Uma das mais interessantes contribuições teóricas de Lenine contraria directamente Marx: onde Marx (e Engels) entendiam que só os trabalhadores poderiam libertar os trabalhadores da sua exploração, Lenine veio falar da vanguarda dos trabalhadores, organizada no partido dos trabalhadores.
A tendência das organizações para se justificarem a si mesmas e hostilizarem os indivíduos que só criam confusão dentro das organizações, começando por terem as ideias que lhes apetece, em vez de terem as ideias que interessam à organização, é uma tendência muito forte e Lenine alavancou essa tendência na ideia do centralismo democrático, isto é, democracia dentro das organizações, sim, mas nunca com reflexos externos em que a individualidade contraria a decisão democrática colectiva.
É neste sentido que às vezes falo da tomada de poder pela ala leninista da Iniciativa Liberal, isto, a ala para quem a preservação da "linha justa" partidária é mais importante que o direito à asneira de toda a gente, o que conduz à ostracização e provável afastamento dos que não prescidem das suas opiniões no espaço público, mesmo que desalinhadas dos interesses da organização (escusam de me falar de Carlos Guimarães Pinto, com uma intervenção partidária mínima, que exprime publicamente as suas opiniões, não alinhadas com a direcção da Iniciativa Liberal, porque é uma excepção que confirma a regra, excepção essa que se deve à consciência do seu peso no movimento liberal em Portugal).
Não há nada de específico neste comportamento da direcção da IL, se falo mais vezes nisso a propósito da Iniciativa Liberal é apenas porque o liberalismo me interessa mais que o que defendem outros partidos.
Esta longa introdução tem apenas o objectivo de enquadrar a questão do financiamento partidário em Portugal, que é generoso e esmagadoramente feito pelo Estado, com base no número de votos.
Ou seja, a diferença entre o Bloco de Esquerda e a Jerónimo Martins, do ponto de vista do seu negócio, existe na substância, mas não tanto nos processos: o fundamental é ter uma equipa suficientemente profissional para vender o produto de forma eficiente, sendo possível ter receitas que garantam a sustentabilidade do negócio, mesmo que toda a gente diga mal das duas organizações.
Os militantes do Bloco (como de qualquer outro partido), na verdade, só atrapalham e não servem para nada, têm ideias próprias, conspiram uns contra os outros, não são precisos para financiar a organização e a manter, ao contrário dos funcionários do Bloco (ou de qualquer outro partido) que, desde que consigam bons resultados eleitorais (ou boas vendas, no caso da Jerónimo Martins), mais que justificam os seus ordenados por conseguirem captar recursos para que a organização se mantenha e assegure os rendimentos dos que dela dependem (tal como na Jerónimo Martins, o tempo dedicado à empresa pode depois ser rentabilizado noutra empresa que garanta melhores condições de trabalho, não é forçoso que assegurar os rendimentos de quem trabalha para um partido signifique a manutenção no partido, no Chega existem bastantes exemplos, e bastante evidentes, que demonstram esta ressalva, mimetizando, aliás, o que aconteceu com o PS de Guterres e Sócrates, cujo acesso ao poder, depois de anos de cavaquismo, permitiu a captação de muitos quadros para o PS, incluindo muitos que antes andavam nas margens do cavaquismo).
Estas características das organizações, em Portugal, são potenciadas pelo generoso financiamento do Estado e pelas regras excessivamente limitadoras do financiamento privado dos partidos, ao cortarem uma ligação fundamental dos indivíduos às organizações: a contribuição de cada um para a sua sustentabilidade económica.
Por mim, podíamos começar a cortar o financiamento do Estado aos partidos, liberalizando o financiamento privado (o que significa regras fortes de transparência em relação à origem dos recursos, e liberdade total de financiar qualquer organização política que se pretenda financiar).
5% por ano, para dar tempo aos partidos para retomarem competências de captação de militantes pagadores e financiadores.
ResponderEliminarpodíamos começar a cortar o financiamento do Estado aos partidos, liberalizando o financiamento privado
O problema é que o financiamento privado seria feito na sua maioria por um punhado pequeno de pessoas, ao contrário do financiamento estatal que é proporcional ao número de votantes em cada partido. Contrariar-se-ia assim a regra fundamental "um homem, um voto" da democracia. A democracia seria substituída pela oligarquia.
Inteiramente de acordo com a redução drástica do financiamento público, ao conjunto do sistema partidário.
ResponderEliminarO montante poupado deveria transitar para o Tribunal de Contas aumentando as suas competências em pedagogia, prevenção e punição.
Acho que só se ganhava.
A menina Mortágua parece não ir candidatar-se a Coordenadora do Bloco de Esquerda, muito embora continue a andar por lá.
ResponderEliminarMesmo assim não há como negar;
O Bloco está de parabéns !
