quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A quem possa interessar

Paulo Fernandes, António Salgueiro e outras pessoas (umas que sabem do assunto, outras que nem por isso e algumas que não conheço, ao contrário dos dois citados cuja competência técnica e conhecimento do que falam é à prova de bala) estão, por estes dias, a chamar a atenção para o aumento de combustíveis finos acumulados na paisagem afectada pelas tempestades.


Também falam da madeira, mas para dizer que não é um risco imediato, do ponto de vista dos fogos (pode ser um risco do ponto de vista das pragas), será, provavelmente, um risco diferido à medida que a madeira vai apodrecendo mas, para já, a madeira não arde, o problema está nos combustíveis finos.


Há ainda referências à dimensão económica da perda de material lenhoso, que é particularmente urgente na fileira do pinheiro.


Sentado neste canto, a mim parece-me que a equação do problema não está afinada e este post é só uma opinião, não suficientemente fundamentada, sobre o que deveríamos estar a fazer e que duvido que seja uma prioridade para a estrutura de missão criada para gerir os efeitos das tempestades.


Comecemos exactamente pela estrutura de missão.


Compreensivelmente, esta estrutura de missão terá como missão resolver os problemas sociais imediatos e repor o potencial produtivo, duas coisas que não têm grande relação com o problema da acumulação de combustíveis finos, e consequente risco de fogo, portanto, dificilmente a estrutura de missão vai dar atenção ao assunto.


Em princípio, deveria ser o ICNF a desenhar um programa de intervenção rápida para redução de riscos - é isso que está em causa, a redução de riscos - mas esperar pelo ICNF para resolver o que quer que seja, o melhor é arranjar um sofá confortável.


Contar com a indústria não ajuda muito, apesar da Navigator (os outros não sei) ter flexibilizado os seus critérios de recepção de madeira para receber troncos mais finos nas suas fábricas.


Em qualquer caso, poder-se-ia tentar trabalhar um bocadinho com os industriais que consomem madeira para limitar as perdas de material lenhoso e maximizar a retirada de troncos. Não sei em que termos, mas se eu tivesse alguma responsabilidade no assunto o que faria era ouvir o máximo de industriais e madeireiros possível para perceber que nós da cadeia de abastecimento seria possível desatar eficazmente para obter resultados socialmente úteis.


O que me preocupa é que a questão está a ser tratada como uma questão florestal - é preciso resolver o problema da acumulação de combustíveis -, levando a propostas manifestamente irrealizáveis, em detrimento de uma abordagem de gestão de risco na paisagem que permita separar o que é possível, do que seria desejável.


Não é possível, por razões materiais e por razões institucionais, resolver o problema da acumulação de combustíveis antes da próxima época de fogos, mesmo lançando mão do que diz António Salgueiro com razão: o principal instrumento que temos que permite actuar com escala relevante é o fogo, e a sua utilização com escala implica reconhecer que situações excepcionais exigem actuações excepcionais, isto é, as condições para a realização de fogos controlados têm de ser abertas a intensidades mais altas, com o consequente aumento de riscos e de efeitos negativos no solo.


A razão que leva que seja sensato ouvir António Salgueiro, em especial neste ponto específico, é que o risco maior resulta dos fogos de Verão, com intensidades e continuidade ainda maior, pelo que, para limitar esse risco, é perfeitamente razoável aceitar um risco real, mas menor, de fazer fogos controlados com intensidades habitualmente desaconselhadas, reconhecendo que o óptimo é inimigo do bom.


Mesmo lançando mão do fogo e utilizando-o com escala, não é possível chegar a todo o lado, o que pressupõe fazer escolhas em função do risco que se consiga identificar, isto é, o objectivo central não pode ser resolver a acumulação excessiva de combustível fino até à próxima época de fogos, o objectivo central tem de ser o de proteger valores que possam ser mais afectados por fogos de Verão.


Não se trata de hierarquizar valores, dizer que isto vale mais que aquilo, trata-se de hierarquizar riscos, deixar isto arder descontroladamente é menos aceitável que deixar arder descontroladamente aquilo.


Infelizmente, não me parece que vá ser feito nada de relevante, para além de gastar dinheiro e recursos: os que sabem não têm poder, os que têm poder não sabem, nem querem aprender.

10 comentários:

  1. Admitamos que existe o sofá confortável para esperar. Se não se entregar isso ao ICNF, e percebemos acho que todos porquê, vamos entregar a quem? Quem propõe o Henrique que execute isso? O panorama está escasso. Há gigantes que não executam porque não querem, e anões que até podem querer mas não têm como.

