quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O pesadelo europeu em todo o seu esplendor

Não conheço Lourenço Bray a não ser destas coisas virtuais, mas tenho apreciado o que tem escrito e, mais recentemente, o que tem escrito sobre habitação e sobre o que a burocracia europeia pensa sobre isso.


"Lá me dei ao trabalho de ver a que espécie de delírio recorrem no tal estudo para chegar a um valor mágico de “sobrevalorização”. Calculam uma média de três indicadores:Preço-rendimento (price-to-income) vs. média/nível de equilíbrio de longo prazo, Preço-renda (price-to-rent) vs. longo prazo; Modelo econométrico de fundamentais que relaciona preços com população, stock habitacional etc. etc. etc.. O gap final é a média simples destes três.


...


Eu não tenho de estimar nada ou usar modelos complexos, só tenho de observar uma tendência e interrogar-me se agora é o momento de inversão".


São de Lourenço Bray estas observações, em que comenta um relatório europeu que os estatistas difundiram largamente, do mais simples bom senso: o sistema de preços tem muito mais informação, muito mais precisa e difunde-a de forma muito mais eficaz que estudos baseados na ideia, manifestamente errada, de que o valor das coisas é objectivo e não o mero resultado do encontro de vontades subjectivas.


Serve-me isto como introdução ao manual de instruções para o desastre que o comissário europeu para a energia e habitação, dinamarquês e social-democrata, fez publicar ontem, no Público, sob o título "Crise da habitação na UE: uma solução europeia em defesa da nossa democracia".


Confesso que não percebo por que razão a habitação passou para a esfera europeia e o que é que políticas europeias podem fazer para melhorar um problema que, pelo menos em parte, resulta de políticas europeias.


Quando Dan Jorgensen diz que entre 2010 e 2023 o custo de construção das casas novas aumentou 52%, atribui este facto apenas ao aumento de custo dos materiais de construção mas, convenientemente, omite o provável contributo da regulamentação europeia para esse aumento de custo dos materiais e, mais directamente, da regulamentação europeia e nacional para a construção de casas, um sector fortemente regulamentado, quer no acesso aos terrenos com capacidade construtiva, quer no processo de construção em si mesmo.


Se se consideram os preços altos - uma falsa questão, os preços não são altos ou baixos, são o que resulta do encontro entre oferta e procura, o que pode haver é dificuldades de acesso provocadas pela diferença entre os preços que existem e o valor que é atribuído ao seu trabalho - ou se restringe a procura, ou se aumenta a oferta.


Restringir a procura, de maneira geral, colide com a liberdade de muita gente, seja porque passa a ser o Estado a decidir que usos posso dar à minha propriedade, seja porque restrinjo a imigração ou favoreço a emigração ou outra compressão qualquer da liberdade de dispor da minha propriedade ou da minha vida.


Aumentar a oferta, de maneira geral, implica aumentar a liberdade de resposta das pessoas à informação que lhe é fornecida pelo sistema de preços, seja simplificando licenciamentos e regulamentações, seja permitindo maior liberdade económica no uso da terra e outras medidas relacionadas com a liberdade de responder à procura existente.


Infelizmente, Dan Jorgensen não retira nenhuma conclusão relevante do seu diagnóstico que refere uma diminuição de licenças de construção de 20% coincidente com um aumento de 20% dos preços da habitação.


Pelo contrário, em vez de aprofundar as razões económicas que estão na base do problema, parte à desfilada por um atalho perigoso: "Porém, a um nível mais profundo, trata-se de uma crise moral com implicações para a dignidade e os valores humanos fundamentais".


Com base nesta coisa extraordinária que consiste em substituir o juízo económico pelo juízo moral sobre os desequilíbrios entre oferta e procura que geram o aumento de preços (sim, eu sei que, por definição, não existem desequilíbrios entre oferta e procura, mas serve para explicar isto de maneira rápida e compreensível), propõe-se então apresentar nos próximos meses um "Plano Europeu de Habitação a Preços Acessíveis".


Em primeiro lugar propõe-se restirar mais dinheiro à economia para que a Comissão Europeia o aplique em habitação acessível.


Combater a financeirização do parque habitacional.


