quarta-feira, 11 de março de 2026

O grande capital

O título do post é o título de uma das músicas de um dos melhores discos de Sérgio Godinho, à queima-roupa.


A letra dessa música, como acontece na generalidade desse disco, feito imediatamente depois do 25 de Abril, é bastante clara: "o grande capital, está vivo em Portugal e quem não o combate é que dele faz parte".


Tem, no entanto duas imprecisões: o grande capital, nessa altura, estava vivo em Portugal, é certo, mas bastante combalido, e a segunda imprecisão é que quem combate o grande capital também dele faz parte, não é apenas quem não o combate.


Em Portugal, o grande capital estar vivo não é grande problema, pelo menos comparado com o problema muito maior da sua escassez.


O facebook lembrou-me um boneco que publiquei há 12 anos, um dia depois do INE ter publicado as contas do país de 2013.


contas 2013 e anterior.jpg


O boneco é muito ilustrativo da importância do grande capital na nossa riqueza colectiva.


Em 1995, confiando que estarmos na "Europa" nos impedia de falir, o país desatou a importar mais que exportar, que é como quem diz, a gastar mais que o que ganhava.


Isso pode fazer-se, quer por períodos limitados, quer para alavancar investimento cujo retorno seja maior que o serviço da dívida associado, mas fora estas circunstâncias, quando se gasta mais que o que se ganha, o que se faz é consumir capital, e quando o capital é pouco (nos países mais pobres, tal como com as pessoas mais pobres, é mais frequente ser difícil acumular capital porque a poupança é sempre feita à custa de restrições ao consumo considerado essencial), com certeza só é possível gastar mais que o que se ganha, pedindo emprestado, isto é, empobrecendo.


Ali entre os anos 2000 e 2003 ainda parece que estávamos a ganhar juízo (não Jorge Sampaio, que protestava com o facto do governo estar demasiado preocupado com o défice), mas depois perdemos a cabeça e elegemos José Sócrates.


O que nos afecta na eleição de Sócrates não é a eventual corrupção e o eventual dinheiro que meteu ao bolso, o que nos afecta mais é ter governado mal, no sentido em que investiu o que não tínhamos em coisas sem retorno suficiente, reforçando um processo de endividamente sem fim à vista, em que fomos apanhados em contra-pé quando houve uma crise financeira.


O boneco mostra que o próprio Sócrates estava a ganhar juízo, ainda antes da intervenção da troica (ver a melhoria entre 2008 e 2010), só que o volume da dívida, isto é, a falta do grande capital, era de tal maneira que quem nos poderia emprestar dinheiro, ao Estado, mas também às empresas, começou a achar que o risco não compensava, tinha sítios melhores para aplicar os seus capitais (já de si mais reduzidos que antes, devido a uma crise financeira que queimou bastante capital).


É com a entrada da troica e do seu programa de correcção de desequilíbrios, que Passos Coelho executou estoicamente, que a coisa muda e, como se vê pelo boneco abaixo, mudou por vários anos.


nec financ.jpg


Podemos discutir se não seria melhor enriquecer a uma velocidade maior, aumentar a taxa de poupança para acumular mais capital (que, aliás, tem vindo a subir, ultimamente), o que implica melhorar a eficiência e a produtividade, mas o que é facto é que estamos hoje melhor, desse ponto de vista, do que estávamos há anos atrás.


Inegável, no entanto, é que para melhorar a eficiência, melhorar a produtividade, aumentar o rendimento dos trabalhadores, haver mais ou menos capital, do grande e do pequeno, não é nada indiferente, apesar de continuar a haver gente a mais (é ver a discussão sobre o pacote laboral), sobretudo nas redacções dos jornais, que continuam convencidos, como Sérgio Godinho, de que combater o grande capital é um dever moral que devemos respeitar para que cheguem os amanhãs que cantam.

25 comentários:


  1. Excelente texto, com assetividade e sem falácias ideológicas. É bom ler quem sabe.
    Infelizmente, quem decide, apenas lê o Público e Observador, enquanto vai ouvindo a SicNoticias...

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  2. Caro H P S


    Gostava muito e estou certo que serei apenas um entre muitos, de saber a sua opinião sobre as hipóteses ou  falta delas, de aplicações para o pequeno investidor em Portugal ?


