sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Bom, bonito e barato

De maneira geral, a compra ideal é quando o que compramos é bom, bonito e barato.


Entre o ideal e a prática há a consciência de que a possibilidade de escolher uma coisa boa, bonita e barata existe, mas é remota, de maneira que, em função do que pretendemos com a compra, tendemos a escolher dois dos atributos (ou mesmo só um, se for necessário), desvalorizando implicitamente os outros dois.


É uma situação muito semelhante à dos políticos, o político ideal é aquele que pensa bem, executa bem e comunica bem.


Infelizmente, sabemos que pessoas perfeitas há poucas, de maneira que quase sempre temos de desvalorizar algum dos atributos.


Um dos problemas dessa escolha é que os atributos para ganhar uma eleição não são, forçosamente, os atributos mais adequados à governação.


Problema que é amplamente potenciado pelo facto de o jornalismo (e o discurso público em geral e, dentro deste, a política) ser comunicação, o que empurra para a valorização do comunicar bem, em detrimento dos outros dois atributos, pensar bem e executar bem, com a agravante de que quem comunica bem, mais facilmente consegue esconder o facto de não executar bem (é mais difícil esconder que não se pensa bem, mas como há um grande desfasamento entre ideia e execução, isso pode funcionar durante o curto tempo da vida política relevante da maior parte dos políticos e governantes).


A conferência de imprensa de Ana Abrunhosa, ontem ao fim da tarde, que deu origem a um fim de tarde, noite e princípio de manhã com a imprensa obcecada com a potencial cheia centenária no Mondego, é um bom exemplo de como uma boa comunicadora formal pode sabotar uma boa comunicação substancial (escusam de me incomodar com a distinção entre comunicação formal e substancial que sei bem que é uma distinção largamente inexistente, estou apenas a tentar deixar claro o que estou a dizer).


Quando ao fim da tarde ouvi Ana Abrunhosa falar de caudais na ponte açude de 3000 metros cúbicos por segundo, na Aguieira sem capacidade de encaixe que a obrigaria a deixar passar toda a água que nela entrasse o que, face às previsões de chuva existentes, nos poriam perante uma forte probabilidade de haver uma cheia centenária, fiquei espantado.


Tinha estado mais ou menos a acompanhar a evolução de alguns destes parâmetros e todo o discurso me pareceu desnecessariamente alarmista.


Não estou a discutir o que depois veio a suceder, isso não seria sério, previsões são previsões, é verdade que o que sucedeu foi menos agressivo que o previsto, do ponto de vista da chuva, mas de facto poderia ser ainda mais agressivo que o previsto e é para o pior cenário que temos de nos preparar.


O que discuto é a comunicação feita, no momento em que é feita, com a informação que existia na altura (confesso que a comunicação me pareceu tão delirante, que admiti que Ana Abrunhosa, a responsável pela protecção civil no seu concelho, teria informação diferente da que eu conseguia perceber dos dados que eram públicos).


No momento em que Ana Abrunhosa fala de 3000 metros cúbicos por segundo na ponte açude de Coimbra, o caudal andava pelos dois mil, portanto, admitir a hipótese de chegar aos três mil em poucas horas seria admitir uma chuva muito mais intensa que a prevista (até aí, dou de barato, acho bem que se tenha a noção de que as coisas podem ser piores que o previsto, dentro de limites sensatos), sem qualquer hipótese de gestão das afluências na Aguieira.


É verdade que na manhã desse dia a Aguieira tinha estado com 99,1% da sua capacidade, mas no momento em que Abrunhosa fala já estava a menos de 97%, portanto, no momento da conferência de imprensa, isto é, umas horas antes de começar a chover a sério, há mais de 3% da Aguieira de folga, o que não é pouco.


Acresce que, naquele momento, a água de que estava a chegar à Aguieira era cerca de metade da que a Aguieira estava a deixar passar (naturalmente, estava a ganhar capacidade de encaixe, num equilíbrio difícil para não tornar mais difícil a gestão da cheia para juzante).


Ou seja, antes de começar a chover a sério havia ainda algum tempo para ganhar mais capacidade de encaixe (como veio a suceder, mas não quero introduzir aqui informação que na altura não existia, embora fosse previsível esta evolução) e, tão relevante como isto, o caudal a montante da Aguieira poderia duplicar antes de isso obrigar a Aguieira a debitar mais água, mesmo que estivesse com a sua capacidade de encaixe esgotada.


É por coisas destas que os políticos não devem gerir crises, por melhores comunicadores que sejam, fazer as afirmações que Ana Abrunhosa fez (e nem discuto os antecendentes, como equivaler a ruptura de um dique a uma bomba), por mais que se cumpram as regras todas de uma comunicação clara, é uma péssima comunicação num contexto de crise.


