A propósito do meu post em que usava a resinagem para demonstrar o efeito prático da proposta de pagar, parcialmente, a gestão de combustíveis finos, mandaram-me um bocadinho de informação geral sobre o sector.
"Esse valor podia ser utilizado para contratar mais pessoas, ou em alternativa para remunerar melhor os que já existem, ou ainda para poder tornar o preço da resina mais competitivo para a indústria, ou seja, atualmente as fábricas conseguem ter à sua porta resina do Brasil a cerca de 900€/tonelada, têm feito um esforço grande para manter o pagamento em Portugal a 1300€ de forma a permitir que os resineiros tenham alguma rentabilidade, abaixo disso é impossível."
O que me interessa neste comentário é o reforço da ideia de que é o agente económico que faz o que entende em função do contexto em que actua, em princípio isso é bastante mais eficaz que os modelos de base estatal em que o Estado determina que o ideal é isto ou aquilo e estabelece uma regra geral que nem sempre corresponde à prioridade do negócio.
"Atualmente, a produção nacional abastece em apenas cerca de 8% a nossa indústria, tudo o resto tem que vir do exterior. Isto poderia permitir que houvesse um impacto positivo na cadeia e um maior abastecimento de proximidade".
Neste comentário está implícito um efeito marginal positivo do aumento de competitividade que consiste numa maior criação de riqueza e emprego em zonas que estão desesperadas por manter alguma actividade económica (quase todas se voltam para o turismo, uma actividade que, em relação à paisagem, é puramente extractiva, não cria gestão e que este governo resolveu privilegiar nos apoios pós fogo, criando incentivos errados para a gestão do fogo, por razões que me escapam).
"Se pensarmos na realidade atual, cerca de 400 resineiros, cerca de 20 mil ha resinados, falamos dum orçamento de cerca de 2 M€".
Ora aqui está, no sector da resina, a proposta que tenho feito representaria uma base de dois milhões de euros anuais, se não tivesse outro efeito que o de pagar parcialmente o serviço de gestão do fogo, mas faz sentido admitir que seria mais se tivesse o efeito que se pretende, que é o de expandir a actividade de resinagem (isto é válido para todos os outros sectores).
Comparando com os 500 mihões anuais que se gastam com o Sistema de Gestão de Incêndios Rurais, não parece muito, mas o que me interessa é fazer notar que esses dois milhões são incentivos alinhados com o mercado para a criação de riqueza e a gestão do fogo e boa parte dos 500 milhões do SGIF é pura destruição de valor, como acontece quando se andam a passear aviões e helicópteros por cima de fogos, a fazer descargas inúteis (não estou a dizer que o uso sensato de aviões e helicópteros, com forte articulação com o combate no solo, são inúteis, bem pelo contrário, estou a dizer que muitas vezes não é isso que acontece), cujo custo se pode ver pela resposta do ChatGPT sobre o custo dessas descargas.

Infelizmente, o Governo, em vez de discutir a gestão de fogos seriamente, está focado em distribuir apoios de forma indiscriminada, com linhas de apoio ao turismo (ao turismo, senhores? aquele sector que vive da paisagem mas não gasta um tostão na sua gestão?), substituindo-se às seguradoras (para que raio alguém contrata um seguro se o Estado, sem nenhuma formalidade, desata a pagar prejuízos e a fazer linhas de apoio para perda de actividade de sectores que não mexem uma palha para garantir a qualidade do recurso do qual vivem?) e outras coisas, enquanto vai, com certeza, a Fátima acender umas velinhas pedindo que o ano catastrófico que estamos a preparar seja já depois das próximas eleições.
Valha-nos São Pedro, que é quem parece que comanda a meteorologia, que a qualidade do debate público que por cá existe, incluindo um jornalismo como o deste exemplo, não nos dá garantias nenhumas.
Sem desdourar o que o Henrique escreve, eu faria notar que 20 mil hectares resinados é uma gota no oceano de floresta (e matos) que Portugal tem.
ResponderEliminarOu seja, estaria a promover-se a gestão da paisagem, é certo - mas somente de uma parcela mínima dela.
20 mil hectares são 200 quilómetros quadrados - de ordem de 0,2% do território do Continente português.
Nunca perceberei este tipo de comentários completamente absurdos. Se explicitamente se está a usar um exemplo, se explicitamente se explica que é uma sector com uma representatividade mínima, para que serve um comentário que se limita a repetir exactamente o mesmo, em vez de discutir os efeitos globais da proposta?
ResponderEliminarOs brasileiros fazem a 900 e nós a 1300 por caridade. Tem que heaver algum processo automatizado a funcionar no Brasil, só o transporte, meu Deus.
ResponderEliminarExperimente produzir bananas mais baratas em Portugal que no Brasil, e experimente produzir cortiça mais barata no Brasil que em Portugal, e penso que rapidamente chega à conclusão de que as coisas não são assim tão simples.
ResponderEliminarPorque gosto de ler, deixo um contributo. Ao contrário do ChatGPT, fui consultar contratos reais do DECIR para este ano (e seguintes, pois na maioria são contratos plurianuais) e relativos às tipologias de aeronaves contratadas em Portugal, e encontrei os seguintes preços unitários de hora de voo (HV):
ResponderEliminarAvião anfíbio pesado, Canadair, HV = 5.925 EUR
Avião anfíbio médio, Fire Boss, HV = 700 EUR
Helicóptero pesado, Kamov, HV = 2.541 EUR
Helicóptero ligeiro, Airbus AS350, HV = 1.120 EUR
A isto terá de se acrescer a componente de disponibilidade diária, pois o preço do meio aéreo é composto por essas duas parcelas.