sábado, 28 de fevereiro de 2026

Em contexto de invisibilidade

É verdade que Maria Lúcia Amaral teria beneficiado de umas quantas sessões com Cristina Nobre Soares sobre como falar claro, mas a expressão que usou e que repesquei para o título deste post é uma boa chave para interpretar o actual contexto político.


Ao contrário de uma boa parte do que tenho lido, acho que Passos Coelho não tem objectivos políticos imediatos nas intervenções que tem feito, para além de dizer o que pensa e manter portas abertas para umas improváveis circunstâncias em que deixasse de ser o que é agora: um general sem tropas.


Mas, ele próprio, não está a arregimentar tropas, reconhece a situação, sabe que o futuro é incerto e entende, parece-me, que é útil apoiar um contexto social mais favorável a mudanças no país, o que vai fazendo em intervenções públicas aqui e ali.


Compreendo que o Chega, que está preso numa armadilha estratégica que o condena à irrelevância - ou tem mais um voto que o PSD, ou é uma inutilidade política a menos que se junte ao PS -, pretenda usar as intervenções de Passos Coelho para forçar o PSD a mudar de orientação estratégica.


Também compreendo que a direita inorgânica que acha que há alguma maioria programática na Assembleia da República e uma maioria social favorável a mudanças profundas, pretenda arrastar Passos Coelho para a tarefa de puxar a carroça nesse sentido, até porque, provavelmente, tal como  eu, não vêem outra maneira de conseguir ter ganho de causa.


Compreendo menos os idiotas úteis que enxameiam a comunicação social com a ideia de que o governo de Montenegro é uma repetição do governo de António Costa, não se vendo qualquer diferença.


Passo a explicar.


Comecemos nas finanças, notando que há uma política real de diminuição de impostos com este governo, por oposição à mera troca de uns impostos por outros na governação de Costa. E há, também, um esforço de simplificação e transparência que é evidente no modelo de Orçamento de Estado do actual governo, retirando dessa discussão as opções de política, tornando-o mais fácil de interpretar e avaliar. É manifestamente diferente (discussão diferente é se poderia ser ainda mais diferente).


Na área de Leitão Amaro, é claríssima a alteração na política de migração, com resultados concretos das alterações (podemos discutir se os resultados são bons ou maus, mas negar que a diferença para os governos de Costa é abissal, é negar a realidade).


Na política de habitação há mudanças profundas em curso, que vão manifestamente num sentido diferente do que ia a política de habitação de António Costa. Dizer que porque os preços da habitação continuam altos e a subir em relação ao rendimento das pessoas, não se passa nada, não há alterações nem resultados, é típico das análises simplistas dos populistas (em que se incluem grande parte dos jornalistas), nomeadamente quando resolvem ignorar que mais que resultados finais, o fundamental é compreender alterações de trajectória que demoram tempo a dar resultados).


Na justiça tenho mais dificuldade em identificar mudanças reais, mas a forma como parte da advocacia tem reagido às propostas recentes, levam-me a suspeitar que alguma coisa estará ou a mudar, ou com boas probabilidades de mudar relevantemente. Se no sentido certo ou errado, é outra discussão, mas dizer que é igual aos governos de Costa, é simples preguiça de usar argumentos que funcionam sempre no discurso, independentemente da complexidade da realidade.


Na educação não vale a pena perder muito tempo: as únicas pessoas que dizem que não se passa nada de relevante em relação aos governos de Costa são as que acham (legitimamente) que se deveria andar mais depressa com a ambição de ir mais longe, mas acho que ninguém nega as diferenças em relação aos governos de Costa.


