domingo, 28 de setembro de 2025

Dos publicistas

Um dos meus irmãos, de vez em quando, vê uma receita no Expresso e traz-me porque gostaria de provar o que lá está.


Se acho que sei fazer e não é muito complicado, experimento.


Fez exactamente isto um dia destes, fui deixando andar, até que lá fiz o que ele queria (ele diz que ficou bom, eu acho que eu deveria perceber que é preciso cuidado com o sal em coisas que levam anchovas) e o assunto passou, tendo o meu irmão dito que iria dar os parabéns ao cozinheiro (que é vizinho dele) que tinha escrito a receita.


Acontece que por causa de uma ocasião social decidi-me a fazer um doce de que gosto e que uma das minhas irmãs faz muito bem, e portanto pedi-lhe a receita.


Como não se fazem experiências com convidados, fui experimentando a receita e, para escândalo da minha irmã, mudando umas coisas (a receita até é fácil, mas a diferença entre ficar uma coisa banal e comestível, ficar uma coisa boa, ou ficar uma coisa óptima, no caso, é sobretudo uma questão de técnica de execução da receita, as variações na receita são meras adaptações a gostos particulares).


Como é um doce com mais gemas que claras, à conta das várias experiências fiquei com algumas claras.


Como farófias, suspiros, merengues, pavlovas e afins é coisa que não me assiste muito (como, porque sou bem educado, se tiver de ser), uso mais as claras para outras coisas, nomeadamente bolo de prata, o bolo preferido do meu pai, cuja receita sei mais ou menos de cor mas, pelo sim, pelo não, vou sempre confirmar na Isalita (por boas razões, tenho alguma tendência para trocar o peso do açucar com o da farinha, neste bolo).


Quando guardei o livro, porque a minha mulher tinha falado de saladas e o livro ao lado da Isalita é um livro que raramente abro, espanhol com receitas de saladas, tirei o livro e disse-lhe para ver se tinha alguma coisa que lhe interessasse para o que queria.


Qual não é nosso espanto quando a tal salada que vinha no Expresso aparece no livro (com pequenas alterações, claro).


Significa que quando decidi fazer a receita que pedi à minha irmã e a mudei, ou quando o cozinheiro que publica uma receita por semana do Expresso usa uma receita clássica com algumas alterações, alguém se apropriou do trabalho de outras pessoas?


Penso que toda a gente achará essa ideia um completo disparate.


Pois bem, o PS, que sempre se recusou a assumir qualquer responsabilidade na política de austeridade executada (e bem) por Passos Coelho, decidiu agora que era boa ideia dizer que tudo o que os outros fazem depois do PS ter passado por qualquer autarquia é apropriação do trabalho do PS (uma evolução do famoso "o dinheiro é do peiesse" de Elisa Ferreira).


Nem é preciso falar das obras de Santa Engrácia, que duraram 284 anos, para ilustrar a estupidez de dizer que alguém que executa obras previstas, preparadas ou lançadas antes de si se apropria do trabalho das pessoas que o precederam.


Pois bem, um jornalista da Sábado qualquer resolveu ir "investigar" as obras executadas no mandato de Moedas para avaliar se o PS tinha razão em dizer que tudo o que Moedas fez foi apropriar-se do trabalho do PS, concluindo que sim, que tudo o que Moedas fez foi executar obras que eram do PS.


Para fechar o ciclo e dar um bocadinho de credibilidade a esta patetice, dois dos mais ubíquos publicistas da esquerda estatista não partidária (pelo menos é o que dizem, nesta coisa do não partidário), Susana Peralta e Pedro Adão e Silva, fazem umas grandes intervenções dizendo que até uma investigação independente demonstra que Moedas não fez mais que apropriar-se do trabalho do PS na câmara de Lisboa.


O assunto não vale um chavo, vale tanto como virem-me acusar de me apropriar do trabalho da minha irmã porque executei (com alterações e menos técnica) uma receita que foi ela que recolheu.


