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A pesada herança do Maio de 68 teve ontem mais um pequeno revés, mesmo que simbólico, na proclamação da sacrossanta liberdade individual face aos repressivos limites morais e sociais. Entre os derrotados desse desígnio da modernidade, imagine-se, esteve em São Bento o Partido Chega inconformado com as restrições aprovadas por sólida maioria. Refiro-me à proposta que ontem foi vencedora no parlamento de proibição do acesso autónomo a redes sociais, serviços de partilha de vídeos e de comunicação aberta por crianças menores de 16 anos. Nesses conteúdos disponíveis sem qualquer filtro, na selva a que os pequenos ecrãs acedem ao simples premir do indicador, encontram-se as mais inconcebíveis aberrações e excitações imediatistas. Evidentemente que a medida levanta questões que não se esgotam numa resposta simples. Entre o zelo pela saúde mental dos nossos infantes e o respeito pela liberdade, desenha-se um debate que toca o coração de todos. Mas o sinal é largamente positivo: já não é “proibido proibir”.
Numerosos são os estudos que alertam para os impactos negativos das redes sociais na saúde mental das crianças e adolescentes: ansiedade, depressão, distúrbios do sono e até a chamada “dependência digital” são frequentemente apontados como consequências do uso excessivo. O corpo e o cérebro em desenvolvimento das crianças reagem de forma diferente à exposição constante a estímulos digitais, podendo comprometer o seu bem-estar e acuidade a longo prazo. Há quem diga que com esta proibição se está a ignorar a importância da literacia digital, mas é um erro só justificado vindo de quem não sabe como se procede à formação de um bom utilizador das tecnologias – exige concentração e estudo. Por certo que não é com jogos electrónicos ou partilha de mensagens ou vídeos curtos.
Certo é que pela primeira vez na história moderna, estudos indicam que os filhos apresentam um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao dos pais, fenómeno conhecido como Efeito Flynn inverso. A principal causa apontada pelos especialistas, como o neurocientista Michel Desmurget, é o consumo excessivo de tecnologia e ecrãs (telemóveis, tablets, computadores) que substituem as normais brincadeiras, investigações, jogos e convívios entre crianças e jovens.
É fundamental a protecção da infância da vertigem dos ecrãs dos telemóveis. Sei por experiência própria o desafio que constituiu defender as nossas crianças da irresistível atracção pelo digital, num tempo em que as redes sociais ainda eram algo incipientes. O hipnótico poder de distracção do telemóvel face ao estudo e à leitura, para não falar do convívio social e familiar foi um factor desde o início evidente para nós pais. O esforço de orientação e imposição de regras para o seu uso foi exigente, convenhamos que nem sempre bem-sucedido, e tenho dúvidas que muitas famílias tivessem capacidade ou condições de o exercer como fizemos em nossa casa.
Reconheço que, se por um lado, as redes sociais podem isolar, criando bolhas de solitários, por outro, também permitem novas formas de convívio, aproximação e partilha. Tenho dúvidas que a proibição consiga grandes resultados no regresso da miudagem ao contacto presencial, aos jogos no recreio, à confraternização e confronto cara a cara, mas é um passo no bom sentido. O desafio está em criarem-se espaços seguros para a interacção online, valorizando o equilíbrio entre ambos os mundos, sempre com a supervisão parental. Não vejo problema que a liberalização só aconteça depois dos dezasseis anos. No entanto, temos de admitir que legislar é mais fácil do que garantir o cumprimento da medida. Como controlar, de forma eficaz, o acesso de menores em plataformas globais, muitas delas sediadas fora do país? A tecnologia oferece sempre vias de contorno: falsificar a idade, usar contas de familiares, recorrer a VPNs.
Os pais, com a ajuda do Estado, podem e devem salvaguardar o bem-estar dos menores, mas sem esquecer que cada jovem é um ser em formação, capaz de aprender, errar e crescer. Simplesmente proibir para proteger pode ser um paradoxo, se o resultado for a limitação da autonomia e da responsabilidade pessoal. A questão fulcral reside aqui: até onde vai o direito à liberdade individual? As crianças têm direito à informação, à expressão e ao convívio, mas o seu maior direito é à protecção.
Voltemos ao Maio de 68, que tanto dano trouxe às estruturas sociais e comunitárias do ocidente liberal. Assim como a venda de álcool e cigarros é restringida a adultos, supostamente capazes de moderar e assumir os riscos do seu consumo; assim como se exige a maioridade a um individuo para conduzir um automóvel, que afinal pode constituir uma arma letal, parece-me muito bem a restrição do acesso autónomo das crianças a redes sociais, serviços de partilha de vídeos e de comunicação aberta.
