Não conheço Lourenço Bray a não ser destas coisas virtuais, mas tenho apreciado o que tem escrito e, mais recentemente, o que tem escrito sobre habitação e sobre o que a burocracia europeia pensa sobre isso.
"Lá me dei ao trabalho de ver a que espécie de delírio recorrem no tal estudo para chegar a um valor mágico de “sobrevalorização”. Calculam uma média de três indicadores:Preço-rendimento (price-to-income) vs. média/nível de equilíbrio de longo prazo, Preço-renda (price-to-rent) vs. longo prazo; Modelo econométrico de fundamentais que relaciona preços com população, stock habitacional etc. etc. etc.. O gap final é a média simples destes três.
...
Eu não tenho de estimar nada ou usar modelos complexos, só tenho de observar uma tendência e interrogar-me se agora é o momento de inversão".
São de Lourenço Bray estas observações, em que comenta um relatório europeu que os estatistas difundiram largamente, do mais simples bom senso: o sistema de preços tem muito mais informação, muito mais precisa e difunde-a de forma muito mais eficaz que estudos baseados na ideia, manifestamente errada, de que o valor das coisas é objectivo e não o mero resultado do encontro de vontades subjectivas.
Serve-me isto como introdução ao manual de instruções para o desastre que o comissário europeu para a energia e habitação, dinamarquês e social-democrata, fez publicar ontem, no Público, sob o título "Crise da habitação na UE: uma solução europeia em defesa da nossa democracia".
Confesso que não percebo por que razão a habitação passou para a esfera europeia e o que é que políticas europeias podem fazer para melhorar um problema que, pelo menos em parte, resulta de políticas europeias.
Quando Dan Jorgensen diz que entre 2010 e 2023 o custo de construção das casas novas aumentou 52%, atribui este facto apenas ao aumento de custo dos materiais de construção mas, convenientemente, omite o provável contributo da regulamentação europeia para esse aumento de custo dos materiais e, mais directamente, da regulamentação europeia e nacional para a construção de casas, um sector fortemente regulamentado, quer no acesso aos terrenos com capacidade construtiva, quer no processo de construção em si mesmo.
Se se consideram os preços altos - uma falsa questão, os preços não são altos ou baixos, são o que resulta do encontro entre oferta e procura, o que pode haver é dificuldades de acesso provocadas pela diferença entre os preços que existem e o valor que é atribuído ao seu trabalho - ou se restringe a procura, ou se aumenta a oferta.
Restringir a procura, de maneira geral, colide com a liberdade de muita gente, seja porque passa a ser o Estado a decidir que usos posso dar à minha propriedade, seja porque restrinjo a imigração ou favoreço a emigração ou outra compressão qualquer da liberdade de dispor da minha propriedade ou da minha vida.
Aumentar a oferta, de maneira geral, implica aumentar a liberdade de resposta das pessoas à informação que lhe é fornecida pelo sistema de preços, seja simplificando licenciamentos e regulamentações, seja permitindo maior liberdade económica no uso da terra e outras medidas relacionadas com a liberdade de responder à procura existente.
Infelizmente, Dan Jorgensen não retira nenhuma conclusão relevante do seu diagnóstico que refere uma diminuição de licenças de construção de 20% coincidente com um aumento de 20% dos preços da habitação.
Pelo contrário, em vez de aprofundar as razões económicas que estão na base do problema, parte à desfilada por um atalho perigoso: "Porém, a um nível mais profundo, trata-se de uma crise moral com implicações para a dignidade e os valores humanos fundamentais".
Com base nesta coisa extraordinária que consiste em substituir o juízo económico pelo juízo moral sobre os desequilíbrios entre oferta e procura que geram o aumento de preços (sim, eu sei que, por definição, não existem desequilíbrios entre oferta e procura, mas serve para explicar isto de maneira rápida e compreensível), propõe-se então apresentar nos próximos meses um "Plano Europeu de Habitação a Preços Acessíveis".
Em primeiro lugar propõe-se restirar mais dinheiro à economia para que a Comissão Europeia o aplique em habitação acessível.
Combater a financeirização do parque habitacional.
Combater a burocracia (como toda a gente sabe, num saber de experiência feito, a coisa que a Comissão Europeia faz melhor é combater a burocracia).