Depois queixem-se de que a vida está difícil para os jornalistas: quando uma profissão deixa de ter utilidade social, de maneira geral, desaparece.

12 comentários:

  1. Com blogs, youtube e podcasts   o jornalismo tornou-se redundante.

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  2. Pessoalmente consideraria um elogio (e também  um sinal de que alguém estava a ficar maluco) ser copiado ou de alguma forma inspirar a ação de outrem. 


    Picar-se por questões de autoria é de uma tão misera pequenez que faz pena; quero lá saber se o Homero ou o Luizinho Vaz copiaram alguém ? Aliás por esses gloriosos tempos era o que menos importava.


    Mas vindo de heróis que pavoneiam a sua esclarecida importância, nos médias da paróquia é um triste sinal da choldra e dos tempos.

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  3. Excelente texto, mais um, e excelente analogia. É por estas que os blogs estão em ascensão e os jornais em queda.

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  4. A Peralta é do Livre e o Adão do PS. 
    O resto são cortinas de fumo.

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  5. Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira 

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  6. Susana Peralta não acusou ninguém de se "apropriar". Acusou, sim, Carlos Moedas de apresentar como sendo da sua inteira responsabilidade trabalho que já fôra planeado por vereações anteriores.

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  7. Bom dia Henrique Pereira dos Santos
    Respeitosamente assino por baixo.
    O seu texto recorda-me os Açores (2004/ 2006) e os anos de governação Carlos César.
    Dizia-me nesse tempo um bom amigo açoriano, que Carlos César tinha vários méritos, e muitos defeitos, como todos nós, mas uma das coisas que ele fez assim que ganhou as eleições foi olhar para todas as obras e projectos que estavam planeados por Mota Amaral, e colocou tudo a andar.
    Neste caso certamente que os peiesses não diriam/ dirão que César se apropriou do trabalho inicial e planeamento de Mota Amaral.
    Boa semana, saúde e boa sorte.
    António Cabral 

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  8. Eu ouvi Susana Peralta, sei exactamente o que disse e o que pretendeu dizer que, aliás, não é muito diferente do que diz no seu comentário, que é igual ao que eu digo no post.
    O simples facto de sentir necessidade de fazer notar eventuais nuances irrelevantes é uma boa demonstração do que está escrito no post.

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  9. É perfeitamente visível o que ela quis dizer, não há espaços para interpretação. Nem vale a pena entrar em pormenores para defender o indefensável 

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  10. Eu também ouvi Susana Peralta, na Rádio Observador. E o que ela disse foi que Carlos Moedas apresentou obras da Câmara de Lisboa, que foram recentemente concluídas, como se elas fossem obras da atual vereação. Quando a verdade é que se trata de obras planeadas durante vereações anteriores e que agora foram concluídas.
    Não se trata de nuances irrelevantes. Trata-se de apresentar factos verdadeiros (a Câmara de Lisboa construiu n creches e m centros de saúde) dando a impressão --- falsa --- de que o mérito dessas obras é totalmente da atual vereação.
    (Vereação que, aliás, vai toda ser despedida - num um só dos atuais vereadores está na nova lista de Moedas.)

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  11. Exacto, foi o que disse com base no artigo da Sábado, pretendendo e dizendo que Moedas assumiu responsabilidades pelo trabalho da câmara anterior (de resto, foi tão clara que Luis Aguiar-Conraria aproveitou para dizer uma excelente piada, dizendo que não era verdade que ele não atribuísse responsabilidades às câmaras anteriores, como se viu no acidente do elevador da Glória, uma excelente piada, embora substancialmente falsa por Moedas não atribuiu responsabilidades a presidências anteriores pelo desastre do elevador da glória).
    Se está a dizer o mesmo que está no post, para que insiste que está a dizer uma coisa diferente?

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  12. Carlitos, pá! Então já andas atrás do anonimato?? Já passou a fase valentona do peito aberto???

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