    Gostava de saber a sua opinião sobre Banca se fazer pagar pelos depósitos que aceita, enquanto os usa para o seu negócio e ficando com o lucro, sem que o depositante veja um chavo.


    Sei que é Liberal e adepto do Livre Mercado, mas o caso da Banca em Portugal não tem nada a ver com isso;


    Na verdade é só abuso de posição dominante e é uma forma de dizer, porque na verdade a coisa é mais feia 


    Agradeço antecipadamente

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  3. já vivi em várias ''grandes capitais'' com ''muito capital''.
    Sampaio (1996-2006) apoiou a construção de 10 estádios de futebol em vez de casas. fomentou o endividamento público, hoje duplo do deixado por Cavaco em 1995.
    no momento não estamos melhor porque o PS não sabe nem deixa governar o País. depois de 2 bancarrotas veio uma 3ª e não creio que seja a última.

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  4. é Liberal e adepto do Livre Mercado, mas o caso da Banca em Portugal não tem nada a ver com isso


    A banca nada tem  ver com o liberalismo em parte nenhuma do mundo atual (creio).


    Em todos os países, a taxa de juro diretora é objeto de uma decisão política por parte do Banco Central, que é um organismo do Estado. Todas as outras taxas de juro ancoram-se nessa taxa de juro diretora. Assim, o negócio bancário não é feito na base de um jogo de livre oferta e procura de dinheiro, mas sim na base de uma decisão política.


    Em particular, na Zona Euro a taxa de juro diretora está, por motivos políticos, colocada (pelo Banco Central Europeu) abaixo da taxa de inflação. Por esse motivo, os juros que os bancos comerciais oferecem aos seus depositantes também estão abaixo da inflação.

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  5. Bolsa, fundos de investimento, certificado de aforro, depósitos vários.  Não faltam opções. 

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  6. O país não é uma ilha. Houve uma crise global financeira em 2008. Não me diga que a culpa da crise do subprime é de Sócrates. E os nossos bancos - que todos diziam ser "seguros sérios e confiáveis" - estavam cheios de negociatas e dinheiros mal parados. Só não faliram em bloco porque foram salvos com dinheiro dos contribuintes.
    Ouvi frases que nem sabia serem possíveis, como ouvir banqueiros (os tais sérios e confiáveis) a dizer que não conseguiam identificar os credores de milhões. Nem na mercearia da esquina se gere tão mal o crédito.

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  7. Os grandes investimentos estruturais executados no período da Governação Sócrates (autoestradas, túneis, barragens, escolas, tribunais, eólicas,...) não são uma herança maldita. Antes pelo contrário. Se tivesse continuado a governar, teriamos TGV para Madrid e novo aeroporto, prontos e pagos. Depois dele tudo parou. Os nativos fugiram do país ou deixaram de procriar. A imigração massiva de empregados de mesa e apanhadores de fruta foi disfarçando as contas públicas e a ausência de crescimento estrutural. Na altura, quem falhou foi o BCE de Trichet. Tivesse Draghi entrado mais cedo com o seu murro na mesa e a história económica, política e judicial do Portugal recente teria sido muito diferente.

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  8. A minha casa custou 92500 euros há 30 anos, agora vale 300 mil, até isto ajudou a acumular capital em imobiliário. Com 300 mil compro uma quinta em Castelo Branco com uns hectares e casa com piscina e whatever.

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  9. Na realidade só combatem o pequeno e médio capital pois o grande capital é Internacional e tem quase tudo(inclusive os média) sobre controlo.

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  10. as hipóteses ou  falta delas, de aplicações para o pequeno investidor em Portugal


    Depende daquilo que chamar "pequeno".


    Se tiver dez mil euros (ou mais) para investir, o melhor é comprar umas ações. É certo que paga comissão de guarda de títulos, mas os rendimentos das ações mais que cobrem essa comissão. Há ações que dão bom rendimento, por exemplo NOS, REN, Caetano, e Ramada.


    No entanto, as ações portuguesas estão atualmente muito caras. Será talvez bom aguardar que desçam um tanto.

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  11. A questão é que os Bancos Comerciais, tirando depósitos a prazo, não oferecem taxas ao depositante 


    Na verdade eles cobram taxas ao depositante, enquanto se servem do seu dinheiro.


    É em minha opinião, uma roubalheira, a que chamam, eufemisticamente de Comissões de Manutenção e Comissões de Gestão de Conta.


