segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Do tempo e da paisagem

Só quando comecei a escrever o título deste post (o tempo e a gestão da paisagem) é que reparei como estava próximo do título do meu primeiro livro e adoptei-o para o título do post.


O post começa com um comentário ao que escrevi sobre a propriedade e a gestão da paisagem: "Quem doa terrenos para fins de conservação quer ter a certeza de que pelo menos a gestão irá ser substancialmente diferente. Não me parece que seja o caso."


O comentário é especialmente interessante por acompanhar uma discussão que existe na Montis desde o seu primeiro dia, que se prende com a necessidade de dar visibilidade ao que se pretende fazer e à forma como se consegue fazer o que se pretende.


Desde o início da Montis que há duas linhas de pensamento: a que entende que a Montis se deveria concentrar num terreno suficientemente pequeno para concentrar os parcos recursos que tem, de modo a que a sua acção seja claramente rapidamente perceptível; a que entende que o impacto da Montis será tanto maior quanto mais área gerir e do que precisa é de ter um modelo de gestão incremental em que pequenas acções contribuem, no longo prazo para os resultados pretendidos.


A opção, até hoje, tem sido a segunda (mas um dia será a primeira, o mais natural é que as opções de expansão e concentração se vão alternando num movimento pendular), como explicado aqui.


Talvez a expressão mais clara dessa opção - pequenas intervenções que estrategicamente influenciam os processos naturais que estão a ocorrer, em detrimento de grandes intervenções para contrariar processos naturais - seja o que andamos a fazer na Pampilhosa da Serra.


Há uns anos comprámos, através de uma subscrição pública, um eucaliptal sem grande interesse de produção (com tão pouco interesse que o proprietário anterior nem se tinha dado ao trabalho de seleccionar as varolas, depois do corte).


Como se explica aqui, poderíamos fazer uma intervenção pesada, mais visível, com resultados mais rápidos, e mais cara, mas optámos por uma reconversão lenta, de baixo custo, de elevado envolvimento de pessoas comuns, que permitisse demonstrar que a reconversão de pequenos eucaliptais sem interesse de produção é simples e pode ser feita por qualquer pessoa, desde que se dê tempo ao tempo.


Resumindo, até agora, o que não quer dizer que seja assim no futuro, a Montis tem optado por contar com o tempo, como uma das suas principais ferramentas de gestão da paisagem.


Haverá sempre que fique impaciente com essa opção, confundindo a lentidão da evolução com ausência de gestão, mas não estou convencido de que tenha informação suficiente sobre as grandes alterações que estão a ocorrer a partir de pequenas intervenções nas propriedades geridas pela Montis.

4 comentários:

  1. «Lisboa é Portugal, o resto é paisagem!».
    nos últimos 20 anos deixem de reconhecer o interior onde passo férias.

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  2. Quem doa terrenos para fins de conservação quer ter a certeza de que pelo menos a gestão irá ser substancialmente diferente.


    Eu contratualizei a gestão de um terreno meu à Montis e verifiquei que a sua gestão é substancialmente diferente da que eu fazia - com melhores resultados.

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  3. Excelente decisão, balio.

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  4. É fora do assunto do post mas a caixa de comentários do Observador, no artigo de Helena Garrido a propósito da intervenção e vídeo do ministro do Ambiente, arrasa o ICNF.

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