Como sabe quem passa aqui pelo blog, escrevo frequentemente sobre assuntos que domino mal (curiosamente escrevo menos sobre assuntos que domino melhor, quer porque significa repetir-me em demasia, quer porque o número de pessoas que se interessam pelos assuntos de que sei qualquer coisa, em especial, gestão da paisagem, não só são poucos como estão numa época de refluxo).
Entre esses assuntos que domino mal, está a habitação, sobre a qual tenho escrito com algum frequência nos últimos tempos.
Como o que escrevo se baseia muito no meu pequeno mundo paroquial, alguém me fez lembrar, com razão aparente (e o aparente é mesmo porque, não sabendo o suficiente sobre o assunto, não tenho capacidade para ter opinião autónoma sobre a validade do que me parece sensato), " há uma coisa que me leva a suspeitar que há qualquer coisa a faltar: o fenómeno é mundial, pelo menos nas economias avançadas; e é muito estranho que em todas elas a procura “normal” tenha disparado e a oferta tenha atrasado o ritmo. Que o sector da habitação tenha sido repentinamente abalado por um surto inflacionário mundial, quando o resto da inflação (dos produtos) está estabilizada. O único outro segmento das economias tem sido galopante é nos activos financeiros. Portanto, intuitivamente, tendo a acompanhar a hipótese (para mim é mais que hipótese) que o real estate está a ser mais investido como activo financeiro, por motivos especulativos (sem conotação moral) do que era habitual. E que a procura para este fim está a ter um efeito maior do que habitual no comportamento do mercado e seu equilíbrio".
O comentário parece-me lógico, e conversa puxa conversa, entre perguntas (feitas por quem sabe mais que eu, perguntar é sempre útil, mas é mais eficiente quando quem pergunta sabe melhor o que perguntar) e inteligência artificial, parece-me pacífico melhorar a visão sobre a realidade da habitação com base em informação relacionada com o que é referido no comentário.
Deixarei para outros textos (este ficaria demasiado comprido) alguma discussão sobre aspectos mais específicos e, para já, interessa-me assinalar este facto: a "financeirização" global da procura sobre habitação tem efeitos nos preços (em que medida, é mais complicado responder, veremos em próximos textos se consigo dizer qualquer coisa racional sobre isso), mas admitir o diagnóstico não é subscrever as teses que apontam para o controlo da procura (limitações xenófobas de acesso ao mercado, limitações irracionais a actividades económicas, controlo de rendas, etc.) é apenas procurar melhorar a resposta a dar para um dos eventuais efeitos desta financeirização: a exclusão de parte da sociedade do acesso à compra de habitação (que não é o mesmo que o acesso à habitação, o imobiliário sempre foi um mercado com uma forte componente financeira que permitia que a poupança se transformasse em casas que se arrendavam aos que estavam excluídos de compra ou construção própria da sua casa).
Veremos o que consigo escrever sobre isto nos próximos dias.
Acho que gira tudo em redor da expressão; activos.
ResponderEliminarEmpresta-se sobre activos, etc.
O dinheiro por exemplo,como activo é bastante rígido.
Já um imóvel dependendo de uma avaliação, por definição subjetiva, é bastante mais elástico.
Parece-me que tudo gira á volta disto.
Depois temos os fundos, e já me esquecia; os donos deles que bem vistas as coisas são os donos disto tudo.
Como é que se diz ?! Ah é 😀 o mercado a funcionar.
nos bancos existem milhões de € a prazo. ninguém investe em imóveis para arrendar porque se arrisca a não receber a renda e a ficar com a casa completamente degradada.
ResponderEliminaro 'estado paizinho' é o novo 'Robin dos Bosques'.
a época atual caracteriza-se por «
ResponderEliminarJá pensei nisso e nos fundos Imobiliários que podem comprar um quarteirão e deixar valorizar sem mexer uma palha. Mas sempre desconfiei disso, porque se eu posso alugar e rentabilizar ainda mais o activo porque hei-de deixar as portas fechadas? Talvez a resposta esteja na justiça lenta e nas leis que protegem os inquilinos até ao absurdo.
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ResponderEliminara exclusão de parte da sociedade do acesso à compra de habitação
A exclusão à compra não é grave. O que é muito grave é a exclusão ao arrendamento.
Num mercado funcional, se os preços de compra sobem, os de arrendamento também devem subir, e é mesmo isso que está a acontecer.
Ora, subindo os preços de arrendamento, imensas pessoas ficam sem acesso aos empregos que gostariam de ocupar, e imensas empresas (e serviços públicos) ficam sem acesso aos trabalhadores que gostariam de recrutar.
Em toda a Europa?
ResponderEliminarNão haja dúvidas, a especulação financeira, sabe-se lá porquê — em todo o caso, por factores completamente alheios às políticas governativas —, escolheu o nosso pequeno mundo paroquial para laboratório: “O Habitação na União Europeia: evolução do mercado, fatores subjacentes e políticas (https://economy-finance.ec.europa.eu/document/download/11912749-99e7-4ade-be0c-890a6d6d55ee%5Fen?filename=dp228%5Fen.pdf&prefLang=pt)https://pt.euronews.com/business/2025/10/15/casas-em-portugal-sao-das-mais-sobrevalorizadas-segundo-relatorio-da-comissao-europeia (https://pt.euronews.com/business/2025/10/15/casas-em-portugal-sao-das-mais-sobrevalorizadas-segundo-relatorio-da-comissao-europeia)).
ResponderEliminarQuando se diz que o capitalismo falhou, deveria ser "capitalismo financeiro ".
ResponderEliminarO capital passou de ferramenta ao serviço do capitalismo (ao nível do trabalho e das matérias-primas) para ponto central. Alimenta-se a si mesmo, no sentido de dinheiro gera dinheiro, logicamente o resultado é concentração de capital em quem o tem à partida.
ResponderEliminarse eu posso alugar e rentabilizar ainda mais o activo porque hei-de deixar as portas fechadas?
Porque utilizam ocasinalmente a casa e porque, sendo suficientemente ricos, não precisam de mais dinheiro.
Muitas casas que estão teoricamente vazias são na verdade ocupadas, alguns dias por ano, pelos seus proprietários, os quais também guardam nelas diversas coisas suas. Esses proprietários estimam os dias que habitam nessas casas, por poucos que sejam, e não desejam prescindir deles. Além disso, embora pudesem ganhar muito dinheiro arrendando essas casas, não precisam desse dinheiro.
A título de exemplo, conheço diversas pessoas que têm uma casa em Lisboa e outra no concelho de Cascais. Ou habitam numa ou na outra em permanência, mas não prescindem da segunda, que ocupam apenas ocasionalmente. É claro que poderiam fazer uma boa maquia alugando a segunda casa mas, pura e simlemente, não estão para isso, porque não precisam de mais dinheiro.
pelo menos nos 5 países que conheço por deveres profissionais
ResponderEliminaros vários tipos de comunistas que se exibem na CS e na política deviam acabar com o direito a 2ª habitação?
ResponderEliminarnão tenho nem posso ter
As bolhas nos ativos financeiros e imobiliário parece-me que têm como causa principal a injeção massiva de moeda por parte dos principais bancos centrais mundiais...
ResponderEliminarQuais?
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ResponderEliminarOra bem, tem muitíssima razão.
Os bancos centrais injetam dinheiro nos bancos comerciais, os quais o emprestam preferencialmente a clientes ricos (que são os que dão mais garantias) para eles comprarem ativos. E que ativo é mais seguro do que uma casa?