sábado, 3 de janeiro de 2026

"Não se muda já como soía"

cabras vila pouca.jpg


A fotografia não é grande charuto mas é a primeira de uma das experiências mais interessantes de gestão da paisagem em que estive envolvido.


Comecemos muito tempo antes.


Quando saí de vice-presidente do ICNB, voltei para o meu lugar de origem mas, aparentemente, isso complicava com os nervos de algumas pessoas, de maneira que me puseram numa prateleira.


Comecei então a trabalhar numa coisa que era (e é) um dos meus interesses, a melhoria da eficácia da gestão dos dinheiros públicos aplicados à conservação da natureza.


Uma das características mais evidentes dos orçamentos para a conservação era o peso enorme que tinha o orçamento relacionado com os fogos, embora os fogos raramente fossem uma grande ameaça à conservação de valores naturais.


Comecei a tentar demonstrar que o dinheiro da conservação era muitíssimo mais bem empregado na gestão da paisagem que na gestão do fogo, desde logo porque a gestão do fogo decorre da gestão da paisagem, e uma das primeiras coisas em que me fixei foi no apoio à pastorícia (ou, para citar outros, no tandem fogo/ pastorícia, que nas nossas condições a pastorícia sem fogo é pouco viável).


A fotografia acima, de há 13 anos, era a primeira em que finalmente se punha em prática um projecto experimental, com apoio do Fundo EDP de biodiversidade (o Estado português e o programa LIFE da União Europeia nunca mostraram interesse em apoiar projectos com pastorícia, sendo exemplares várias das respostas dos avaliadores LIFE a considerar que a pastorícia e o fogo controlado nem sequer eram acções de gestão activa do fogo, do solo, da biodiversidade, mas sim ameaças, coisa que entretanto mudou).


O que estava em causa, neste caso, não era o pastoreio tradicional de percurso (mais ou menos uma cabra e meia a duas por hectare de encabeçamento, com percursos circulares que se percorrem num dia, com partida e chegada ao curral, cujo objectivo central é a colecta de nutrientes nas terras marginais para as concentrar de forma a serem usados na produção agrícola sob a forma de estrumes), mas sim um modelo não tradicional de pastoreio dirigido, com elevados encabeçamentos (chegámos a ter 800 cabras por hectare) por poucos dias, com objectivos de gestão da paisagem.


No caso da fotografia estamos a falar de três dias em que o rebanho esteve limitado por uma cerca (ver a fotografia com atenção), permitindo a redução brutal da carga de combustível, com a deposição de matéria orgânica em formas que dificilmente alimentam fogos, depois de passarem pelo aparelho digestivo dos animais.


O essencial é que durante anos fiz campanha pelo apoio à pastorícia, com algumas pequenas vitórias, de maneira geral ensombradas por regras de acesso aos apoios que os tornavam pouco interessantes para os potenciais utilizadores.


Naturalmente, com este histórico, só poderia ficar contente com o novo programa lançado pelo Governo de apoio à pastorícia mas, infelizmente, com problemas que resultam da necessidade de conformação a regulamentos comunitários e com a irresistível pulsão do Estado para complicar e controlar as actividades de terceiros.


Seis eixos, 77 medidas, dá logo a ideia do que se pode esperar do programa, por melhores que sejam as intenções.


"• As organizações locais candidatam um projeto, agregando 1 ou mais produtores/pastores.


• A administração pública seleciona organismos intermédios, entre as organizações de cúpula setorial.


• Os organismos intermédios analisam e aprovam as candidaturas e controlam a execução dos projetos.


• As entidades intermunicipais validam, por amostragem, o controlo da execução dos projetos".


Está a burra nas couves, em vez de pagarmos directamente aos produtores por prestarem um serviço facilmente verificado, vamos andar nisto de alimentar consultores e círculos de influência.


Não me levem a mal, eu acho óptimo que o Governo finalmente se tenha convencido de que a meia dúzia de tostões (trinta milhões até 2030 não se pode dizer que seja muito) que vai gastar com isto é uma boa ideia, tenho é pena que o Governo não tenha evoluído no mesmo sentido em que eu evoluí, da defesa de uma actividade concreta, a pastorícia, para o pagamento de um serviço definido, qualquer que seja o método para obter esse resultado.


Os diagramas, os diagnósticos, os fluxos, tudo isso é muito interessante, mas deixa-me uma sensação de que estamos a ir, outra vez, por caminhos de cabras perfeitamente evitáveis, em vez nos concentrarmos em simplificar, simplificar, simplificar.

3 comentários:

  1. hoje as tvzenhizas dedicam o seu precioso tempo inútil a falar dum venezuelano que caiu de Maduro.
    quem será o ''freguês que se segue?''.


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