terça-feira, 8 de julho de 2025

O lobo e o custo de oportunidade

Para além de João Adrião, devo ser dos únicos conservacionistas que gostam de discutir conservação da natureza procurando um ponto de vista liberal.


Está hoje em todo o lado um conjunto de notícias sobre o programa alcateia, um programa de cinco milhões de euros para apoiar a conservação do lobo ibérico.


Não vou discutir o fundamentos do programa (é mentira que o lobo esteja em declínio em Portugal), nem a natureza das medidas adoptadas (aumentar o valor de um indemnização por prejuízos que existe há dezenas de anos sem nunca ter sido avaliada a eficácia da medida, é o tipo de medidas que não estou interessado em discutir).


O que me interessa é a seguinte questão: o que poderíamos fazer melhor com cinco milhões de euros, em matéria de conservação da natureza? Dito em jargão economês, qual é o custo de oportunidade desta opção?


Para mim, a resposta é facílima: pagar directamente aos produtores que existem uma parte dos benefícios sociais que resultam dessa gestão, como forma de reforçar a competitividade destes produtores e, por essa via, aumentar a área gerida e a qualidade dessa gestão, é incomparavelmente melhor que andar a desbaratar dinheiro que acabará nos que gerem melhor as candidaturas, não necessariamente o terreno.


Mas deixamos desaparecer o lobo?


O lobo, em toda a Europa, está em expansão e, mesmo aceitando a teoria do oásis que diz que a população portuguesa de lobo, que é uma sub-população definida administrativamente da população ibérica de lobo, que está em expansão, ainda assim, aceitando esta estranha lógica, a população portuguesa de lobo, mesmo nos documentos oficiais, estará, na pior das hipóteses, estável.


De resto, as medidas previstas já existem há um ror de anos e o que se está a fazer é simplesmente ir ao saco azulado do Fundo Ambiental assegurar que há dinheiro para se fazer o que sempre se fez, cujos resultados nunca foram avaliados seriamente.


Já pagar directamente aos produtores 100 euros por hectare, no caso de manterem as ervas e matos com menos de 50cm nas suas propriedades, não só é coisa que nunca se faz, como, a fazer-se, reforça largamente as transferências de dinheiro para os que gerem a nossa paisagem rural, cujo principal problema é mesmo o abandono.


Claro que começar a fazer perguntas sobre custos de oportunidade de políticas públicas de conservação da natureza é inútil, haverá poucos a ouvir a pergunta, e ainda menos a tentar perceber o que quer dizer exactamente a pergunta.

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