Reforçar o mercado único (não percebi como se reforça o mercado único combatendo a financeirização, mas reconheço a minha incompetência para esta discussão).
Nova legislação sobre o arrendamento de curta duração (cá está o que a Comissão Europeia entende por combater a burocracia, suponho eu), para combater as práticas abusivas de quem arrenda a sua propriedade e, com isso expulsa os habitantes das cidades.
A minha pergunta é simples: qual é a legitimidade da Comissão Europeia para me enfiar pela goela as políticas habitacionais de António Costa que os eleitores rejeitaram?
«nada é caro, eu é que ganho pouco!».
ResponderEliminar«estado em tudo se mete» desastradamente.
esqueceu-se ou ignora: Friedrich A. Hayek in Los fundamentos de la libertad.
A habitação está escandalosamente cara e muito acima do que o comum das pessoas pode aceder.
ResponderEliminarÉ absolutamente extraordinário que "especialistas" e comentadores metam os pés pelas mãos, discorrendo largamente sobre o mercado, sobre a oferta, sobre a procura, sobre o turismo (outra ficção) mas fujam como o diabo da Cruz de explicar de forma simple, o brusco salto nos preços ocorrido aí há ano e meio.
Posso estar enganado, mas a sensação que tenho é que há dedo da banca na coisa.
Dir-se-á que a vocação da banca não é ser proprietária de imobiliário, que a banca na verdade até nem é proprietária de imobiliário.
Sério ??? 😂
faz lembrar a recomendação de Lord Chesterfield ao filho sobre fazer sexo:
ResponderEliminar«a posição é ridícula, o prazer efémero, a fadiga imensa»
ResponderEliminarentre 2010 e 2023 o custo de construção das casas novas aumentou 52%
Seria curioso esmiuçar esta percentagem (52%) e saber que parte dela ocorreu somente nos últimos dois anos referidos, isto é, em 2022 e 2023.
Porque boa parte (eu suspeito que a maior parte) do aumento do custo dos materiais de construção deveu-se à política europeia de boicote à Rússia a partir de 2022, conduzindo a uma escalada dos preços da energia na Europa que encareceu brutalmente boa parte da economia europeia, em particular o setor da construção, com produtos que exigem um grande input energético como o cimento, o aço e o vidro.
Tendo eu tido que fazer umas grandes obras de (re)construção em 2023, sei de como o contrutur civil se queixava do aumento brutal que os materiais tinham subido "no último ano", dizia ele. Ou seja, desde 2022 - não desde 2010.
Esqueceu-se dos marcianos que andam disfarçados a criar problemas. Sem entrar em linha de conta com esse factor, é tudo muito difícil de explicar.
ResponderEliminarExcelente texto. Factos e assertividade.
ResponderEliminarQuem sabe, sabe. Infelizmente jornalismo e política estão cheios de quem não percebe da poda.
Tanto os políticos como a generalidade dos jornalistas, dão mas é a impressão que não querem perceber
ResponderEliminarDesde que já alguns anos os senhores eurodeputados de entretinham a discutir as dimensões dos galinheiros e portinholas, ficou mais claro o rumo da UE...
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ResponderEliminarCrise da habitação na UE
Não há crise. Há dificuldades em pessoas acederem a imóveis com taxa de esforço a rondar os 33% que a banca arbitrariamente define como máximo aceitável, mas isso é uma consequência de um mercado pujante em que os proprietários aumentam a sua riqueza, sendo portanto o que se pretende numa sociedade que preza a criação de riqueza e não o nivelamento pela pobreza.
Numa coisa, certamente, eu estou de acordo com (o título d)este post: que a União Europeia, que para muitos em Portugal foi um sonho, está cada vez mais a transformar-se num pesadelo.
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ResponderEliminarO actual presidente do conselho europeu é um dos principais responsáveis pelas várias crises na Europa/UE (desde a imigração à habitação etc etc.),mas como é já habitual tudo segue como se nada tivesse sucedido. Seria para rir até cair se não fosse uma tragédia.
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ResponderEliminarhttps://youtu.be/rGZmjIt_Wxw?si=n0pXTK-t2W1V3yop