quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Os factos a realidade

montado queimado.jpg


O boneco acima é de ontem, um montado jovem (aparentemente sem qualquer descortiçamento) ardido.


Não é por haver esta fotografia, é porque disto se encontra aos pontapés em qualquer lado onde existam sobreiros, ou azinheiras ou mesmo montado de outras espécies (sim, o montado não é apenas de sobro ou azinheira, é menos frequente mas existe com mais espécies, mesmo considerando que aos de castanheiro produtores de castanha se chamam soutos e não discutindo sequer o facto de também os soutos não serem forçosamente de castanheiros) que é para mim estranho continuar tanta gente a garantir que algumas espécies de árvores não ardem ou, os mais sofisticados, que alguns tipos de povoamentos, como o montado, não ardem.


Não é o facto da realidade existir que nos impede de a negar, seja nos incêndios, seja em Gaza, seja na Spinumviva, seja na habitação, seja no que for, quando queremos muito, muito, muito, acreditar numa coisa, não existe demonstração feita pela realidade que nos demova.


É por isso que ainda existem comunistas, apesar da demonstração empírica de que essas ideias deram sempre asneira, e não é mau que assim seja, na verdade não há razão nenhuma demonstrável para não admitir a hipótese teórica de que aquilo funcione bem um dia, num contexto particular.


Como ouvi um dia ao Carlos Guimarães Pinto, a propósito das discussões sobre as catástrofes ambentais por vir, para os que, como eu, acham que à medida que as restrições de contexto forem sendo mais severas, as sociedades vão inventando soluções para lhes responder, é preciso que esta hipótese esteja sempre, sempre certa, mas para os malthusianos que acham que um mundo de recursos finitos um dia acabará por resultar numa catástrofe ambiental se não nos moderarmos, basta que tenham razão uma vez.


Até aqui, cada um de nós acredita no que quiser, encontrando as explicações mais engenhosas para poder dizer que há espécies que ardem mais ou menos que outras, ou que o montado dificilmente tem incêndios como os da fotografia do início.


O que me chateia é que os jornalistas que têm como obrigação descrever o que está para cá da fé, tentem apresentar a realidade que encaixa nas suas convicções como sendo a realidade que é materialmente demonstrável, mesmo que, como é frequente, isso implique distorcer informação, omitir informação, ou exagerar um bocadinho num ponto ou noutro.


Aparentemente o Hamas, no essencial, aceitou a sua rendição e vai libertar os reféns (até ao lavar dos cestos é vindima, claro), mas haverá sempre quem negue que isto é a rendição do Hamas (por exemplo, argumentando que amanhã vai surgir outro grupo qualquer igual ao Hamas, o que é uma probabilidade razoável, mas o facto é que o Hamas não é esse grupo) e muitos mais irão negar que só se chegou a este ponto, frágil, com certeza, mas auspicioso, porque o exército israelita enfraqueceu suficiente o Hamas para o obrigar a aceitar um acordo que jamais estaria no seu horizonte há dois anos.

14 comentários:

  1. Bom dia
    Respeitosamente assino por baixo
    Saúde e boa sorte
    António Cabral

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  2. É curioso e assustador que mesmo na investigação científica, a progressão das ideias acontece mais pela mudança das pessoas do que pela mudança das ideias nas pessoas

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  3. O exército israelita enfraqueceu o Hamas matando indiscriminadamente a sua base de apoio e todos os que estavam perto. É um método que funciona muito bem: se todos em Gaza morrerem não haverá terroristas em Gaza, ninguém pode negar.
    O único problema com esta lógica é que não é nova: o Hamas diz que se todos os israelitas morrerem a Palestina será livre e é também uma lógica inatacável.
    Começa a ser muito difícil destinguir entre assassinos terroristas de um lado e do outro.

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  4. o Hamas, no essencial, aceitou a sua rendição e vai libertar os reféns


    Que vai libertar os reféns não há dúvida, aliás já tinha libertado muitos --- sempre em troca de prisioneiros palestinos. Isto nada tem de especial porque desde o princípio o Hamas disse que os reféns que fez a 7 de Outubro se destinavam a obter em troca a libertação de palestinos.


    Já se o Hamas se vai render ainda está por mostrar. Não é nada claro que o Hamas vá entregar as suas armas e renunciar publicamente à violência.

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  5. o Ministro da Economia informou que daqui a 20 anos teremos um Pib equivalente à média do europeu.

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  6. Excelente texto, da primeira palavra ao último ponto final.

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  7. Os grupos criminosos ou terroristas nunca fazem reféns só pelo prazer de os fazer. Eles fazem reféns para uma de três coisas: (1) (raramente) matarem-nos de forma espetacular e exibicionista (como o ISIS fazia, e as Brigadas Vermelhas fizeram com Aldo Moro); (2) trocarem os reféns por dinheiro; (3) trocarem os reféns por prisioneiros que o inimigo tenha anteriormente feito.
    No caso dos reféns que o Hamas fez, sempre foi evidente para toda a gente que o objetivo do Hamas era o terceiro destes três. O Hamas não matou de forma espetacular e exibicionista qualquer refém, nem pediu um resgate monetário em troca de nenhum deles.
    Ou seja, o que o Hamas sempre quis foi aquilo que agora vai obter: trocar os reféns israelitas (e alguns de outras nacionalidades) por palestinos que estão presos em Israel.
    Neste sentido, o primeiro passo do acordo agora feito satisfaz o objetivo de primeira hora do Hamas (embora talvez os termos da troca, um israelita por 100 palestinos, não sejam tão favoráveis ao Hamas como este gostaria).
    Não se compreende que Israel se vanglorie de algo que poderia ter obtdo muito mais cedo e com muito menor esforço.

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  8. Mesmo que o Hamas se renda, Israel que os conhece bem, deve considerar a coisa com muita cautela. 


    O tipo de gente capaz da canalhice do 07 OUT simplesmente não é de fiar.


    Aquele malta só a pão e água e guardados á vista.

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  9. Atendendo a que, de acordo com os dados do Hamas, terão morrido 3% da população nestes dois anos, não sabendo nós quantos nasceram entretanto, na pior das hipóteses, sobra 97% da população.
    Não sei como qualificar o seu comentário sendo ao mesmo tempo rigoroso e não ofensivo para si.

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  10. Estarem em Doha e não em Teerão...é impossível um leitor de Le Carré não fazer conjecturas/especulações...

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  11. Faz bem em desmontar estes textos propagandistas e fantasiosos. É só peritos em tudo, a escrever sobre o assunto.

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