Num país em que apenas uns 7% dos trabalhadores são sindicalizados, é extraordinária a dificuldade em discutir as regras que devem existir no mercado laboral.
Comecemos pelo princípio.
O ideal era não haver regras, os empregadores empregam quem querem, os trabalhadores trabalham para quem querem, com as regras que uns e outros concordarem em aplicar a cada caso concreto.
O problema é que a relação laboral é intrinsecamente assimétrica, isto é, o poder do empregador é, frequentemente, bastante maior que o poder do empregado no momento em que se negoceiam as condições a respeitar pelos dois durante o tempo em que vigorar o seu contrato de trabalho.
O principal instrumento para equilibrar a relação contratual entre os dois é a liberdade que o empregado tem para se ir embora se não estiver satisfeito, situação que só se verifica se existirem alternativas para o empregado ganhar o seu sustento, isto é, pleno emprego ou perto disso, e vários empregadores a precisar de empregados.
Nada disto se passa em Portugal que tem um mercado de trabalho rígido, que gera ineficiência, baixa produtividade e nível de salários abaixo do potencial, entre outras razões porque o empregador não tem a flexibilidade de que precisa para rapidamente se adaptar às alterações de contexto nem, frequentemente, tem liberdade para pagar diferentemente a diferentes trabalhadores, em função da avaliação que faz do seu desempenho.
Há por aí quem defenda que a precariedade em Portugal é muito alta, o que demonstra que o mercado de trabalho não é rígido, mas isso é conversa de treta: em Portugal o mercado de trabalho (como o da habitação, o da saúde, o da educação, etc.) é dual, com regras muito favoráveis aos trabalhadores que conseguem ter um contrato de trabalho sem termo, e um mercado de precários, sobretudo no princípio da carreira profissional, em que a ausência de regras e a discricionariedade, incluindo a variedade de esquemas para contornar a legislação, são regra.
E é exactamente a rigidez das regras do mercado de trabalho que empurram os patrões e os trabalhadores para acordos estranhos e precários.
Toda a discussão sobre as melhores regras pode ser feita, mas basta alguém dizer que não faz sentido o patrão estar a pagar horas de trabalho de mulheres que amamentam crianças com mais que alguns meses, ou que não faz sentido os trabalhadores sem filhos, ou com filhos mais velhos, serem sistematicamente prejudicados pela possibilidade dos pais com filhos com menos de 12 anos puderem recusar turnos nocturnos ou ao fim de semana, para cair o Carmo e a Trindade.
Nem mesmo a discussão sobre a experiência de flexi segurança, que reforça a flexibilidade de contratação e despedimento, ao mesmo tempo que assegura prestações sociais a quem perde o seu trabalho, pode ser discutida seriamente, porque os sindicatos, que não representam nem 10% dos trabalhadores, fazem logo um ar muito ofendido e desatam a gritar que vem aí o fascismo e, por isso, acham legítimo bloquear os transportes e os serviços públicos, para dar a impressão de que toda a gente está contra a possibilidade de mudar as regras do mercado de trabalho.
Continuai, continuai, enquanto milhares de pessoas dizem com os pés o que pensam, emigrando para países onde a protecção dos trabalhadores é teoricamente menor.
Tem tudo para dar certo.
Algo que sempre achei estranho foi amigos meus saire de Portugal porque são precários, recebem pouco e afins. Depois vão para a Irlanda, Holanda, e por aí e os empregos são muito mais precários que aqui e eles trabalham bem mais e melhor lá fora. Claro, ganham bem mais, mas lá dora não se importam com as leis de trabalho, aqui é um ai jesus!!!!
ResponderEliminarComeça pelo maior empregador do país. Não pode pagar o que quer, não poe despedir quem quer.
ResponderEliminarCuriosamente, os empregados fazem greve, falam mal, mas não abandonam o poiso
estado corporativo de fazer inveja à 2ª república.
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ResponderEliminarpleno emprego ou perto disso, e vários empregadores a precisar de empregados
Mas não são essas as condições que atualmente se verificam em Portugal, ou pelo menos em amplas regiões de Portugal?
ResponderEliminarao mesmo tempo que assegura prestações sociais a quem perde o seu trabalho
Quem asseguraria prestações maiores do que as atuais?
Que eu saiba, a Segurança Social não está propriamente a nadar em dinheiro.
É exactamente por isso que é boa altura para liberalizar o mercado de trabalho, quando os trabalhadores estão em condições negociais muito fortes.
ResponderEliminarA sua ideia é que não tendo o Estado dinheiro, devem ser as empresas a pagar as opções do Estado, é isso?
ResponderEliminarO resultado é que, se as empresas também não tiverem dinheiro, fecham ou reduzem a actividade e, com isso, o Estado fica ainda com menos dinheiro e os trabalhadores acabam em trabalhos de baixo valor acrescentado, com baixos salários e menor protecção social.
Brilhante, como estratégia de protecção dos trabalhadores
Além de aplicar aos FP as regras (leis) nacionais, o que se deve liberalizar? Não me parece que os privados tenham problema em despedir e contratar, desde que cumpram prazos mínimos e paguem o devido.
ResponderEliminarEm Portugal é simplesmente proibido despedir sem justa causa.
ResponderEliminarNão é verdade.