Sendo essa premissa verdadeira, então porque não financiar também os clubes de futebol pelo Estado? Seriam muito mais transparentes. Não acha?
ResponderEliminaralém de 90% de deputados mudos inúteis os contribuintes ainda sustentam:
ResponderEliminaro MONSTRO burocrático dispensável na sua maioria (muito respeito por Professores, Médicos, Enfermeiros, Bombeiros, Forças de Segurança e F. Armadas).
sindicatos com 15% de sindicalizados «
o problema reside no excessivo número de indivíduos a viver do bolso dos contribuintes e perfeitamente descartáveis.
ResponderEliminarchegavam 18 deputados um por distrito.
Não percebi. O que é que o faz pensar que o número de votos depende do financiamento dos partidos?
ResponderEliminarInfelizmente nem todos convivem com o contraditório como o hps. Tem a ver com ego pessoal mas também com a ideia de que defendem "o bem". Acreditando nisso, quem se lhes opõe só pode ser do mal. Acaba por ser uma reacção lógica, embora assente numa premissa errada. Mas quem se acha certo nunca vai reconhecer esta.
ResponderEliminarQuanto ao financiamento, está certíssimo. A democracia mais pujante e estável do mundo assenta numa base de financiamento privado, e funciona bem melhor que qualquer outra.
Acho muitíssimo bem que o financiamento dos partidos seja maioritariamente público.
ResponderEliminarE se fosse exclusivamente público, não viria mal ao mundo.
As regras e sobretudo a transparência teriam era de ser a toda, mas mesmo a toda a prova.
E se se conseguisse o ar ficaria bastante mais leve e respirável.
Por falar em Lenine, vai um grande choro e ranger de dentes por toda a Alemanha.
ResponderEliminarAs perspectivas são sombrias e o ambiente pardacento.
A falta que faz o que vinha baratinho naqueles gazodutos.
E entende-se melhor o sorriso permanente de Xi Jip deing
Esqueceu-se é de dizer porquê e se acha que os resultados da aplicação dessa ideia têm sido bons
ResponderEliminarParece-me que refere a questão do financiamento público.
ResponderEliminarÉ simples; os Partidos são um Bem Público, como tal o seu financiamento deve antes do mais competir ao Estado.
Tal não exclui Doações privadas desde que tudo seja clarinho transparente e sem levas isto mas dás-me aquilo.
Nos países nórdicos parece funcionar muito bem.
ResponderEliminarMas tenho de admitir que pode não ser a única razão.
O abastecimento alimentar também é um bem público, a liberdade também é um bem público, a mobilidade também é um bem público, etc., etc., etc..
ResponderEliminarÉ possível que funcione bem, mas o aumento da opção pelo financiamento estatal é coincidente com um declínio acentuado de militância em partidos, que é residual (com excepção da islândia, o que parece estar ligado com a questão das primárias nos partidos).
ResponderEliminarA minha hipótese é que essa progressiva funcionalização dos partidos (e, em geral, das organizações associativas) enfraquece as democracias porque vai minando a qualidade das elites partidárias, que tendem a perder a ligação com o mundo real (o que pode ajudar a explicar por que razão as preocupações das pessoas comuns, por exemplo, com a insegurança, foram tão tarde absorvidas pelos partidos tradicionais e só entraram no debate política por via de partidos novos).
O que vinha nos gasodutos só faz tanta falta porque os idiotas dos europeus embarcaram em cantos de sereia de transições energéticas que, na verdade, só existem mesmo na cabeça dos climáticos. Os russos, e os seus sucedâneos leninistas, como aqui este nosso "anónimo", apostaram nesta idiotice europeia, que na prática coloca(ria) a Europa nas mãos da Rússia, para reconstruir o paraíso dos amanhãs que nunca cantaram ...
ResponderEliminarNos EUA o financiamento é privado, e funciona melhor que qualquer país europeu, não concorda?
ResponderEliminarBom. Dos EUA eu só falo por ouvir dizer e do que leio.
ResponderEliminarE digo-lhe; honestamente parece-me que não.
Na Europa, mesmo com falhas, as coisas estão bastante melhores.
ResponderEliminarNinguem mandou os germanos acabarem com o nuclear e colocarem-se dependentes do gás russo, barato ou caro que fosse. São escolhas.
Verdade seja dita, a Rússia devia sera aliada (ou parceira) da Europa, e não antagonista. Se não o é por razões ideológicas, então que se dê o mesmo tratamento a China, Índia e países árabes, não me parece que democracia e direitos humanos seja coisa muito prezada por esses lados
Mas porque teria de haver amanhãs, ou tardes já agora, a cantar, no abastecimento de gaz russo á indústria Europeia ?
ResponderEliminarNão era um simples caso de compra e venda, com mútua vantagem porquê ?
Será melhor agora com gáz mais caro ?
Porque carga de água já agora ??!!
