terça-feira, 19 de novembro de 2024

"O poder sindical é um problema"

O título disto é retirado deste texto de Nuno Gonçalo Poças, um dos mais interessantes cronistas que por aí andam (se tiverem dúvidas, leiam a crónica da semana passada, "Um desabafo").


Uma das grandes virtudes do Observador foi ter dado visibilidade a gente fora da bolha mediático-jornalística que, por isso mesmo, tem pontos de vista que vale a pena conhecer.


Por isso não percebo para que raio o Observador segue a tendência de outros jornais e põe jornalistas que no seu trabalho jornalístico se concentram em dar as suas opiniões, a escrever artigos de opinião redundantes.


O que me interessa é realçar uma questão que não me parece inteiramente clara no dito texto de Nuno Gonçalo Poças, porque o texto se centra no sector da educação: "O Governo, que tem, neste sector, as pessoas mais capazes que podia ter, é quem pode cortar o mal pela raiz, ou atenuá-lo de alguma forma.".


A greve, historicamente, é uma recusa de trabalho que visa prejudicar o patrão, mas a regulamentação sindical em Portugal, e a relativa paz social nas empresas, conduziu a um sistemático abuso sindical do direito à greve, que é usada por sindicatos que representam muito pouca gente, para obter ganhos políticos, prejudicando os utilizadores dos serviços públicos.


É inacreditável como dirigentes sindicais se mantêm dezenas de anos no mesmo sítio, sem que ninguém saiba muito bem que estranhos mecanismos de democracia interna levam a que Mário Nogueira ou Joana Bordalo e Sá (que tem dez vezes mais tempo de antena nas televisões que os responsáveis do Ministério da Saúde, tal como Mário Nogueira, no caso da educação) se mantenham, sem concorrência, nos mesmos postos electivos.


É inacreditável como os mecanismos de financiamento sindical, de sindicatos sem representatividade relevante, permitem que existam tantos sindicalistas profissionais, cuja ligação aos trabalhadores, e à vida quotidiana das pessoas que pretendem representar, seja pouco mais que uma miragem.


É inacreditável como não há jornalismo que investigue quer a democraticidade, quer a representatividade, quer o financiamento de sindicatos.


Não me parece que Montenegro, cuja estratégia tem sido a de adormecer os eleitorados potenciais dos adversários, sem perder muito do seu próprio eleitorado, vá comprar uma guerra com os sindicatos, mas é uma questão de tempo até que enfrentar os sindicatos, tal como existem e que infernizam a vida dos mais pobres e frágeis de forma sistemática como estratégia de sobrevivência, seja eleitoralmente benéfico.


Nessa altura não se queixem se o refluxo não levar os aspectos bons do sindicalismo na enxurrada, dentro do velho princípio de que a revolução é o preço a pagar por não reformar nada.

8 comentários:


  1. Não me aflige o snr. Mário Nogueira, esse excelso professor, morar há um ror de anos na direcção do seu sindicato. Nada disso. O que me aflige é saber que a cera que ele produz é paga pelos contribuintes, patrão, e não pelos interessados no seu activismo sindical, os professores. Agora multiplique-se o snr. Mário Nogueira por 10, 20, 100 e etc. São muitos, pagos pela teta da fazenda pública, usando o nosso dinheiro para nos infernizar a vida.
    Acabem com essa mamadeira. Os interessados, via quotizações, que paguem aos seus dirigentes.

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  2. não há jornalismo que investigue [...] a representatividade [...] de sindicatos


    Mesmo sem sabermos o número de trabalhadores filiados em cada sindicato, podemos ter uma ideia da sua representatividade pela adesão às greves que convocam.


    Se, por exemplo, a última greve no INEM teve - ao contrário de greves anteriores - uma adesão elevada, podemos supôr que o sindicato é assaz representativo e que as suas reivindicações são compartilhadas por bastantes trabalhadores.

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  3. Deve ser isso. Por isso a greve da função pública foi marcada para uma quinta feita antes de um feriado na sexta e para segunda feira seguinte para o sindicato ter mais representatividade

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  4. Claro que isso foi um truque que o sindicato usou, truque esse que não o enobrece.


    Não obstante, de forma geral e em média, podemos afirmar que, se as greves marcadas por um sindicato têm muita adesão, então é porque esse sindicato representa razoavelmente bem os trabalhadores.

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  5. Terá reparado que, desde o início do ano lectivo, apenas em 3 semanas não houve greves nesse sector, todas elas às sextas, segundas ou na tal quinta-feira antes do feriado de 1 de Novembro. A notícia passou ainda anteontem, salvo erro, na SIC.
    Cumprimentos 

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  6. todas elas às sextas, segundas ou na tal quinta-feira antes do feriado de 1 de Novembro


    Esta prática não fica bem aos sindicatos. No entanto, eles são estimulados a usá-la pelo facto de Portugal utilizar enorme número de professores deslocados, ou seja, de professores que ensinam a centenas de quilómetros da sua morada de família e que, portanto, estão sempre ansiosos por um fim de semana alargado que lhes permita ir visitar os familiares. Se Portugal usasse preferencialmente professores locais, estas greves adjacentes aos fins de semana teriam muito menor popularidade.

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  7. Desde que me lembro sempre foi assim, marcar antes ou após dias de descanso para que as "adesões" sejam em maior numero. Assim há sempre aqueles que aproveitam para faltar sem justificação ao abrigo da lei da greve.

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  8. Interessante também seria saber se as Câmaras Municipais descontam o dia de greve aos assistentes operacionais das escolas...

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