sexta-feira, 20 de março de 2026

Como o conforto moral matou a escola de natureza

Quando Jorge Moreira da Silva era Secretário de Estado, usou a experiência dos filhos na escola europeia para pedir ao ICN que desenhasse um programa escolar de visitação às áreas protegidas.


Como na altura o ICN tinha um dos raros presidentes que sabiam o que era a sua função (João Menezes), foi pedido aos serviços que desenhasse um projecto que desse resposta ao que era pedido politicamente, que tivesse escala e que fosse sustentável no tempo.


Foi assim que eu, que já não me lembro que cargo tinha, mas tutelava a visitação nas áreas protegidas (acho eu), acabei envolvido no desenho desse programa a que se chamou escola na natureza, o qualquer coisa do género.


Com 30% dos meus irmãos a viver em Bruxelas, tinha uma informação bastante razoável sobre o que pretendia Jorge Moreira da Silva, tendo como modelo a semana de campo e a semana de neve da escola europeia.


O presidente do ICN tinha uma visão muito clara sobre o que deveria ser a visitação das áreas protegidas, até por ter coordenado um estudo sobre a matéria exactamente antes de ser presidente do ICN, vindo de uma escola de gestão e sem particular ligação com a conservação da natureza, e não me lembro se foi ele, provavelmente sim, que definiu a ideia central para que deveria caminhar o programa: ter todos os portugueses a ir a uma área protegida, pelo menos uma vez na vida (uma ideia que pretendia aproximar a ligação dos portugueses às áreas protegidas da ligação que os americanos têm aos seus parques nacionais e sistema de áreas protegidas).


O que se pretendia é que, durante o percurso escolar, todos os alunos passasem alguns dias numa área protegida, sabendo que era uma área protegida.


Integrar isso nos curricula da escola era completamente impossível (não vou explicar as razões, mas o Ministério da Educação jamais assumiria essa responsabilidade e custo), portanto era preciso desenhar uma coisa diferente, a tal parte em que estive mais envolvido, juntamente com os técnicos da minha unidade orgânica que estavam mais ligados à visitação de áreas protegidas.


Partindo deste pressuposto, e pretendendo integrar isso no ano lectivo correspondente ao oitavo ano, o programa desenhado não foi um programa de educação ambiental, mas de visitação a áreas protegidas, isto é, se o professor de educação física quisesse organizar um programa de três dias e duas noites para fazer aulas de surf do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, nada contra, ficava cumprido o objectivo de ter aquela turma, daquele ano, três dias e duas noites numa área protegida (esperava-se, com o tempo, que isso criasse uma relação emocional positiva entre a população portuguesa e as áreas protegidas).


Para fazer isto era fundamental que as visitas fossem organizadas pelos professores e acompanhadas pelos professores (era possível desenhar programas de apoio à formação de professores feitos pelos funcionários do ICN, mas era impossível ter alguma coisa sustentável e com dimensão, assente no acompanhamento dos técnicos do ICN), e arranjar recursos para transportar, alimentar e alojar os alunos, sem sobrecarregar excessivamente as famílias e as escolas.


Para isso, e porque era preciso ter uma ideia do que custaria o programa, foram avaliadas e conversados preços de transporte mais favorável, preços de alojamento e alimentação igualmente mais favoráveis (estamos a falar de um mercado de 180 mil pessoas, se bem me lembro dos números, a encher estruturas turísticas aos dias de semana da época baixa) e feita uma aproximação a potenciais patrocinadores (por exemplo, não me parece difícil que os cafés Delta financiassem parte do programa nas escolas de Campo Maior).


Tudo isto resultaria num valor por aluno que acho que era menos de cinco euros, para passar três dias e duas noites numa visita de estudo que chocou imediatamente no Ministério da Educação com a recusa em que o programa envolvesse qualquer valor pago pelas famílias (mesmo assumindo que os alunos com apoios sociais não pagariam, um pressuposto base que sempre existiu) porque o ensino é gratuito em Portugal, portanto, mesmo que fosse para aumentar largamente a qualidade do ensino, a diversidade de experiências e o contacto directo com a natureza de Portugal, estava fora de causa qualquer pagamento pelas famílias, excluindo-se qualquer apoio, mesmo que sem um tostão do Ministério, ao projecto.


Depois o programa foi testado no ICN por outras pessoas, assumindo o ICN todos os custos (o transporte era por conta da escola, acho eu), incluindo de pessoal, com dormida assegurada nas estruturas do ICN (que estavam degradadas) e, evidentemente, morreu porque não havia qualquer possibilidade de executar o programa, com alguma escala, assente nesses pressupostos.