Combater a burocracia (como toda a gente sabe, num saber de experiência feito, a coisa que a Comissão Europeia faz melhor é combater a burocracia).


Reforçar o mercado único (não percebi como se reforça o mercado único combatendo a financeirização, mas reconheço a minha incompetência para esta discussão).


Nova legislação sobre o arrendamento de curta duração (cá está o que a Comissão Europeia entende por combater a burocracia, suponho eu), para combater as práticas abusivas de quem arrenda a sua propriedade e, com isso expulsa os habitantes das cidades.


A minha pergunta é simples: qual é a legitimidade da Comissão Europeia para me enfiar pela goela as políticas habitacionais de António Costa que os eleitores rejeitaram?

13 comentários:

  1. «nada é caro, eu é que ganho pouco!».
    «estado em tudo se mete» desastradamente.
    esqueceu-se ou ignora: Friedrich A. Hayek in Los fundamentos de la libertad.

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  2. A habitação está escandalosamente cara e muito acima do que o comum das pessoas pode aceder.


    É absolutamente extraordinário que "especialistas" e comentadores metam os pés pelas mãos,  discorrendo largamente sobre o mercado, sobre a oferta, sobre a procura, sobre o turismo (outra ficção) mas fujam como o diabo da Cruz de explicar de forma simple, o brusco salto nos preços ocorrido aí há ano e meio.


    Posso estar enganado, mas a sensação que tenho é que há dedo da banca na coisa.


    Dir-se-á que a vocação da banca não é ser proprietária de imobiliário, que a banca na verdade até nem é proprietária de imobiliário.


    Sério ??? 😂 

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  3. faz lembrar a recomendação de Lord Chesterfield ao filho sobre fazer sexo:
    «a posição é ridícula, o prazer efémero, a fadiga imensa»

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  4. entre 2010 e 2023 o custo de construção das casas novas aumentou 52%


    Seria curioso esmiuçar esta percentagem (52%) e saber que parte dela ocorreu somente nos últimos dois anos referidos, isto é, em 2022 e 2023.


    Porque boa parte (eu suspeito que a maior parte) do aumento do custo dos materiais de construção deveu-se à política europeia de boicote à Rússia a partir de 2022, conduzindo a uma escalada dos preços da energia na Europa que encareceu brutalmente boa parte da economia europeia, em particular o setor da construção, com produtos que exigem um grande input energético como o cimento, o aço e o vidro.


    Tendo eu tido que fazer umas grandes obras de (re)construção em 2023, sei de como o contrutur civil se queixava do aumento brutal que os materiais tinham subido "no último ano", dizia ele. Ou seja, desde 2022 - não desde 2010.

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  5. Esqueceu-se dos marcianos que andam disfarçados a criar problemas. Sem entrar em linha de conta com esse factor, é tudo muito difícil de explicar.

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  6. Excelente texto. Factos e assertividade.
    Quem sabe, sabe. Infelizmente jornalismo e política estão cheios de quem não percebe da poda.

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  7. Tanto os políticos como a generalidade dos jornalistas, dão mas é a impressão que não querem perceber       

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  8. Desde que já alguns anos os senhores eurodeputados de entretinham a discutir as dimensões dos galinheiros e portinholas, ficou mais claro o rumo da UE...

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  9. Crise da habitação na UE


    Não há crise. Há dificuldades em pessoas acederem a imóveis com taxa de esforço a rondar os 33% que a banca arbitrariamente define como máximo aceitável, mas isso é uma consequência de um mercado pujante em que os proprietários aumentam a sua riqueza, sendo portanto o que se pretende numa sociedade que preza a criação de riqueza e não o nivelamento pela pobreza.

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  10. Numa coisa, certamente, eu estou de acordo com (o título d)este post: que a União Europeia, que para muitos em Portugal foi um sonho, está cada vez mais a transformar-se num pesadelo.

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  11. O actual presidente do conselho europeu é um dos principais responsáveis pelas várias crises na Europa/UE (desde a imigração à habitação etc etc.),mas como é já habitual tudo segue como se nada tivesse sucedido. Seria para rir até cair se não fosse uma tragédia. 

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