    E o Banco de Portugal finge que não tem nada a ver com o caso 

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  12. Comprar e vender acções, para a generalidade dos cidadãos é como se fosse em Marte.


    Eu não sei simplesmente como o fazer.


    Acho que poderia (e deveria) ser uma coisa simples, tipo multibanco.


    Podendo o mesmo tipo de transações abranger títulos co Tesouro, Divida Pública, acções de Clubes Desportivos, etc..


    Só tenho dificuldade em perceber uma coisa; 


    Porque não não se faz (1) ?




    (1)-Ocorreu-me agora, que pode ser uma estratégia para forçar o cidadão as jogar na "raspadinha"

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  13. É a RTP c mão no bolso do Contribuinte, depois há aquele com a mão no bolso da Família Azevedo e o outro c a mão no bolso da Banca, como dizia o outro; custa é saber viver

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  14. Há bancos que não cobram comissões. Ativo Bank, Crédito Agrícola e Bankinter são, ao que julgo, alguns deles.

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  15. Se é um investidor mesmo pequeno e se tem alergia a comissões bancárias, tem no Crédito Agrícola um fundo de investimento imobiliário que valoriza mais ou menos 4,5% ao ano. Mas não distribui rendimento e as condições de levantamento são difíceis (só se pode levantar o dinheiro com pré-aviso de um ano ou coisa parecida).

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  16. Comprar e vender acções, para a generalidade dos cidadãos é como se fosse em Marte.

    Eu não sei simplesmente como o fazer.


    Fale com o seu gestor bancário, que ele ensina.


    Primeiro tem que abrir uma conta de títulos, o que é simples. Depois, pode comprar e vender ações online, sem precisar do gestor. É, de facto, mais simples comprar e vender ações do que fazer o mesmo com produtos estruturados ou com obrigações (de clubes de futebol ou de outras empresas), apesar de esses outros produtos até serem mais seguros para o investidor do que ações. (Contradições da regulação bancária...)


    Não deve comprar nem vender ações a não ser em quantias relativamente grandes (cerca de 10 mil euros em cada operação), caso contrário as comissões tornam-se relativamente mais pesadas.


    O meu conselho é ver as ações como uma fonte de rendimento, não como uma especulação. Compre um lote delas e depois não as venda durante uns anos: todos os anos elas dar-lhe-ão em dividendos um rendimento jeitoso. Mas tem que escolher as empresas. Tal como sugeri, REN, NOS, Caetano e Ramada parecem-me as melhores escolhas.

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  17. Por outras palavras É mas é como se Não fosse.


    Mas não me canso é de admirar o alheamento calmo e ausente, do  Banco de Portugal, que presumo seja a autoridade que regula e superintende nestas coisas.


    É como se não existisse e isto é vendo pelo lado soft

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  18. Para avivar a nossa memória, aqui vai um texto que não nos deixa esquecer quem foram os dois "construtores" deste nosso brilhante presente e futuro. 

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  19. Grato pelas informações


    Muito Obrigado

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  20. O pior de tudo é que a RTP simplesmente não corresponde, e o Poder que a tutela limita-se a receber o ordenado e finge que não sabe, nem vê.


    Mau. Muito mau mesmo

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  21. Portugal necessita de legislação qur proteja o grande capital. De preferência legislação que não fique à mercê de putativos governos de esquerda. 
    Acrescentar,  deixar o mercado funcionar na saúde,  ensino e transportes,  sorvedouros de impostos recebidos coercivamente, e onde o Estado actua à revelia das leis concorrenciais.

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  22. O Estado pode e na verdade é isso que faz, actuar á margem das Leis Concorrênciais.


    Mas também traz uma imensa quantidade de gente, que de outra forma estaria arredada para o Consumo e Serviços.


    Imagine a título de exemplo que a Saúde ou os Transportes, viviam só dos que os podem pagar.


    Tire do Mercado todas as ineficiências, duplicações, complicações e acrescentos em Termos de Administração e Serviços Públicos e verá o que isso acrescenta ao Desemprego e tira ao Consumo.


    Para já não falar da fatia a que dá emprego e paga salário, de alto a baixo na escala, que estaria no Desemprego pelo simples facto de não ter aptidão ou competências mínimas, para o Privado

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