ARMSTRONG, John A.: The Soviet Bureaucratic Élite. A case, study oí the Ukrainian Apparatus. Nueva York, Praeger, 1959 s 174 págs. AYIH, Michel: Ein Afrikaner in Moskau. Koln, Wissenschaft and Politik, 1961; 197 páginas. BARGHOQRN, F. C.: The Soviet Cultural Offensive. Princeton, N. J., P. U. P., 1960; VII-353 págs. BAUER, Raymond A.; iNKELEs, Alex, y KLUCKHOHN, Gyde: Hcnv the Soviet System Works. Cultural, Psychological and Social Themes, 1960; XVI+ 312 +XII págs. BEREDAY, Z. F., y otros. (Ed.): The changing Soviet school. Boston, Riverside, 1960; 514 págs. BLACK, Cyril E. (Ed): The Transformation 0/ Russian Society: Aspects of Social Change Since 1861. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1960; VII+695 págs. BOCHENSKY, í. M., y NIEMEYER, G. (Ed.): Handbuch des Weltkommumsmus. Freiburg i. Br..München, V. K. Alber, 1958; XVI-764 págs .....
ResponderEliminarO fenômeno que refere "funcionalizaco" é bem real e sem dúvida, uma espécie de esclerose altamente destrutiva.
ResponderEliminarVisto de fora, a sensação é que se promove clubismo para apanhar o voto e tudo acaba aí.
Por dentro, não sei. Nunca lá estive nem vou estar.
Os alemães optaram pela solução mais barata e mais racional.
ResponderEliminarO que ninguém adivinhou foi que a tão apregoada "concorrência" fosse levada ao extremo de escabaçar os gazodutos.
Como diria o outro; admirável mundo novo.
Parece-me muito difícil contrariar Lenine, quando a base de apreciação (o elemento cultural dominante) é o consumo (o PIB per capita). O êxito de países que o aplicam quer a China com partido único, quer Singapura (multipartidária mas com um partido que está à beira de 70 anos no poder), é difícil de negar.
ResponderEliminarMesmo os partidos (pelo menos os dois principais) da Coreia do Sul, funcionam internamente com regras autoritárias.
HPS, ao falar no financiamento dos partidos - como já falou no financiamento dos bombeiros voluntários, como poderia falar no financiamento indirecto dos sindicatos - mostra recta intenção mas toca num ninho de vespas.
O cérebro do MFA que desenhou o sistema político saído do 25 de Novembro, privilegiou os partidos, particularmente o partido Socialista e os seus resguardos laterais, o PSD e o PCP. Se esse sistema se esboroou, primeiro em 1982 com o afastamento da tutela militar, agora com a representação política da direita, a eliminação do financiamento público, levaria o PS e o PSD a um (mais?) rápido esvaziamento. Não que isso me pareça mau mas, pão pão, queijo queijo, seria o desaparecimento a curto prazo do regime saído do 25 de Abril.
Tal como, se terminasse o poder governamental de indirectamente instruir as empresas públicas para colocar publicidade em determinados órgãos de informação, seria o fim da comunicação social como a conhecemos.
Tudo aplicações práticas do aforismo "quem dá o pão, dá a educação".
Se os europeus não fossem ingénuos, para dizer o mínimo, em relação à Rússia, nunca se tinham tornado dependentes dos seus recursos energéticos "baratos". Agora, que finalmente perceberam a verdadeira estratégia russa de querer reconstruir o seu Império Colonial para, no seu (russo) ver, voltar a ser grande, acordaram. Demasiado tarde.
ResponderEliminarSendo a Europa um pigmeu militar, não lhe restava muito mais para atingir a Rússia que não seja onde lhe mais dói, a sua única fonte de receita em moeda forte: a energia...
ResponderEliminarMais barato e racional do que produzir energia em vez de ficar dependente de uma fonte externa? Só se for a curto prazo...
Foi uma verdice, nada mais.
Os Europeus foram apenas racionais, a energia russa era barata e aproveitaram-na.
ResponderEliminarQuanto á Rússia "reconstruir" o seu império, bom eles são para aí a 13 ou 14 economia mundial e não vão com toda a certeza tornar-se hegemónicos, nem russificar a Europa.
Sendo assim onde está o mal ?
Note que isto não é lobbyng pela Rússia, é só especulação.
Não parece que a Rússia alguma vez, depois da queda do Muro de Berlim, não tenha tentado ser aliada e parceira da Europa.
ResponderEliminarParece é que a Europa nunca esteve interessada.
Pois. Mas a pergunta essencial é: o day after seria melhor ou pior ?
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ResponderEliminarTem toda a razão,claro que são bens públicos.
Beneficiam até de outros bens públicos como vias de comunicação, electricidade pública, etc,.
Não vejo bem onde esteja a questão.
Para o regime que existia antes do 25 de Abril, um rascunho ditatorial, o financiamento dos partidos não constituía problema algum.
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