E é assim que o conforto moral da gratuitidade de ensino em Portugal dá como resultado uma qualidade abaixo da possível, com efeitos económicos muito mais baixos que o desejável (o programa traduzia-se numa transferência de riqueza entre as regiões com mais gente, onde estão os alunos, e as regiões mais pobres, onde está a maioria das áreas protegidas) e com uma ligação das pessoas ao património natural do seu país muitíssimo abaixo da que se conseguiria se, através deste programa, todos os portugueses, algum dia, tivessem passado numa área protegida três dias e duas noites.


As boas intenções são boas, mas quando ficam pelas intenções, só servem para encher o Inferno.

7 comentários:


  1. Totalmente de acordo. O ensino universal e gratuito destruiu a qualidade do ensino.
    Mas há boas notícias: na escola onde o meu petiz anda, no grupo de debate discutiu-se se é preferível um modelo de ensino universal mau, como o Hps refere, ou um modelo acessível a poucos, mas de excelência. Até porque com a chegada da AI, a força de trabalho em áreas altamente qualificadas e de cariz intelectual será reduzida, pelo que não haverá necessidade de tantos engenheiros, arquitectos, profissionais médicos, etc. Ou seja, este debate já chegou à "sociedade civil", e quando assim é porque alguém com responsabilidade já colocou o assunto na mesa.
    Mais cedo antes de tarde, teremos um modelo em que poucos, mas bons, acedem a educação média e superior. E teremos uma sociedade melhor

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  2. Por falar em AI convém não esquecer a Robótica e não olhar para uma, sem dar uma vista de olhos na outra.


    Sugiro também ter presente o motor de explosão/automóvel/avião, e o tremendo salto ocorrido, no curtíssimo espaço, desde os seus princípios, até ao Presente.


    Lembro também que as Companhias Aéreas, só ainda operam com tripulações Humanas, porque as Seguradoras não aceitam que Máquinas possam ser civilmente responsáveis.


    Logo que esse obstáculo seja removido, e serão, uma série de coisas, começando pelos transportes Públicos passarão a ser operados por sistemas robóticos.


    Alguns Metros de grandes Capitais já operam de forma autónoma, automatizados e sem intervenção humana.


    Os Sistemas Robóticos e a AI tenderão a Invadir e Monopolizar cada vez mais Áreas até agora operadas e dirigidas por humanos.


    E ao contrário crença infantil que a coisa só atingirá áreas de trabalho manual e pouco especializado, é precisamente o oposto; 


    A Robótica e a AI invadirão (já estão a fazê-lo) áreas cada vez mais técnicas e especializadas e isto inclui a área conceptual


    Tudo isto para significar que o Futuro pode ser Azul ou Negro e absolutamente escuro.


    Cabe aos Humanos escolher

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  3. uma série de coisas, começando pelos transportes Públicos passarão a ser operados por sistemas robóticos


    O metropolitano e os comboios, sem dúvida que sim. Circulam em linhas dedicadas, só têm que obedecer aos sinais... é fácil.



    Já os autocarros nas cidades, sem dúvida que não.

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  4. A partir do momento em que a própria IA tiver linguagem que permita simular-se e aprender por si é inevitável.  Um dos grandes problemas dos transportes publicos é a frequencia e o custo. Uma baixa de custo significativa permitirá ter comboios e autocarros mais pequenos e mais frequentes.

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  5. Pelo menos espero que os autocarros passem a parar com a porta em frente aos clientes e não 5m á frente como fazem muitos motoristas...

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  6. É uma questão de esperar para ver.


    Uma coisa tenho por certa; a julgar pelo que acontece com a Aeronáutica Militar (costuma ser o Sector Pioneiro) a coisa será muitíssimo mais rápida do que as pessoas esperam.

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  7. As semanas de campo, neve e mar não são um exclusivo das escolas europeias. No sistema de ensino  belga são parte do currículo normal, e em França acho que também. 


    A forma e os custos dependem da escola. Numa escola primária (pública) onde a minha filha andou, o município mantêm desde os anos 50 uma quinta onde os miúdos iam durante uma semana acarretar estrume, ordenhar vacas, etc. 


    Agora está numa das escolas europeias, e foi uma semana visitar a Holanda. O custo ficou a cargo dos pais (mil euros/aluno) e era uma actividade obrigatória. Não ir seria o equivalente a faltar a uma semana de aulas.


    O sistema belga é um pouco mais complexo que em Portugal, mas na prática os miúdos na primária (qq que seja a carteira dos pais ou onde vivam) têm a hipótese de ver e experimentar coisas diferentes da sua realidade. 


    Compare-se isso com Portugal. A minha esposa foi professora numa escola da Damaia, e as composições "o que fiz no Verão" eram invariavelmente "fui passear pelo Colombo". Resta-nos o consolo de saber que ao menos não foi exigido aos pais nenhum tostão para esta actividade......

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