
O boneco acima foi-me mandado ontem, e sobprepõe a previsão de humidade atmosférica na noite que passou (de ontem para hoje), com os fogos activos em grande parte da Península Ibérica.
A mensagem era uma mensagem moderadamente optimista de quem sabe que a entrada de ar húmido é uma grande esperança para uma evolução favorável do combate ao fogo.
O que me chamou a atenção, no entanto, foi a excelente ilustração da localização geográfica dos fogos, uma questão que há anos me levou a fazer uns textos sobre a relação entre meteorologia e concentração de fogos.
A ideia de que arde em Portugal por causa do minifúndio, de não se saberem quem são os donos do terreno, do direito sucessório, a organização do combate e mais umas quantas idiossincrasias administrativas portuguesas e outras menos administrativas, como a grande presença de eucaliptal, tem um problema: a menos que esses factores portugueses sejam tão poderosos que afectem a Bulgária ou o Canadá, aparentemente, outros factores estão em causa na gestão do fogo.
Há, de facto, questões de geografia, ou de natureza, como se lhe queira chamar, e é isso que o boneco acima ilustra, o que arde na Península é sobretudo a faixa Noroeste acima do Tejo, por razões relacionadas com uma elevada produtividade primária, condições para uns quantos dias meteorologicamente muito favoráveis ao desenvolvimento do fogo e escassez de solo agrícola susceptível de suportar agricultura intensiva em larga escala.
Esta é a especificidade portuguesa e galega que justifica que haja mais fogos nesta parte do mundo.
Depois há um processo social transversal, que é o abandono ou diminuição da intensidade de gestão da grande parte do mundo rural em que não entra a produção intensiva.
Esse é um processo transversal em todo o mundo desenvolvido que faz com que arda em todo o mundo rural em que se verifica diminuição da intensidade de gestão, embora em menos anos por causa da tal especificidade geográfica do Noroeste Peninsular.
Claro que prender incendiários ou demitir ministros, governos, autarcas, comandantes de bombeiros, chefes de oficina ou empregados de café vai dar no mesmo, isto é, em nada, para se conseguir ir tendo uma gestão mais sensata do fogo.
O ideal é não prender ninguém. Aliás, bom, bom, era premiar os incendiários.
ResponderEliminarNo fundo, eu"tudo" uma questão económica: se houver rendibilidade, haverá gente a trabalhar aquele espaço, logo estas cenas maradas tendem a diminuir, não a acabar porque a incúria e os maluquinhos continuarão a existir.
Será uma inevitabilidade do progresso e do clima, ou então a solução é possível e anda tudo distraído
ResponderEliminarLi atentamente o texto e confesso que não consegui compreender bem aonde é que o autor pretende chegar e tampouco à relação com os fogos na Bulgária e no Canadá. Não sou das pessoas mais entendidas no assunto mas se alguém me pudesse esclarecer, agradeceria.
ResponderEliminarArde em qualquer lado onde haja combustível e baixa humidade.
ResponderEliminarSem dúvida, concordo, mas isso é uma mera constatação do óbvio e eu duvido que o nosso anfitrião tenha perdido tempo a escrever tanto para dizer apenas isso. O que não faltam são incêndios que começam em condições de elevado índice de humidade, como alguns que teimam em desencadear-se durante a madrugada, sejam por razões naturais ou não. Ora sabemos que para haver combustão, têm de haver três factores básicos: combustível, comburente e fonte de ignição. O combustível, chatice das chatices, é necessário à vida. Quanto maior a concentração de vegetação, em particular de plantas superiores, maior é a retenção de água e, por consequência, a humidade no ar. Logo, menor será a probabilidade de ocorrer um incêndio. Não é assim tão linear mas serve para o efeito explicativo. Este combustível pode é ser gerido. Mas digo gerido, não é isto a que se tem assistido com o Síndrome de Pedrógão: a obrigatoriedade da limpeza dos terrenos tem causado verdadeiros atentados ambientais, com desflorestações impressionantes, bem como querelas irracionais entre vizinhos. Urge rectificar esta norma que pouco sentido faz. O mesmo no que se refere aos impedimentos da divisão das propriedades, aquela história absurda do "redimensionamento do minifúndio", que só tem conduzido à indivisibilidade das heranças e consequente abandono dos terrenos. Gerir também não é queimar de forma prévia, como já tenho visto sugerirem neste blog, o que, aliás, é um disparate e só pode vir de quem não conhece a realidade. Uma pequena queima é possível com controlo mas nunca uma queimada, ainda que com cuidados, e é sempre arriscado, poluente e contraproducente. Com o comburente, nada a fazer, pois precisamos dele para respirar e sobreviver e não o podemos controlar. A fonte de ignição é que é a chave da questão. Sabemos todos que um depósito de gasolina, por exemplo, é seguro desde que não haja nenhuma fonte de ignição por perto. O mesmo é com a floresta. Limitando os motivos que levam a comportamentos negligentes e criminais, valorizando o campo, como se ele por si só não valesse, prevenindo os acidentes, combatendo a cultura do fogo que parece haver entre nós, educando jovens e adultos e punindo severamente os incendiários e seus mandantes poder-se-ia reduzir o número de incêndios de forma considerável. O que se tem feito desde a década de 70 ou 80 é uma piada de mau gosto. Deixo para o fim um dado. Nas malhadas de gado dos meus há muito falecidos avós há marcas de fumo e fogo nas paredes porque fazia-se lume ali, junto aos animais e ao pé de pilhas de palha, para eles e quem os guardava. Quantas vezes as casas arderam? Nenhuma. É que de nada serve a gestão dos combustíveis se não se controlar a fonte de ignição.
