domingo, 29 de dezembro de 2024

A manipulação da história

"A publicação em causa nem sequer foi uma coisa original. Vários outros ‘posts’, de figuras públicas ou de anónimos, fizeram o mesmo paralelismo, e com as mesmas imagens, ou muito semelhantes. A intenção, em todos os casos, pareceu-me óbvia: não se tratava de “comparar”, mas de “alertar”. Para aquilo em que podem transformar-se os excessos securitários que vemos aumentar um pouco por todo o mundo. Porque, como escreveu uma leitora (em comentário à minha publicação) “a História é uma infinita repetição de gestos”. E há gestos históricos que não queremos, nem devemos, repetir".


Este parágrafo pretende justificar a utilização de duas fotografias em simultâneo, a que se vê habitualmente da rusga da rua do Benformoso, com as pessoas de mãos encostadas à parede (como bem pergunta hoje Helena Matos, há algum sítio no mundo em que as revistas sejam feitas com as pessoas de mãos nos bolsos?) e uma outra de pessoas também com as mãos encostadas à parede, que se diz ser de Varsóvia nos anos 30.


A crítica das fontes e a discussão sobre se só em ditaduras se fazem rusgas assim (como argumentou recentemente João Miguel Tavares) não é o objecto deste post, queria focar-me num aspecto concreto da justificação que transcrevi e que corresponde a uma mais que grosseira manipulação da história para fundamentar uma opinião política sobre a rusga da rua do Benformoso.


Afirma-se (no que transcrevi e em muitos outros lados) que foram os excessos securitários que nos levaram ao nazismo (podem acrescentar o fascismo, o comunismo e qualquer outro regime totalitário).


Só que, historicamente, é exactamente o inverso, é quando os poderes legítimos, por opção ou incapacidade, não garantem a segurança e a ordem que os modelos totalitários de governo ganham apoio, incluindo os seus característicos excessos securitários.


É muito interessante a referência de Albert Speer, nas suas memórias, ao facto de ter descoberto bastante tarde que a sua mãe tinha aderido ao partido Nazi (como o próprio Albert Speer) sem que ele imaginasse, dada a tradição liberal da família.


Nessa parte das suas memórias, ele vai fazendo referências ao impacto que os comícios e as marchas do partido nazi, na sua fase de ascensão, militarmente organizadas e impecavelmente ordenadas (questão a que ele vai dar seguimento quando desenha os cenários dos grandes comícios posteriores do partido Nazi e quando desenha os planos nazis para as cidades alemãs, incluindo a renovação de Berlim), têm nas pessoas cansadas da balbúrdia em que condições económicas adversas e governos fracos (as duas coisas estão ligadas, naturalmente, sem que eu esteja a dizer que as condições económicas adversas resultavam da existência de governos fracos, estou apenas a referir a simultaneidade das duas coisas, sem estabelecer relações de causa/ efeito, matéria para a qual me falta conhecimento) que predominavam no período imediatamente anterior à ascensão do partido nazi.


Não são os excessos securitários que nos conduzem a regimes totalitários e repressivos, é exactamente o facto de democracias fracas não conseguirem assegurar a lei e a ordem, garantindo a segurança (incluindo a percepção de segurança) das pessoas que as leva a tolerar os excessos securitários, entendidos como meio necessário para assegurar tranquilidade.

5 comentários:

  1. Não despreze a capacidade do humano se adaptar. Há uns anos a ideia da nossa privacidade ser de qualquer modo beliscada era lesa-pátria, hoje ninguém se importa com os seus dados pessoais serem armazenados, usados e transaccionados por empresas e Estados sem qualquer controlo ou indicação de uso.

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  2. garantindo a segurança (incluindo a percepção de segurança)


    Como é que se pode garantir a perceção de segurança?


    Cada pessoa tem as suas perceções, e dificilmente o Estado pode impôr a alguém que tenha uma perceção de segurança.


    O Estado pode garantir a segurança. A perceção, não pode.

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  3. Acho que já vi algo parecido a isto por cá(não com imigrantes ilegais, ou legais,ou manteros como lhes chamam em Espanha,mas com novos "portugueses" nascidos cá),esquadra assaltada em Sevilha depois da morte de um subsariano ao atravessar um rio


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  4. Mais notícias de "percepções" de insegurança no meu post com o mesmo titulo no meu blog O Planeta dos macacos politicos. 

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  5. garantindo a segurança (incluindo a percepção de segurança)



    Lembra aquela vaga de criminalidade que assolou o país quando o Gomes era ministro. Ele demitiu-se, e aquela desapareceu.
    Também tivemos uma onda de emigração forçada durante o Passismo, lágrimas no aeroporto como só visto durante a guerra colonial. Depois entrou o Costa e terminou.

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