ResponderEliminarExistem contextos em que o despedimento é possível, tal como extinção do posto de trabalho. A justificação pode ser esgrimida em tribunal (a sua veracidade), mas existe.
Sim, quando há justa causa.
ResponderEliminarSem justa causa é proibido despedir.
Acresce que se a justa causa for contestada judicialmente e o tribunal entender que não havia justa causa, a reintegração do trabalhador é obrigatória.
Qual é mesmo a sua ideia de dizer que o que eu escrevi não é verdade e depois confirma?
Óbviamente que aqui o nosso Anónimo está mais preocupado com a defesa do "Estado", do que com a defesa e proteção dos trabalhadores. Argumento típico de aristocrata do regime...
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ResponderEliminaré boa altura para liberalizar o mercado de trabalho, quando os trabalhadores estão em condições negociais muito fortes
Sim, concordo com isso.
O que me surpreende é que o Henrique no seu post tenha afirmado o oposto do meu comentário: "Nada disto se passa em Portugal", escreveu.
ResponderEliminaro que se deve liberalizar?
Há, por exemplo, uma regra muito estúpida segundo a qual é proibido baixar salários.
É evidente que, a partir de certa idade, alguns trabalhadores diminuem a sua produtividade. É disparatado não permitir que a empresa identifique esses trabalhadores e lhes proponha uma redução do salário.
É também evidente que as empresas enfrentam crises, durante as quais pode ser vantajoso manter os trabalhadores, ainda que tendo que lhes reduzir o salário.
ResponderEliminarA sua ideia [...] é isso?
A minha ideia é que a flexissegurança assenta num subsídio de desemprego mais favorável (durante mais tempo e com maior valor) do que o atual, coisa que custaria mais dinheiro à Segurança Social, pelo que as contribuições para esta teriam que aumentar.
Logo, quem propõe flexissegurança deve explicar como é que o défice na Segurança Social daí advindo deve ser coberto.
Sim, eu poderia ser mais claro a explicar que me referia a este parágrafo: "", embora mesmo em relação ao que cita, seja preciso explicar que o "pleno emprego" português se faz com 20% de desemprego jovem e sem uma grande quantidade de empregadores a querer contratar porque não sabem o dia de amanhã.
ResponderEliminarAinda assim, é uma boa altura para corrigir o mercado dual que existe em Portugal.
Mas por que razão tenho eu de explicar as consequências para a segurança social de uma situação futura se sua excelência não sente necessidade de explicar as consequências na produtividade e baixos salários do que existe?
ResponderEliminarExtinção do posto de trabalho não é "com justa causa". Despedimento com justa causa nem aviso prévio precisa, ou há direito a indemnizações. É consequência de infracções, como indisciplina, faltas sem justificação, ou outras. Do mesmo modo que o empregado pode alegar justa causa e sair sem dar aviso prévio, em caso de violação contratual por parte do empregador.
ResponderEliminarHps tem toda a razão. Despedimento só é possível com justa causa. Basta ;ler:
ResponderEliminarhttps://quor.pt/trabalho/despedimento-sem-justa-causa-lei-portugal/
Holanda, precários? Só se for nas obras.
ResponderEliminarDespedir é beeeeeem difícil. Trabalham mais? So mesmo se forem zzpers e trabalharem à hora.
Despedir sem justa causa é ilegal, qualquer que seja a razão. Vejam a legislação em vigor.
ResponderEliminarNão é o que diz a inteligência artificial.
ResponderEliminarDiz que não pode ser despedido sem razão, mas o conjunto de razões que o permitem é bastante alargado:
Valid reasons for dismissal
Business economic reasons: This includes situations like reorganization, restructuring, or bankruptcy.
Inadequate performance: This requires the employer to first provide a reasonable chance for improvement, often through a performance improvement plan (PIP).
Culpable conduct: This covers actions like theft, fraud, or other serious misconduct, and can lead to "instant dismissal".
Disrupted working relationship: This can arise from serious conflicts between the employee and employer.
Long-term illness: Termination is generally not permitted during the initial two years of illness, during which time the employer must continue to pay salary.
Essas razões, como fraude e bancarrota, também existem em Portugal.
ResponderEliminarSe alguém roubar a empresa, é corrido no dia. Já tive conhecidos despedidos por terem "2ª actividade". Bem que no funcionalismo público é uma paródia do vale-tudo, mas no privado basta colocar um post a falar da empresa no FB, que é quebra de contrato com direito a saída.
Se acha que andar a sustentar alguém 2 anos (com salário completo) de baixa com "burnout" e só depois lhe dar um chuto é precariedade... viva a precariedade.
Tem razão
ResponderEliminarO que as empresas costumam fazer é reduzir horas para contornar isso...
Mas faz todo o sentido tentar renegociar salários em baixa.
Dada a importância do tema, atrevo-me a oferecer estas notas:
ResponderEliminarAlgumas das razões existem em Portugal, mas o relevante não é o que é comum, mas aquilo que existe nos Países Baixos mas não existe em Portugal.
ResponderEliminarE o que existe nos Países Baixos que não existe em Portugal em termos de precariedade? Todas as razões elencadas pela sua AI existem em Portugal. Pergunte à AI quão fácil é despedir por cá...
ResponderEliminarA sua afirmação é completamente falsa.
ResponderEliminarÉ comparar: