A discussão sobre as alterações ao regime dos instrumentos do território é notável como exemplo ilustrativo de uma imprensa preguiçosa e preconceituosa (desculpem-me o pleonasmo) que contribui, de facto, para a degradação das instituições.
Ontem, na rádio Observador, fui o cronista do dia, por causa do que tinha escrito sobre essa alteração da lei.
Desde essa intervenção que estou irritado comigo porque quando me perguntaram por que razão havia toda esta agitação, eu devia ter respondido que os especuladores são os imigrantes da esquerda, Ventura faz números com imigrantes, a esquerda faz números com especuladores, nada mais que isso.
Por que razão isto é possível?
Porque mesmo que os não nacionais representem cerca de 2% do mercado, a imprensa passa o tempo a insistir no impacto dos estrangeiros no preço (sim, o preço mediano dos contratos com estrangeiros é bastante acima do preço mediano dos contratos com nacionais, mas são dois por cento do mercado, provavelmente concentrados nos segmentos mais altos, até porque os muito estrangeiros que se acumulam em alojamentos indignos não entram nas estatísticas deste tipo, evidentemente).
O Senhor Presidente da República tem como ambição maior ser um Presidente Schrodinger, uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo, coisa que a imprensa está fartinha de saber (se tivesse dúvidas, tê-las-ia perdido no momento em que o Senhor Presidente promulgou a lei das 35 horas, no pressuposto de que diminuir cinco horas semanais no horário de trabalho de pessoas que trabalham por turnos (por exemplo, no sector da saúde), não teria efeitos nenhuns na despesa do Estado).
Portanto, neste caso, promulgou a lei ao mesmo tempo que dizia que era uma entorse que ele aceitava por causa da execução do PRR, isto é, exerceu a sua condição de presidente que cumpre as suas obrigações para com o governo (e para com quem acha que é preciso aumentar a oferta de casas), promulgando a lei, ao mesmo tempo que cumpre as suas obrigações para com a oposição (e para com quem acha que a lei vai transformar o país num imenso suburbio inabitável), dizendo que ele nem concorda, só o faz por causa da execução do PRR.
Vamos esquecer a história da carochinha de que a lei foi aprovada às escondidas entre o Natal e o Ano Novo (uma ideia apresentada em Maio, discutida durante meses (Pedro Bingre começa o artigo que comentei um dia destes com a seguinte frase: "No final de novembro foi aprovado, para audições da Associação Nacional dos Municípios Portugueses e outras entidades, um decreto-lei que...")) e concentremo-nos na parvoíce (desculpe-me, Senhor Presidente, se me trata como se eu fosse estúpido, está com certeza a autorizar-me a dizer que o que o Senhor Presidente escreve num documento oficial, apesar de ser totalmente falso, é uma parvoíce) da ligação entre esta lei e a execução do PRR.
A lei foi publicada em Dezembro de 2024, implica uma série de trabalhos preparatórios pelas câmaras, antes de qualquer dos efeitos previstos na lei ser apresentado a alguma Assembleia Municipal para aprovação, depois da aprovação, continuam a ser previstos uma série de trabalhos preparatórios antes de qualquer obra começar no terreno, ou seja, mesmo que a lei tenha qualquer efeito e que corra tudo expeditamente no processo (está-se mesmo a ver, uma lei para ser executada em terrenos privados, dificilmente haverá qualquer obra a começar antes do fim de 2025. O PRR tem de estar executado em 2026, não tem prevista qualquer medida de apoio a privados para os efeitos desta lei e, mesmo assim, a imprensa engole a patranha do Presidente Schrodinger, sendo preciso ser Alexandra Leitão a dizer, publicamente, que a ligação entre esta lei e o PRR é uma história sem pés nem cabeça.
Ou seja, o Senhor Presidente Schrodinger mente descaradamente em documentos oficiais e, à imprensa, esta impensável degradação institucional não suscita o mais leve murmúrio, pelo contrário, vão atrás do pano vermelho que lhes mostra o Presidente Schrodinger como toiros enraivecidos, apenas porque isso lhes permite cumprir a sua obrigação de indignação diária contra os interesses escondidos que dominam o país.
Por mim, preferia uma imprensa mais centrada na discussão racional e cartesiana do que realmente existe, em vez de estar permanentemente à procura do escândalo escondido que de certeza existe por trás de cada passo dos ricos e poderosos, sobretudo se estiverem no lado político errado.
Celui qui est d’accord avec moi est suspect,
ResponderEliminarCelui qui ne l’est pas est un emmerdeur !
Simplesmente BRILHANTE.
ResponderEliminar> porque a imprensa deixa
ResponderEliminarMeh. A imprensa não "deixa" pevide, a imprensa canta o que lhes mandam.
Dantes havia o jorrar do "estou a desperdiçar metade do dinheiro que gasto em publicidade, só não sei qual", e pouca concorrência, o que dava margem para pagar a jograis que às vezes largavam umas bojardas de verdade ao vulgo embasbacado.
Agora o rio secou, e os donos dos media, prevendo a extinção, queimam os restos de credibilidade que lhes sobra em galgas cada vez mais estapafúrdias. Sic transit.
Tem toda a razão, mas olhe que não me espantaria que haja algo de verdadeiro nesse argumento do PRR.
ResponderEliminarO que não falta por aí são casos de obras executadas na ilegalidade e com posteriores “manobras” para as acomodar na lei.
ResponderEliminarO UK é um recente exemplo.
Anos a esconder abuso de crianças por parte de muçulmanos. Tudo pelo wokismo, e pela protecção da diversidade e das "minorias".
Quando foi a Igreja Católica a ser acusada, agiu-se de imediato e puniram-se os culpados em conformidade.
O chamado padrão duplo...
Depois querem ser levados a sério.