Não foi uma nem duas pessoas a fazer um paralelismo entre a avença (a forma como muita gente se refere a avenças leva-me a supor que acham que uma avença é uma doação, e não uma forma contratual possível de prestação de serviços) que a Solverde tem com a empresa da família Montenegro e o pagamento que Manuel Pinho, enquanto Ministro da Economia, recebia do grupo Espírito Santo.
Se fosse só a secção de mexericos do Observador a que dão o nome de editoria de política, nem valeria a pena fazer referência, mas tenho visto este paralelismo feito por pessoas com cabeça, conhecimento e sensatez.
Manuel Pinho, suponho, agradecerá encarecidamente este serviço que lhe estão a prestar.
Manuel Pinho é acusado de corrupção pelo Ministério Público, mas sobre essa acusação nada direi, posso ter opiniões sobre isso, mas não tenho informação consistente para que ande por aqui a acusar Manuel Pinho.
Essa acusação de corrupção é a única coisa que é negada por Pinho (que está em prisão domiciliária), os factos são consensuais e passo a enumerá-los, comparando com a situação de Montenegro.
Manuel Pinho, enquanto ministro, recebia um pagamento mensal de uns milhares de euros do grupo Espírito Santo (Montenegro não recebe pagamento nenhum da Solverde, a empresa em que tem interesses por via da mulher, recebe).
Não há contrapartida conhecida para esse pagamento feito a Manuel Pinho, o próprio alega que era um pagamento devido por trabalho passado para o grupo, recebido por centenas de pessoas e incluído no pacote remuneratório passado (a empresa em que Montenegro tem interesses por via da mulher presta serviços documentados a preços de mercado).
O pagamento recebido por Manuel Pinho era omitido fiscalmente e processado via empresas off-shore e não declarado por Manuel Pinho no contexto das obrigações de declaração patrimonial a que os governantes estão obrigados (os pagamentos da Solverde à empresa em que Montenegro tem interesses por via da mulher estão totalmente registados, são públicos tanto quanto são públicos quaisquer outros pagamentos entre empresas privadas, e Montenegro cumpriu as obrigações a que está obrigado declarando esta empresa dentro dos seus interesses, sendo por isso pública a sua ligação a esta empresa, por via da mulher).
Pode discutir-se a razoabilidade das opções de Montenegro, incluindo defender a sua obrigação de proibir a mulher de prosseguir uma actividade empresarial que tinha sido iniciada conjuntamente (eu posso até achar que este poder do marido sobre a mulher se encaixa no saudosismo marialva que impedia as mulheres de viajar sem autorização do marido, mas deixemos as ironias de fora do post), mas para o fazer, escolher o paralelismo com a situação de Manuel Pinho tem um único efeito (embora, em muitos casos, involuntário): branquear o comportamento inqualificável de Manuel Pinho, sob o velho lema populista do "são todos iguais".
Não, não são, e amalgamar situações discutíveis e situações completamente inaceitáveis (e manifestamente ilegais, volto a repetir, Manuel Pinho está em prisão domiciliária) serve apenas os interesses de pessoas como Manuel Pinho, cujo argumento central tem sido exactamente o de que o que fez era uma prática corrente de que toda a gente sabia e que foi aproveitada por centenas de altos quadros do grupo Espírito Santo.
Manifestamente é um mau serviço prestado ao debate público e ao escrutínio dos conflitos de interesse na actividade política.
>
ResponderEliminarNinguém nos jornais achou estranho, que me lembre.
Até há quem compare Montenegro ao Sócrates.
ResponderEliminarVeja lá HPS onde chegou a loucura.