Na saúde os dados objectivos demonstram diferenças relevantes em relação aos governos de Costa, nalgumas matérias de inversão da degradação progressiva do sistema, mas é uma área em que é fácil atirar com situações emocionalmente fortes em cada situação em que as coisas correm mal, evitando o trabalho difícil de avaliar com dados objectivos (ainda agora, a propósito de um resultado muito positivo, o da diminuição do recurso às urgências, com diminuição de um quinto de episódios de urgência associados a pulseiras verdes, alguém pretendia negar estes factos criticando a forma como a informação era produzida, ou ignorando a informação que existe e contraria as explicações fantasiosas sobre desvio para privados, hospitais fechados, e etc.). Se era possível fazer melhor, andar mais rapidamente com a integração de privados no sistema e etc., podemos com certeza discutir, mas negar as diferenças para os governos de Costa, é negar a realidade (este governo não decidiu acabar com parcerias publico privadas que funcionavam melhor e custavam menos aos contribuintes à boleia da pressão da extrema-esquerda com o generalizado aplauso do jornalismo militante, que é quase todo).


No trabalho e segurança social parece evidente a vontade de fazer diferente de Costa, apesar do contexto socialmente adverso a qualquer mudança no enquadramento legal das relações de trabalho que existe em Portugal.


Dizer que Montenegro é um mero Costa que não pretende mais que sobreviver e nomear amigos, é o tipo de afirmação que qualquer comentador pode fazer sem correr o risco de haver um jornalista que lhe peça para fundamentar o que diz, mas a verdade é que é uma afirmação que não tem qualquer base nos dados objectivos que existem.


E não, não é um problema de comunicação do governo (outro dos narizes de cera mais usados no comentariado), o governo está na situação das celuloses e de muitos outros, digam o que disserem, a opinião publicada estará sempre contra.


Passos Coelho não é bem um comentador, nem disse exactamente isto (disse uma coisa aproximada, embora suficientemente ambígua), mas não fez questão de se demarcar da ideia de que estaria a alinhar com a direita inorgânica que não gosta de Montenegro, aparentemente.


A sensação com que fico é que, para além de manter o seu estatuto de fusível do sistema, para o caso das coisas correrem mal, isto é, da aliança objectiva entre Chega e PS bloquear realmente o processo político, o que Passos pretendeu foi apenas dar a sua opinião, no pressuposto de que fazê-lo era útil para reforçar o campo reformista, que é historicamente minoritário em Portugal, um país em que toda a gente é a favor de mudanças, desde que essas mudanças não impliquem mudar alguma coisa relevante.

10 comentários:


  1. Alguns andam distraídos ou se preocupam com o país, o que é o mais provável. Os media já falam muito em política porque lhes interessa. Quem se preocupa com o país, não fala nos assuntos que já são muito falados. E há outros que não percebem que muitos textos estão cheios de nada.

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  2. em relação às mudanças do interesse das oposições à AD devem estas recorrer a empresas especializadas em transporte de mobiliário.
    andam à pesca de peixe podre.         

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  3. No caso das Finanças, é verdade que por exemplo o IRC tem descido, mas em 2024 a despesa total aumentou 9%, fruto dos aumentos a policias e professores, e continua a haver pouca execução de investimento público, como acontecia no tempo de Costa, a julgar pelo que já se sabe do ano passado ( ver artigo de Oscar Afonso) https://eco.sapo.pt/especiais/dois-anos-desta-ad-e-nada-muda-crescimento-escasso-e-excedente-a-custa-do-investimento/

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  4. https://observador.pt/opiniao/anatomia-de-um-regresso-anunciado/

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  5. https://observador.pt/opiniao/ainda-ha-politicos-com-sentido-de-estado/

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  6. Já que "visitaste" os principais ministérios, gostaria de saber o que tens a dizer sobre a pasta do ambiente.

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  7. O Chega está na verdade, preso no seu labirinto, mas daí a estar condenado á irrelevância, vai um mundo.


    Na verdade só o estaria, e com grande probabilidade até a algo pior, se o eleitorado o obrigasse a Governar 

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  8. Não visitei os principais ministérios, visitei ministérios onde vejo diferenças relevantes em relação aos governos de Costa

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  9. O termo "principais" por mim usado não terá sido o mais indicado. Só sugeri um comentário sobre o ambiente dado ser um assunto que acompanhas de perto há muitos anos (e eu também). 

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