Como acontece sempre que se fala de gestão florestal, há um grande e persistente (tão persistente que há 200 anos que repetem argumentos no mesmo sentido, que vão sendo passados de pais para filhos) número de pessoas que explicam que estabelecendo as condições ideias, com coragem e determinação, a gestão das terras marginais, em Portugal, nos levará ao Paraíso.
De maneira que andamos sempre nisto, a torrar recursos dos contribuintes no estabelecimento de condições ideais para garantir a rentabilidade das operações de gestão que nos garantem paisagens equilibradas, empresas saudáveis e pessoas felizes, em vez de fazer o que parece mais simples: compreender o problema, reconhecer que os preços internacionais de alguns produtos não são compatíveis com os custos operacionais da gestão que os produz e que, portanto, ou alinhamos os incentivos que os contribuintes querem gastar para obter um determinado resultado com a economia que existe, ou deixamos as coisas ao Deus dará (E se Deus não dá/ Como é que vai ficar, ô nega?).
Uma das coisas que mais atenção merecem, quando começamos a desenhar o amanhã que vai cantar, são os problemas de propriedade, considerados condição sine qua non, para se atingir o nirvana da rentabilidade florestal que nos vai safar do fogo do Inferno.
Tal como é possível encontrar pessoas altamente qualificadas a defender que é possível gerir, rentavelmente, as paisagens dos xistos centrais instalando montados que substituam o mar de matos e sucata florestal que os caracteriza actualmente (com ilhas de produção de eucalipto rentável aqui e ali), esquecendo-se de que os montados são o resultado (lento, demorado) de um modelo de produção de cereais e porco de montanheira difícil de reproduzir nas serras do Centro de Portugal, desde que se queira e invista (os contribuintes) muito nisso, também há quem assegure que resolvendo as questões de propriedade, se resolvem as dificuldades de gestão associadas aos actuais preços mundiais do que seria possível produzir e às exigências de nível de vida que as pessoas fazem a si próprias.
Ontem falei de Cecília Meireles, que não conheço, hoje falo de Carlos Guimarães Pinto, com quem tenho facilidade de contacto, o que me permitiu perceber que a sua ideia não é exactamente a que eu ouvi (e ele disse, na verdade terá posto demasiada ênfase na questão do cadastro que a que seria adequada ao que realmente pensa) e é dele esta frase da conversa que tivemos (reproduzo com a sua autorização, claro) "Se descobrissem ouro nas florestas, até havia filas à porta dos notários".
É exactamente isto, o problema é não se conseguir criar riqueza suficiente para remunerar a gestão, face às alternativas de que os proprietários dispõem para empregar o seu trabalho e o seu capital e, por isso, racionalmente, abandonam o activo quando passa a passivo, o que, com o tempo e a transversalidade do problema, leva à situação actual de perda de controlo social do território, por inutilidade superveniente de ser proprietário de uma coisa que não vale nada.
Andar a insistir que o que é preciso é rapidamente atribuir propriedade a donos (a Montis está agora com um problema tremendo numa propriedade perfeitamente registada que os vizinhos dizem que não é no sítio em que diziam que é e que, no eBUPI, tem vários proprietários sobrepostos, demonstrando os riscos de andar a brincar aos registos de propriedade, quando a lei já prevê a usocapião para situações em que ninguém reclama a propriedade de qualquer terreno) é, como dizia o Sérgio Godinho, estar à espera do comboio na paragem do autocarro.
ResponderEliminarinsistir que o que é preciso é rapidamente atribuir propriedade a donos
Sendo que, dados os encargos que o Estado insiste em fazer recair sobre os proprietários, tornando a propriedade não só pouco rentável como de facto onerosa, muitos proprietários preferirão, racionalmente, não declarar ser donos daquilo de que são.
Exemplo claro disto é a lei celerada de António Costa que obriga os proprietários de terrenos rústicos a manter limpos os seus terrenos quando na sua vizihança imediata se situe um terreno edificado, desta forma transferindo para os proprietários rústicos os custos decorrentes de um edifício urbano que não lhes pertence e sobre cuja edificação não tiveram palavra a dizer.
ResponderEliminarPost muito esclarecedor.
Sem ser diretamente relacionado com ele:
Ouvi há poucos dias na rádio uma notícia segundo a qual arderam em 2025 até hoje cerca de 400 mil hectares em Espanha, estando a maioria desta área ardida concentrada na Galiza.
Ou seja: apesar de Espanha ter 4 vezes a área de Portugal, a área ardida lá é (em 2025 até agora) somente 1,5 vezes a área ardida em Portugal. Porquê? Porque em Espanha quase só há grandes fogos na Galiza, a qual tem mais ou menos a mesma área que Portugal a norte do Tejo, ou seja, que a parte de Portugal que arde.
Bate tudo certo: o problema dos incêndios em Portugal tem caraterísticas locais, perfeitamente compartilhadas com a Galiza.