ResponderEliminarE já agora, continuo sem perceber a relação nesta matéria de Portugal com a Bulgária ou o Canadá.
ResponderEliminarNão resisto a partilhar convosco uma história. Conheço quem tomou parte de uma equipa que foi à Alemanha tentar "vender" um modelo de floresta e sua gestão bem como de serviços florestais às autoridades daquele país. Os responsáveis destas riram-se da delegação portuguesa e perguntaram porque é que estavam propôr-lhes tal coisa, uma vez que nós é que tínhamos incêndios, eles não, para além de considerarem que floresta era o que havia por lá, ao lado invés dos "pomares de pinheiro e eucalipto" que diziam imperar em Portugal. De seguida, foram mostrar aos enviados portugueses como era a floresta e como se organizavam e funcionavam os serviços florestais alemães. Os portugueses regressaram ao nosso país com o rabo entre as pernas, envergonhados por terem ido sugerir algo básico a quem estava muito à frente no entendimento, cuidado e gestão da floresta.
ResponderEliminarPosto isto, interrogo-me quanto ao seguinte. Interrogo-me sem ser irónico, é mesmo porque não compreendo e pode ser que alguém mo saiba explicar, senão mesmo o Senhor Henrique Pereira dos Santos, que decerto conhece bem mais do que eu. Sabendo que a área e densidade florestal da Alemanha é, de bem longe, superior à de Portugal e que as declarações de ausência de fogos não seriam apenas basófia dos responsáveis germânicos, da mesma maneira que não percebo porque arde na Bulgária (se calhar pelas mesmas razões que em Portugal) porque será que não arde na Alemanha? É que a presença de combustível não é condição obrigatória para que haja combustão.
A história é evidentemente uma invenção porque qualquer pessoa que tenha um mínimo dos mínimos de conhecimento sobre a história institucional dos serviços florestais sabe que o modelo de silvivultura em Portugal (já agora, também nos EUA, por exemplo), foi directamente importado da Alemanha, por silvicultores portugueses que foram estudar para a Alemanha.
ResponderEliminarDito isto, perguntar por que razão a Alemanha não produz bananas como um país muito mais atrasado, como a Colômbia, não me parece uma pergunta muito relevante.
Caro senhor.
ResponderEliminarA idade e a experiência de vida levam-me a ser prudente e não emitir conclusões precipitadas. Digo isto a propósito da impossibilidade de humano algum poder saber de tudo o que acontece. Isto sim é evidente.
Naturalmente, não posso garantir que a história é verdadeira ou não porque eu não estava lá para ver. Garanto sim é tanto o maravilhamento quanto o embaraço de quem ma contou, o que, por si só, já me parece suficiente para lhe dar crédito. Podia pedir a quem tomou parte na apresentação que esclarecesse directamente Vossa Senhoria, não fosse o facto de a quem me refiro, que então trabalhava para o Ministério da Agricultura, já ter falecido. Contudo, esteve lá e assistiu um filho seu, então jovem, que pode confirmar o que eu disse. Hoje é meu cunhado e tenho nele absoluta confiança. Não sei contar detalhes, só conversámos por alto sobre isto uma vez também aquando duns incêndios. Ter-se-á passado conforme contei, se assim tiver acontecido, que foi como me contaram. Feita a exposição, um dos responsáveis alemães disse algo deste género, mais ou menos:
- Porque é que nos estais a mostrar isso? Isso é bom mas faz falta a vós, não a nós. Vós é que tendes incêndios, nós cá não. Nós na Alemanha é que temos florestas. Vós em Portugal não tendes florestas, tendes pomares de eucaliptos e pinheiros.
De seguida, terão convidado os portugueses a uma visita guiada.
É comum, penso eu, entidades de vários países, em particular os membros da União Europeia, trocarem experiências, modelos e ideias entre si. Como tal, não duvido do eventualmente ocorrido. Note bem que, como disse e sabe muito melhor que eu, o modelo de silvicultura que temos é o modelo alemão, embora eu guarde reservas nisso, tal como há uns vinte anos o de gestão dos caminhos-de-ferro, por exemplo, era o inglês. Ora das duas uma: sendo isto factual, ou nós não soubemos aplicar o modelo ou este não se adequava à nossa realidade, como é comum. É que, olhando para ambas as realidades, depressa constatamos que o resultado é bastante distinto. Quem nos garante que, a dada instância, não terão sido portugueses a dar sugestões a alemães? O que não faltam são aprendizes a darem ideias a mestres, se é que me faço entender. Mas eu compreendo o seu ponto de vista. Às vezes, com o passar do tempo, vamo-nos arreigando a ideias fixas. Vejo-o, por mim, que continuo a considerar Plutão um planeta principal ou a considerar o novo Acordo Ortográfico gramaticalmente errado, por exemplo, por muito que, seja em que matéria for, eu tente manter uma mente aberta, ainda que crítica. Estarei errado?
Dito isto, agradeço a atenção e a inesperada resposta, ainda que tenham ficado por esclarecer quer as minhas dúvidas quer a questão das bananas, que eu nem sequer coloquei e nem sei porque é que veio à baila. Por favor, não deixe de publicar artigos. Aproveito para dar os parabéns ao blog. Ainda bem que mo sugeriram, há largos anos que não me animava tanto com um. Cá estarei quando puder.
Cumprimentos.