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  2. 1º burocratas em excesso.
    2º importámos 1,6 milhões de imigrantes e contudo falta mão-de-obra mesmo a 150€/dia. preferem a zona do Martim Moniz para outro tipo de trabalho.
    3º com certos de autarcas o pinhal ainda apodrece

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  3. o aumento de combustíveis finos acumulados na paisagem afectada pelas tempestades


    A que se deve tal aumento? Ao crescimento maior da vegetação que decorrerá de o inverno ter sido excecionalmente chuvoso? Ou ao facto de muitos galhos pequenos das árvores se terem partido? Oo a outra razão qualquer?

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  4. preferem a zona do Martim Moniz


    Os imigrantes geralmente dirigem-se para locais onde têm redes de pessoas oriundas do mesmo país, que possam ajudar à sua integração.
    Se os territórios longe do Martim Moniz querem receber imigrantes, é bom que as suas autarquias locais se mexam no sentido de ajudar à integração deles. Um excelente exemplo, ao que consta, foi dado pela Câmara Municipal do Fundão (gerida por um autarca do PSD), resultando em nesse concelho não faltarem imigrantes.
    Não se pode esperar que um paquistanês se dirija de motu proprio para Penamacor ou Aljustrel quando não tem nesses sítios ninguém que o ajude (a arranjar casa, tratar da papelada, etc).

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  5. Está a pedir demasiado aos portugueses, caro HPS. Gestão de risco? Isso é um assunto esotérico para a generalidade das pessoas em Portugal assim.como para a generalidade dos políticos — os de política, os de ecrã e os de sofá. Tudo vai seguir o seu livre e natural curso, como sempre e, quando vier o calor, os fogos  vão-se encarregar da limpeza dos combustíveis, finos e grossos ...
    E lá voltamos ao mesmo.  Demite-se o (agora) aclamado ministro da administração interna, e o assunto está resolvido. De permeio, as festinhas de Verão, generosa oferta das autarquias enquanto não arranca o futebol, e o Verão está passado.
    Os portugueses são assim e não vão mudar.

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  6. Gestão de risco? Isso é um assunto esotérico para a generalidade das pessoas em Portugal


    Olhando para imagens na televisão de telhados e coberturas (de casas e fábricas, respetivamente) arrancados pela tempestade Kristin, fico com a ideia de que esses tehados e coberturas não estavam, de todo, feitos para aguentar com uma ventania. Telhas que não estão assentes em placas de betão, mas somente em vigas de madeira, e coberturas por debaixo das quais o vento penetra livremente - tudo isto me parece muito fácil de ser levado por uma ventania. Como foi.
    Quero com isto dizer que a culpa dos estragos causados pela Kristin foi, em boa parte, de as construções serem de má qualidade.
    (O que ao fim e ao cabo é compreensível - nunca em Portugal Continental tinham soprado ventos tão fortes, portanto as pessoas não estão precavidas contra eles.)

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  7. Mas é evidente que vai haver gestão de risco, queimadas e controlo de combustíveis.


    Nos Gabinetes não se pensa noutra coisa ou por outras palavras; é garantido que não vai.


    Ao mínimo fogacho vão todos correr a apagá-lo 


    E quando chegar a "saison" está tudo prontinho; 


    Matagais, "operacionais", Proteção Civil, fardas, máscaras, viseiras, etc., e jornalistas ansiosos e exaustos de tanto jornalar.


    E não poderão faltar os famosos "meios" e aqueles baldinhos de apagar fogos florestais.


    Claro que vai ser uma grande época 

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  8. Tenho 16 HA de pinhal bravo, no sul de Castelo Branco, plantado em linha há uns 25 anos que foi dizimado pela temporal.
    A minha associação (Aflobei) nada fez, nem nada faz e limitou-se a reencaminhar um email do ICNF a mandar remover da exploração  os despojos da guerra, sob pena de ter de pagar o serviço.
    Não encontro ninguém interessado em remover a madeira. O pinho já era mal pago antes disto e agora não há escoamento .
    As centrais de biomassa foram "atacadas" e estão inoperacionais.
    Não há solução para os troncos e muito menos para os ramos e sobrantes...

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  9. A Navigator publicou que iria recebr madeira mais fina, mas não é verdade.
    Em Castelo Branco os madeireiros não removem os eucaliptos danificados pelo temporal de diâmetro inferior porque - já aconteceu - o camião chegou à fábrica da Navigator e foi recusada a entrega da madeira.

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  10. Percebe agora porque tantas nações nos invejam  ?

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