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Hahah, mas podem ler o manifesto comunista...?
ResponderEliminarParece-me que a questão essencial, mais que os acessos (e é garantido que as proibições serão sempre contornadas) é a alteração que ocorrida no BEM/MAL.
ResponderEliminarPode conceber-se a coisa, falo das narrativas, contos, historias, que formam e estruturam o imaginário do público/consumidor, como um antes - todo o bem era bom e todo o mal era mau (isto sublinhado pelo Herói estar sempre do lado do BEM, ser bonito, integro, valente, etc.. - O Vilão, ao contrário, só tinha defeitos; para além de estar sempre de do lado errado é desonesto, feio, mal encarado, cruel, etc..
Esta arquitetura começa a alterar-se no pós guerra (James Dean, Brando, etc) e iria acelerar nas duas décadas seguintes, introduzindo graduações, relativizando, e abrindo a brecha da "compreensão" que desaguaria, finalmente, na desculpabilização.
O Maio 68 foi o culminar, um fugaz quebrar da norma, prontamente restabelecida aliás, com o acordo das massas que recusaram a aventura.
É óbvio que muita coisa mudou, as ondas de choque ainda continuam e muito ainda vai mudar.
Mas como dizia Lampedusa; muda para que tudo continue na mesma
E ler jornais e revistas, ver os canais de TV, etc.
ResponderEliminarOs passadores desses produtos dizem que são muito bons para a saúde, como diziam os do tabaco. Só sei que os indices de ansiedade e depressão já tinham passado o tecto antes de haver "redes" ...
Se os senhores legisladores estivessem realmente interessados no bem das crianças e da sociedade investiriam esforços no desenvolvimento e apoio à família. A estrutura base e fundamental.
ResponderEliminarDo resto esta treta da proibição apenas servirá, à imagem dos SMS da protecção civil, para lavar as mãos de eventuais acções judiciais.
Educação, formação, informação, pedagogia… está quieto que dá trabalho e desenvolve o sentido crítico!
Isso é logo a partir do jardim de infância
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ResponderEliminarTudo o que o complexo politico-jornalista não controla é para ser proibido.
Próxima:"PSOE e Podemos apresentam medida para proibir futebol nos recreios: "Desporto tóxico"
https://www.sabado.pt/desporto/detalhe/psoe-e-podemos-apresentam-medida-para-proibir-futebol-nos-recreios-desporto-toxico
E como é obvio o autor do post não considera os blogs redes sociais, talvez venha arrepender-se quando alguém disser que são...
O João Távora neste post somente fala das crianças, esquece os adultos.
ResponderEliminarÉ que, se bem entendo, com esta lei qualquer adulto passará a ter que identificar-se (com a sua chave móvel digital) antas de poder aceder a qualquer rede social (incluindo a este blogue). O que quer dizer que, potencialmente, o Estado passará a poder saber que redes sociais cada pessoa frequenta, que vídeos vê, os comentários que escreve, etc.
Ou seja, a coberto da argumentação de proteger as crianças, na prática temos uma lei que retira aos cidadãos ADULTOS uma boa parte da sua privacidade.
O Sr. João Távora devia escrever poesia.
ResponderEliminarVê-se que tem queda para aí, diz-lhe um bisavô que ainda nem 76 anos tem ...
ResponderEliminarVivi algum tempo, num país onde era proibido a venda de bebidas alcoólicas
Era habitual ver os naturais bêbados.
Um dia,precisando de desinfetar uma mão, fui a uma farmácia para comprar álcool puro, coisa que fazia habitualmente em Portugal.
Fui informado que era proibido, pois as pessoas usavam-no para beber!...
Perante a minha admiração, entrámos em conversa e disse-lhe que eu, sendo português, filho de produtor de vinho, tendo-o à disposição em casa, desde sempre, não consumia bebidas alcoólicas, o que ainda hoje acontece!...
Acabou por me vender um pouco de álcool, misturado com qualquer coisa, com um cheiro horrível
Presumo que nesta medida agora aprovada, as crianças estão a ser usadas, para "controlar adultos inconvenientes"!
O Salazar, decerto, adoraria ter esta capacidade!
Já nos meus tempos de meninice, por vezes falava-se para os miúdos, usando-os, para que os adultos ouvissem!...
