A Florestgal é uma empresa do Estado, actualmente presidida por José Gaspar (que conheço e com quem tive sempre contactos cordiais e larga convergência de pontos de vista sobre gestão florestal) e compreendo-o, na perspectiva da empresa.
O que me interessa não é a defesa que a Florestgal faz de si própria, o que me interessa é a opção do Fundo Ambiental financiar empresas do Estado para aquisição de terrenos para conservação da natureza, tanto quanto sei, de forma directa e não em processos abertos que permitissem que organizações não estatais acedessem a estes fundos.
Claro que é uma causa perdida (passo a vida a defender causas perdidas) porque em Portugal é esmagadora a ideia de que todos os problemas colectivos se resolvem melhor através da intervenção do Estado que através da livre iniciativa de pessoas livres, enquadradas pela actuação reguladora e supletiva do Estado.
Acha-se normal que o Estado, em vez de abrir concursos para escolher as melhores oportunidades para a compra de terrenos para dedicar à conservação da natureza, que permitisse que a Fundação Terra Agora, o Rewilding Portugal, a ATN, a Montis, etc., etc., comprassem mais terrenos e se responsabilizassem pela sua gestão, determinando à Florestgal que se dedique a resolver problemas de gestão de terrenos que ninguém quer gerir, prefere usar os fundos autónomos de que dispõe para se financiar.
Não se pense que esta é apenas uma opção do Estado, muito recentemente uma empresa pediu-me uma coisa qualquer, que eu faria por gosto e por entender estar dentro do que acho serem os meus deveres de participação cívica, e informou-me que tinha 250 euros para pagar o meu trabalho.
O que ganho vai dando para o gasto, 250 euros são na verdade muito menos à conta dos impostos, eu não tenho actividade privada, enfim, fossem quais fossem as minhas razões pessoais, não tinha grande interesse em ter o trabalho, incluindo implicações fiscais, que me dava receber esse dinheiro.
Mas gostei da atitude de me pagarem um tipo de trabalho que frequentemente me pedem de borla e lembrei-me de sugerir que pegassem no dinheiro e fizessem uma doação, ao abrigo da lei do mecenato, para o fundo de aquisição de terrenos da Montis.
A empresa (uma grande empresa de comunicação social, não era uma empresa de vão de escada) não foi capaz de integrar o pedido no seu processo de decisão, disseram-me que não era possível (como se alguma empresa estivesse impedida de fazer mecenato), mesmo que o resultado final fosse mais favorável para empresa que não só entregava um valor líquido maior pelo trabalho, como tinha um tratamento fiscal mais favorável por causa da lei do mecenato.
O único a perder era o Estado (que se preparava para ficar com uma fatia muito relevante do pagamento pelo meu trabalho), ganhando eu (que ficava satisfeito por aumentar o dinheiro disponível para a Montis comprar terrenos), ganhando a Montis (que ficava com mais recursos para comprar terrenos), ganhava a sociedade (que aumentava a área de terrenos geridos com objectivos de conservação) e ganhava a empresa do ponto de vista fiscal, mas a vontade de fortalecer a sociedade à custa de uma relação mais criativa com a máquina fiscal, aparentemente, não é nenhuma, na empresa em causa.
Se dúvidas houvesse, a facilidade com nestes dias, a propósito de umas declarações de gente do Chega, se tem confundido alarvidade com ilegalidade, demonstra bem a falta de apreço pela liberdade que a sociedade portuguesa tem, mesmo que alguns, raros, vão continuando a explicar a coisa de forma clara e racional.
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ResponderEliminarAceito os argumentos do Henrique mas contraponho os seguintes:
(1) Na generalidade dos países europeus, e mais ainda no Japão, e também em muitos estados dos EUA, a maior parte das florestas e, mais especificamente, dos terrenos dedicados à conservação da Natureza são estatais. Portugal, em que 97% dos terrenos florestais são privados, é uma exceção. Não me parece mal que, neste caso como noutros, Portugal evolua no sentido da quase totalidade dos países mais civilizados.
(2) É difícil garantir a continuidade das organizações não-governamentais de ambiente. Quem nos garante que daqui a 20 anos a Montis (por exemplo) ainda existirá e ainda terá gente (e dinheiro) capaz de garantir a conservação da Natureza nos terrenos que atualmente lhe pertencem? Esses terrenos precisarão de continuar a ser conservados, porém talvez o seu proprietário nesse tempo futuro já não seja capaz de o fazer. Não será melhor então que eles pertençam a uma entidade "eterna" como o Estado?