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ResponderEliminarEnquanto se continuar a alimentar estas fantasias, de fingir que é aquilo que não é, em vez de olhar para as coisas como elas realmente são, muitos problemas (seja de mobilidade, seja de gestão do território, seja de tantas outras coisas) vão continuar por resolver.
ResponderEliminara ideia de que o comboio no ramal da Lousã continua a existir
Suponho que no antigo ramal da Lousã cada comboio transportasse, no máximo, umas 30 ou 40 pessoas.
Ora, para transportar esse número de pessoas um metro ligeiro, seja com motor elétrico ou com motor de combustão interna, similar ao Metro do Porto, é uma opção muito mais racional do que um comboio.
É isso, creio, que o Metrobus é: uma opção muito mais racional para transportar o (relativamente) pequeno número de pessoas que utilizavam o ramal da Lousã.
O Metrobus é similar aos comboios ligeiros de superfície que efetuam o transporte público em todas as cidades alemãs (e de muitas cidades dos países de leste) - coisas muito mais cómodas e eficientes do que o metropolitano ou os autocarros de Lisboa, por exemplo.
Mas talvez eu esteja errado.
Em tempos numa aldeia transmontana, alto douro, a discussão era que tudo muito bom. Retorqui com a afirmação - Então porque é que não há pessoas?
ResponderEliminarNote que a minha crítica não é ao Metrobus, admito perfeitamente que dada a orografia e a demografia seja a solução mais vantajosa. O que eu critico é estar-se a torrar uma data de dinheiro com o objectivo de fingir que continua a haver comboio.
ResponderEliminarRepare:
- usa exactamente o mesmo percurso da antiga ferrovia
- segue por um canal dedicado
- os veículos têm as rodas tapadas
Para quê tudo isto? Se a ideia é pôr autocarros, então que se opte por uma solução barata e eficiente, em vez de estar a fazer opções mais caras só a bem da imagem.
Aliás ao longo dos últimos meses houve um serviço rodoviário de substituição, vamos ver se o novo Metrobus traz alguma coisa acrescentada a esse serviço.
Não chateie Portugal (Lisboa) com assuntos de província.
ResponderEliminarO metro, semelhante ao de Almada, leva 30 anos de atraso, mas que interessa isso... pelo menos nunca vi falado quando se fala de transportes públicos em "Portugal ". Mas o pior foi mesmo fecharem a ligação ferroviária ao centro da cidade. Mais um golpe de génio.
Pois, está errado.
ResponderEliminarA velhinha automotora levava mais gente e mais rápido que estes autobuses
Não esquecer que quem faz o percurso diário, fá-lo para ir Trabalhar , não para ir ver paisagem em passeio turístico
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ResponderEliminarSeguir por um canal dedicado faz parte da eficiência destes meios de transporte. Vá a uma cidade alemã (ou ao Porto) e vê o mesmo: comboios ligeiros a circular em canais dedicados. O facto de o canal ser dedicado significa que os veículos circulam a velocidade constante e previsível - ao contrário de, por exemplo, os autocarros lisboetas.
ResponderEliminarO facto de o canal ser o mesmo do antigo comboio poupa dinheiro - evita ter que expropriar terras para construir um novo canal.
(Mas isto não significa que eu esteja a elogiar o Metrobus conimbricense, que não conheço com um mínimo de detalhe.)
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ResponderEliminarCaro Henrique,
Eu compreendo as suas críticas e concordo consigo que primeiro vem o valor, só depois a necessidade do conceito de propriedade.
Mas quando você propõe pagar pela limpeza dos terrenos, não é condição necessária para a proposta funcionar que os terrenos tenham um dono identificado ? Senão, o dinheiro da limpeza é pago a quem ?
ResponderEliminar(por erro o meu comentário anterior acho que foi enviado sem identificação, por isso volto a re-enviar)
Caro Henrique,
Eu concordo consigo no que respeita à propriedade. Primeiro as coisas têm valor, só depois aparece o conceito de propriedade.
Mas tentando operacionalizar a sua proposta (o Estado pagar a limpeza dos terrenos), esbarro logo no problema da propriedade dos terrenos a limpar. Como é que o Estado paga a limpeza, se não sabe a quem pagar ?
Não percebo a pergunta. Se a proposta é que se pague a quem já fez e demonstre que fez, esse problema não existe
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ResponderEliminarO que entendi é que você propõe que o Estado subsidie a limpeza dos terrenos florestais aos respectivos proprietários. Sendo o valor a pagar determinado em leilão.
Mas se calhar estou a complicar. O Estado pode pagar apenas a associações de proprietários, que depois dividem o dinheiro entre eles como bem entenderem.
Se o dono não se preocupa com o seu terreno para reclamar os seus direitos de propriedade, por que razão deve o Estado preocupar-se com isso?
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