O problema não é tanto esta conferência de imprensa isolada, o problema é a erosão da confiança nas instituições quando os responsáveis traçam cenários delirantes, que não se verificam posteriormente, para obter uma atenção de curto prazo para aquela crise (sim, a conferência de imprensa terá feito com que muito mais gente estivesse atenta ao problema sério potencial que existia na altura) mas depois, verificando que nada do que se previu se verifica, nem de longe, da próxima vez ligarão menos aos avisos que forem feitos.


Talvez fosse bom que, aqui e ali, aceitássemos melhor políticos de comunicam mal, desde que seja possível verificar que nem pensam, nem executam mal.


E, sobretudo, que tivéssemos muito mais cuidado em embarcar nos cantos de sereia de quem comunica muito bem.

10 comentários:

  1. os jornalistas gostam tanto do catastrófico que aos socialismos diversos aceitam facilmente a tragédia cómica.
    esfarrapavam Montenegro se falasse assim.
    a casa de Espinho voltou à justiça.

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  2. Noutros tempos este blog tinha como autores gente ligada ao CDS, com licenciaturas por Coimbra ou Lisboa. De há uns tempos para cá tem como pároco vigilante um licenciado  pela universidade de Évora, nobre instituição que se descobre depois de vasculhar fundo nos rankings universitários.
    É no que dá a miscigenação social.

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  3. Peneirar, se o que dizem os politicos é factual e no caso ser mais ou menos provável é função da oposição, dos jornalistas e do publico.
    O mesmo argumento serviria para justificar acabar com os jornais - e para piorar boa parte dos jornalistas faz activismo e não jornalismo.








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  4. E qual a diferença entre uma licenciatura de Evora, caro Albino Manuel e uma licenciatura de Coimbra ??

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  5. Hmmm. Fui ver à wikipedia e fiquei a saber que os três descarregadores da barragem da Aguieira (dois no topo e um no fundo) podem descarregar um máximo de 2260 m^3 / segundo. O que isso me parece significar é que, se a corrente do Mondego a montante dessa barragem fôr superior a 2260, então a barragem não consegue descarregar o suficiente e, mais tarde ou mais cedo, é ultrapassada pela água (e corre o risco de colapsar). Se eu estiver a raciocinar bem, então, se a corrente do rio a montante da barragem fôr superior a 2260, convém que a albufeira ainda tenha um bom pedaço livre para encher.
    O que eu quero dizer é que, estando a albufeira quase cheia e estando o rio ainda muito forte, a barragem terá que começar a descarrregar ao máximo (os tais 2260 m³ / s), o que irá inevitavelmente causar uma cheia em Coinbra superior aos tais 2000 m³ / s.
    Portanto, talvez Ana Abrunhosa tivesse razão nos seus alertas: se esta noite tivesse chovido muito, como se previa, a barragem estaria agora a descarregar ao máximo e a cheia em Coimbra seria bem maior do que está a ser.
    Mas posso ser eu que não percebo nada disto (o que é de facto o caso).

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  6. As universidades são todas inúteis, portanto iguais na sua insignificância 

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  7. Caso discorde do que foi escrito, deve refutar com factos e assertividade. O texto é factual, sem ideologias e assente em números e pormenores técnicos. O contraditório deve seguir os mesmos parâmetros. 

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  8. Também não me agradou a postura da presidente da Câmara de Coimbra que, talvez por culpa da comunicação social, apareceu vezes de mais a falar das tempestades.
    É certo que ela mostra grande capaidade de comunicação e parece estar a agir de boa-fé. Mas a calma e a tranquilidade que transmite, nestas circunstâncias funciona ao contrário: as pessoas julgam-na conhecedora do assunto e desconfiam que ela não diz tudo o que sabe, e ficam ainda mais preocuoadas.
    Não me parece bem que uma presidente de Câmara, venha falar da velocidade recorde da corrente do rio, da eventual rotura de um dique do tipo construído no rio Vouga, assemelhando-a ao rebentamento de uma bomba, admitindo a deslocação inédita, para lugar seguro, de milhares de pessoas, e coisas deste género.
    Com a grande capacidade que ela tem de falar aos seus municipes, deve preocupar-se com o conteúdo da sua comunicaçãoe e com a reação que as pessoas comuns terão ao ouvi-la.

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  9. Convem notar que o a água que passa em Coimbra não vem apenas da Aguieira. Há afluentes, dos quais os mais importantes são o rio Ceira e o rio Alva.

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  10. Gonçalo, ainda estive para escrever qualquer coisa sobre isso (tanto mais que Ana Abrunhosa referiu o caudal do Ceira) mas já tinha escrito excessivamente.
    Em qualquer caso, repara que nos dias 10 e 11 de Fevereiro, os acumulados diários de precipitação tinham sido respectivamente entre os 50 e 100 mm e entre os 30 e os 50 mm (grosso modo) e, mesmo assim, o caudal do açude ponte pouco tinha passado dos dois mil, sendo por isso praticamente impossível, mesmo no pior dos piores cenários de precipitação prevista, que houvesse precipitação suficiente para passar o caudal do açude para três mil, naquela noite, com base nos caudais dos afluentes do Mondego a jusante da Aguieira

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