2. Francisco Gomes da Silva28 de março de 2026 às 13:41

    Tudo isto é triste...e não é fado.

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  3. O histórico mostra que sempre que alguma coisa é corrigida, fica pior


    O melhor conselho; não pie, faça de morte, deixe como está.


    Se a vida lhe der agarre com as duas mãos, se eles vierem cobrar, fuja

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  4. Aquela coisa do Upton Sinclair acerca de fazer compreender coisas pouco rentáveis - ah, obrigado googles: "It is difficult to get a man to understand something, when his salary depends upon his not understanding it."

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  5. Esta opção faz todo o sentido, no contetxo atual: o Governo trabalha para as autarquias, principalmente para os autarcas do PSD que elegeram a actual liderança. Há uma pilha infinita de favores a pagar, de lugares a garantir, e de corporações a apaparicar: se qualquer uma destas entidades beneficiárias ficasse de fora, vinham a público arrancar cabelos e etc... provavelmente esta opção - torta - também limita o número de candidaturas, e facilita a gestão da coisa. Já abandonei toda a esperança de que isto algum dia venha a ser um país. Como dizia o Vasco Pulido Valente sobre o nosso séc XIX: modernizámo-nos, era inevitável que o comboio cá chegasse. Mas, por baixo continuámos atávicos e pequeninos. 

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