Já agora... será uma lei constitucional?
Alguém lúcido que expõe a verdade...
ResponderEliminarO Sr. Távora é. Ais um inocente útil que não vê nada à frente...Um ingénuo !!!
Tanto gritaram pelo fascismo que ele está aí a chegar.
ResponderEliminarEssencialmente trata-se de socialismo.
ResponderEliminarControlar o pessoal para mais facilmente poder perseguir.
Já não bastava o apoio do Governo ao comunista Costa na ida para Bruxelas.
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ResponderEliminarCabo Laranjeira, da GNR de Aljustrel, olha para o telefone com profunda desconfiança e uma ponta de raiva. Lá fora, o país está a ser dissolvido por uma descarga de água que faria o Noé pedir um ansiolítico, mas o telefone toca.
ResponderEliminar— Posto da GNR, boa tarde. Diga... Sim? Um crime? Deixe-me adivinhar, o rio galgou as margens? Não? Ah, é mais grave. Um atentado à soberania.
Laranjeira ajusta a farda.
— Repita lá. O vizinho? O pequeno Tiago? 13 anos? E está a fazer o quê? A ver danças no TikTok? Oh Virgem Santíssima... E com o telemóvel na mão? Sem supervisão de um adulto ou de uma autorização parental?
O guarda suspira, enquanto uma goteira lhe cai precisamente na nuca, vinda do teto do quartel que tem mais buracos que o orçamento do Estado.
— Olhe, minha senhora, compreendo perfeitamente. O país está submerso, as barragens estão a cuspir água, e as estradas parecem Veneza, mas o Parlamento foi claro: o perigo real não é a subida do nível do mar, é o nível de estupidez do scroll infinito.
Laranjeira levanta-se, agarra nas chaves do jipe — que, por sinal, não tem tração às quatro nem gasolina para chegar à esquina.
— Vou já para lá. Vou mobilizar o GOE, a Marinha e talvez um nadador-salvador.
É que o país pode estar a ir pelo cano abaixo, mas ao menos vai com a conta de Instagram devidamente bloqueada.
Vamos cercar o miúdo. É a prioridade nacional, percebe? Primeiro a moral, depois a drenagem.
Desliga o telefone. Olha para a chuva.
— Ó Sargento! Traga o bote! Temos um puto de 13 anos a ver memes de gajas nuas. É caso de segurança interna!
Assertivo, como sempre
ResponderEliminarNao existem provas de consequências nefastas ou de adição de redes sociais, em jovens ou adultos, para lá de documentos ideológicos de quem não tolera controlar a mensagem. Primeiro testaram nas escolas, agora passaram para o resto.
Deixem as pessoas acederem livremente às redes.
Os governos de índole marxista não toleram a iniciativa privada, até esta se vergar aos seus interesses. As tecnológicas cresceram fora da esfera estatal e são os únicos faróis do liberalismo, por isso são alvos a abater. Deixem o mercado funcionar e as pessoas tomarem as suas decisões individualmente
ResponderEliminarE era preciso uma lei para isto, caro João Távora? E onde fica a responsabilidade dos pais?? Claro que grande parte deles pouco mais clarividente é que os infantes que tanto querem proteger, ou não estaríamos numa sociedade Disney World.
ResponderEliminarCá está a manifestação do meu pior receio. Até as pessoas mais avisadas e racionais caiem nas boas e piedosas intenções, impostas por quem quer destruir o (pouco) que nos resta de liberdade de expressão. Lembre-se que existem cemitérios cheios à conta da melhores e mais nobres intenções. Como refere HPS, no post posterior a este, "Não há esperança", mesmo!
Pode ficar bonito, mas parece uma grossa estupidez.
ResponderEliminarPara os putos vai tornar mais aliciante, e psicologicamente compensador, furar os bloqueios.
Aliás sendo aquela a idade onde arriscar e furar as regras, faz parte de um crescimento normal, acho que deviam arranjar um colégio de psicólogos que os aconselhasse antes de argolarem.
Também deviam tomar um calmante para reduzir a mania de estar sempre a ter ideias novas
Note que consegue-se sempre prova negativa de qualquer coisa pois tudo tem pros e contras.
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ResponderEliminar"
https://spectator.com/article/there-is-no-evidence-that-social-media-harms-childrens-mental-health/
É mentira que as redes sociais sejam desenhadas para srem viciantes e gerarem o máximo de tráfego baseado em reacções emocionais em detrimento de raciocínio lógico. Isso é propaganda marxista-estatista.
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