terça-feira, 4 de março de 2025

Não lhes dês descanso

Houve uma moção de censura ao governo há uns dias que teve 50 votos a favor (ou 49, não me apeteceu ir ver como votou Miguel Arruda).


Quinze dias depois, haverá nova moção de censura que, aparentemente, terá 14 votos a favor.


O governo, naturalmente, concluirá que tem a sua legitimidade reforçada no parlamento.


O PS, enredado nos seus cálculos tácticos, decide fazer uma comissão de inquérito.


Os partidos que apoiam o governo dirão (se tiverem juízo) que não percebem bem como pode a Assembleia da República fazer comissões de inquéritos sobre pagamentos de serviços entre duas empresas privadas, mas encolherão os ombros e deixarão correr o marfim.


Na opinião do jornalismo e do comentariado dominante, o governo vai ser cozinhado em lume brando nesta comissão de inquérito.


Dizer que não se sabe o que faz uma empresa de serviços na área da protecção de dados, ou que a empresa receber dinheiro é o mesmo que Montenegro receber dinheiro, porque a sua mulher não é mais que a projecção do marido, ou que é preciso saber quem são todos os clientes da empresa para avaliar se há conflitos de interesses (e porque não os amigos, as amantes e os correlegionários?), quem prestou os serviços, quando isso já é conhecido, ou se Montenegro joga golfe com amigos de longa data, ou mesmo se os accionistas da Solverde acham bem pagar para ser mal servidos por outra empresa, não são fundamentos para basear suspeitas, na melhor das hipóteses são questões a que a comissão de inquérito terá de dar respostas novas e suculentas que a justifiquem.


É possível que Montenegro ache útil ter um enorme tempo de antena para repetir, exaustivamente, o que tem repetido e que quem seja cozinhado em lume brando sejam os partidos da oposição se, como aparentemente é possível, esta comissão de inquérito não conseguir produzir nada de novo sobre um assunto que se baseia em suspeitas nunca fundamentadas, acabando a estufar o PS em lume brando.


Seria bom para o regime que o Partido Socialista percebesse que mimetizar as técnicas de combate político do Chega e do Bloco, não lhes dando descanso independentemente da realidade, é um caminho largo para a irrelevância, mesmo que todos os dias tenham o jornalismo a fazer de câmara de ressonância.


Entretanto mete-se o Natal, depois o Ano Novo, até ao Carnaval é um saltinho e depois é logo a Páscoa e já se sabe o que acontece no Verão, portanto quando chegarem as eleições, e elas chegarão cedo ou tarde, o que ficará deste assunto são as percepções individuais que se vão traduzir no voto dos eleitores, tendo eu a maior das dúvidas de que o facto fundamental da formação destas percepções seja saber se há ou não procuradoria ilícita por parte de uma pequena empresa privada familiar, mesmo que seja da família do primeiro-ministro.

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