segunda-feira, 18 de agosto de 2025

A propósito de séries policiais britânicas

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Gosto muito de séries policiais britânicas. Dentro do género encontram-se verdadeiras pérolas, sofisticadas histórias hoje contadas com técnicas aprimoradas de realização e suspense com actores muito bons, que nos lembram pessoas normais e não os modelos “artificiais” que quase sempre nos oferecem as congéneres americanas. Claro que estas séries, mesmo quando baseadas na literatura clássica do crime, reflectem o ar do tempo; de uma certa forma espelham a realidade sociocultural da contemporaneidade. Essas liberdades criativas, quanto a mim ameaçam a qualidade do produto, tornando-o mais com uma bandeira de um activismo qualquer, uma manifestação das virtudes e moralidade contemporâneas. Dir-me-ão que isso em cada época sempre assim foi, e é inevitável. Eu tenderia a concordar, se não fosse aquilo que me parece um exagero crescente, de fazer reflectir em quase toda a produção, até num mistério de Agatha Christie, toda a tralha de preconceitos e lugares-comuns às novas gerações, dispostos em democraticas quotas. 


Mas o que me vem saltando aos olhos, há já algum tempo, é o retrato sociocultural da normalidade vigente nas grandes cidades britânicas – uma premonição daquilo que também chegará a este jardim à beira-mar plantado. Acontece que a velha caricatura do indígena, no caso do “bife”, aquela personagem pálida, de bochechas rosadas e gravata de fantasia histriónica, submerge perante a multiculturalidade, do mosaico de etnias que compõe por estes dias a paisagem urbana do reino de Sua Majestade. No seu lugar, entre figurantes e personagens principais ou secundários, encontram-se latino-americanos, africanos, muçulmanos, uma profusão de etnias, que curiosamente assumem um sotaque de inglês não convencional, um calão propositadamente carregado, seja de Manchester, seja de Newcastle ou duma região qualquer da Escócia. Assim como o modelo da família natural, o chamado "inglês BBC" caiu em desuso, suspeito que seja hoje malvisto, favorecem-se os regionalismos, o calão e os palavrões insistentemente repetidos capazes de fazer corar um tripeiro… Reflexo destes nossos tempos, as séries espelham a preponderância de lares monoparentais, pessoas sós e sem família, a normalização das plataformas de encontros, enfim, a representação porventura “martelada” dos temas fracturantes em voga, das chamadas minorias e múltiplas identidades sexuais, já para não falar das relações homossexuais cada vez mais explicitas, cenas a que não consigo assistir sem bastante incómodo.


Insisto: os britânicos são mestres a realizar séries policiais, mesmo quando nos revelam a sua estranha e decadente realidade. Uma das últimas que segui com agrado foi Vera, passada na enregelada região de Newcastle, protagonizado por uma solteirona de meia-idade, DCI Vera Stanhope. Dir-me-ão que a realidade sociocultural dos britânicos é bem mais prosaica do que os clichés da moda apresentados com os naturais exageros. Acredito, mas parece-me que os sinais de ruína dos valores tradicionais exibidos são claras marcas de uma sociedade profundamente fragmentada. Uma nação deslaçada pelo individualismo.


Porventura não escapará aos mais atentos, o símbolo que permanece e sob o qual trabalham os personagens destes dramas policiais: o monograma real de Sua Majestade o Rei Carlos III, encimado pela coroa real. Será que ela ainda inspira alguma coisa os britânicos?

9 comentários:

  1. Enoch Powell previu-o com toda a clareza.
    Ah! Se os Argentinos não tivessem subestimado a Baronesa e tivessem tido um pouco de "paciência histórica"...
    Mas confesso a minha perplexidade perante a acelerada decomposição ( é a palavra, não há outra ) , " à francesa", da sociedade britânica ( estive lá  uma meia dúzia de vezes , em serviço , décadas 80  e 90 ).


    Juromenha

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  2. Recomendo a leitura do livro "Contra a Corrente" de Roger Scruton, especialmente o capítulo sobre o legado de Tony Blair.
    Também recomendo o livro "Londonistão" de Melanie Phillips.


    Tony Blair e o próprio Rei Carlos (aliás, toda a casa real britânica) são dois dos maiores traidores da actualidade.

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  3. Adorei Dept Q


    Um escocês, um sírio, uma chefe (também tem um aleijado e uma que sofre de ansiedade), baseado num livro escandinavo.

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  4. Também gostei, apesar de palavrões a mais

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  5. Fantoches dos mestres (do "grão") que se escondem nos clubes internacionais e nas catacumbas das lojas do square and compass. No Reino Unido claro, mas igualmente (com as devidas nuances de país para país, monárquico ou repúblicano) por toda a Europa ocidental. Mas não acreditem nisto pois é tudo teoria da conspiração, continuem portanto a ver e ouvir os telejornais.

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  6. Fword é usada e abusada
    Sei que todos largam um f de quando em vez e que ninguém diz "que maçada" (como acontecia nas novelas portugas) quando entala o dedo na porta, mas há limites
    Um exemplo é a nova versão do Mentes Criminosas (guilty pleasure), em que largam mais efes e sheets que num jogo no Dragão 

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  7. As séries policias perderam toda a piada, agora é simples usar um peneira woke para descobrir o culpado.


    Criminoso sem humanidade, "evil": branco
    Criminoso sexual: branco
    Criminosos comuns: todas as cores, mas são pessoas vitimas ds circunstâncias, não há maldade na maior parte dos casos.

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  8. «Vera»! Boa escolha, sou fã. E também não perdia a magistral série «Endeavour».

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