quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Invasoras

"As montanhas temperadas e mediterrânicas oceânicas estão a ser deglutidas pela Acacia dealbata, por vezes, secundada pela A. melanoxylon, Cortaderia e por Paspalum, e outras gramíneas de fora. E pela regeneração de semente de Eucalyptus, não vale a pena meter a cabeça na areia".


O que cito é de Carlos Aguiar, das pessoas que mais respeito no mundo da conservação da natureza e um dos melhores botânicos e ecólogos do país (declaração de interesses, conheço-o há muitos anos, foi um dos orientadores da minha tese de doutoramento, e o que lhe devo em compreensão do mundo rural é incalculável, em especial naquilo em que Carlos Aguiar é único, o conhecimento que tem das interacções entre a química do solo e a vegetação).


Na altura em que o Carlos escreveu isto não fiz qualquer comentário, mas à segunda referência à questão das invasoras, resolvi fazer este post.


A estratégia de gestão das invasoras (para efeitos deste post, estou sobretudo a falar das plantas lenhosas invasoras, mas muito do que digo é parcialmente aplicável a todas invasões biológicas que estão a ocorrer) tem um traço comum com algumas das estratégias de gestão do fogo ou de controlo de epidemias.


Sendo certo que é muito mais fácil e eficaz controlar invasoras (ou fogos, ou doenças contagiosas) no início do processo de invasão, as estratégias para as invasoras assumem como primeira prioridade controlar a entrada de invasoras num novo território (ou as ignições, ou os contágios).


Tal como no caso do fogo ou das epidemias, há um erro central nesta estratégia, o de não se aceitar que haverá sempre focos (ou ignições ou contágios) que fogem desse controlo inicial, e depois é tudo uma questão de gestão e contexto.


No caso das invasoras o problema central não está em estar tudo cheio de acácias ou háqueas, que progridem explosivamente pós-fogo, o problema está na falta de gestão e nos conceitos de gestão errados que esquecem o contexto, esquecem a doença, para se concentrar nos sintomas.


Por exemplo, a reverência ao mainstream de que o Carlos dá mostras ao referir o eucalipto (que se expande lentamente por semente e cuja expansão é fácil de controlar), tem consequências concretas quando o Fundo Ambiental inclui o controlo de eucalipto no financiamento a projectos de controlo de invasoras, desviando recursos que são mais que escassos para gerir uma ameaça real e explosiva (a expansão de háqueas e acácias) para os aplicar numa ameaça inexistente e facilmente controlável (a expansão não económica do eucalipto).


A questão não está em financiar o controlo de invasoras, a questão está em criar contextos menos favoráveis à expansão de invasoras, o que significa, forçosamente, encontrar sustentabilidade económica para actividades que possam resultar no controlo das invasoras, seja pelo seu uso e gestão, seja pela reconversão de áreas que possam representar melhores opções para o seu proprietário que o abandono.


Tal como no fogo, ou nas epidemias, o caminho que temos pela frente é aprender a conviver serenamente com estas ameaças, compreendê-las, perceber em que contexto se desenvolvem desfavoravelmente para nós, e encontrar as tecnologias, o conhecimento e os modelos de gestão que nos permitam limitar os seus efeitos negativos.


É disto que se trata, de aumentar a nossa sabedoria, reconhecendo que saberemos sempre menos do que precisaríamos e podemos sempre menos do que desejaríamos, o que nos impede, felizmente, de criar mundos de risco zero.

2 comentários:


  1. tudo cheio de acácias ou háqueas, que progridem explosivamente pós-fogo


    Pode-se talvez supôr que as acácias e háqueas formam um primeiro passo na reconstituição da natureza após um incêndio. Elas crescem explosivamente, protegendo o solo e impedindo a sua erosão. Porém, passados alguns decénios elas serão ultrapassadas por outras plantas.


    O problema não é nascerem acácias após um incêndio, o problema é haver incêndios repetitivos, que nunca permitem que a natureza se restaure para um estado além das acácias.

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  2. Outra invasora, que se observa muito mesmo no centro de Lisboa, são as árvores do céu, umas árvores originárias da China que crescem em terrenos abandonados, mais ou menos como as cortadeiras no litoral norte.

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