Tenho bastante consideração por João Miguel Tavares e pela sua independência de espírito, razão pela qual tenho estranhado a forma como tem cavalgado as suspeitas sobre Montenegro.
Hoje fez-se luz.
"como é que a partir de uma pequena cidade portuguesa, longe dos radares da capital, um jovem ambicioso foi construindo o seu caminho através das juventudes partidárias, consquistando primeiro influência local junto de políticos e empresários, depois regional, através da rede de autarquias e, finalmente, influência nacional. ... A invocação despropositada de José Sócrates por parte de Luís Montenegro foi um ataque preventivo: é melhor acusá-lo [a Pedro Nuno Santos] primeiro de ser igual ao outro, antes que me acusem a mim".
João Miguel Tavares acha que quem tem um percurso como o descrito é moralmente desqualificado e tende a reproduzir as opções de José Sócrates, confundindo comportamentos questionáveis, mas legais, com ilegalidades.
O percurso descrito é o percurso, por exemplo, de Passos Coelho, e foi aliás isso que me fez não votar no PSD em 2011 (votei contra Sócrates, mas, erradamente, a minha percepção de que Passos Coelho era um jotinha com este tipo de percurso fez-me fazer uma avaliação errada do que teria sido o melhor voto de acordo com os meus objectivos nessas eleições), tal como é o percurso de Bernardo Blanco e Paulo Raimundo ou de muitos outros.
Prefiro políticos com percursos diferentes, é certo, mas não confundo um percurso deste tipo com a questão central do percurso de Sócrates, que desde os primórdios não se limita ao descrito, começa na aprovação de projectos do colega da câmara ao lado por troca da elaboração de projectos a aprovar por esse mesmo colega, e vai seguindo, sempre em crescendo, em processos que aqui e ali aparecem no radar das investigações judiciais (mesmo quando desaparecem materialmente, como o processo de adjudicação do aterro da Cova da Beira, que supostamente ardeu num incêndio providencial).
Este tipo de percursos não são exclusivos da política, João Miguel Tavares conhecerá, com certeza, dezenas de percursos do mesmo tipo no jornalismo, como em qualquer outra actividade, tal como eu conheço na minha profissão uma enorme quantidade de gente que demonstra o princípio de Peter, à conta da construção progressiva de redes de influência.
Confundir este tipo de percursos com os poucos, dentre eles, que vão para além da lei para chegar mais depressa ou mais longe, não é um bom serviço prestado ao debate público: no longo percurso de Montenegro que se pode dizer que é paralelo ao de Sócrates, não se encontram, com a facilidade com que se encontram em Sócrates, os atropelos à lei, às regras e à decência na gestão pública, e isso distingue-os.
Não estou a discutir se os dois se distinguem por Montenegro ser mais macaco e portanto fazer as coisas de forma mais profissional e apagando melhor os traços da sua conduta ilegítima (é uma possibilidade que me parece pouco provável face ao erro infantil de não se divorciar da sua mulher antes de lhe entregar a empresa, no caso de realmente ser um malandro sofisticado) ou se por, de facto, se manter sempre dentro das regras, isso eu não sei e deixo ao sistema judicial essas discussões, o que digo é que os percursos dos dois são materialmente diferentes, a julgar pelo rasto de suspeitas judiciais que desde sempre acompanharam Sócrates.
Isso não invalida a observação, lúcida, de que Sócrates nunca se caracterizou, políticamente, por prometer tudo a todos e ter sido isso que nos levou à pré-falência, isso não é verdade e Sócrates, desse ponto de vista, é-me muito mais simpático que Montenegro, com a sua irritante opção de estar sempre a pôr paninhos quentes em tudo.
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