quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Radiografia do jornalismo político

Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador, isto é, é um dealer dos viciados em intriguice e piadismo a que agora se chama jornalismo político.


É, portanto, uma pessoa qualificada para fazer uma radiografia da coisa.


Ontem esmerou-se e tinha um artigo de opinião, sobre o qual depois falou à tarde numa coisa da rádio Observador chamada "o colunista do dia".


"quando duas pessoas se acusam mutuamente de mentir, só os jornalistas podem seriamente apresentar as versões dos factos".


Ora aqui está, em duas linhas, a grande base teórica desta calhandrice a que chamam jornalismo político: quando duas pessoas dizem coisas diferentes sobre uma coisa em que só os dois participaram, podemos dar como garantido que só os jornalistas, que não estiveram lá, "podem seriamente apresentar as versões dos factos".


Note-se bem, as pessoas ouvirem as duas pessoas envolvidas não serve para nada, é preciso que os jornalistas apresentem seriamente as versões dos factos, não é que verifiquem os factos verificáveis e deixem os outros em paz, é que apresentem as versões dos factos.


Este pessoal da calhandrice acha que os seus leitores, como eles, estão mais interessados nas versões que nos factos.


Dir-se-ia que é má vontade minha, não é bem isso que o senhor quererá dizer.


"Se um jornalista estiver fechado numa sala três horas, se não ouviu a reação de um outro político, se não leu um documento oficial que entretanto já chegou à redação, tem de ser avisado para estar o mais informado possível. No caso da política, pode apenas ser informado do que disse outro líder partidário, alguém do partido do visado, de uma promulgação presidencial, entre um sem-número de hipóteses".


Como se vê, não, não é má vontade minha, o que preocupa estes intriguistas não é o confronto entre o que dizem e, sobretudo, fazem os políticos e a realidade das pessoas comuns, o que os preocupa é o confronto do diz que disse da bolha em que convivem com os políticos, independentemente da realidade concreta sobre a qual a política actua.


"Quando um ministério não responde ou só responde ao que lhe interessa, quando um ministro limita o número de perguntas a menos do que os dedos das duas mãos (ou até uma) ou um dirigente nacional decreta silêncio aos seus companheiros de partido, são os políticos que estão a contribuir para que haja menos informação".


É isto, informação é o que dizem os habitués da bolha político-mediática em que se move o pessoal dos mexericos (de que aliás já se queixava Lou Reed, há muitos anos "Just a New York conversation, gossip all of the time/ Did you hear who did what to whom? Happens all the time/ Who has touched and who has dabbled here in the city of shows?/ Openings, closings, bad repartee, everybody knows").


Que informação não seja este diz que disse mas a realidade das pessoas comuns afectadas pelas decisões destas pessoas é uma ideia que dificilmente entra na cabeça destes jornalistas ofegantes (sim, nesse ponto em concreto, Montenegro tem toda a razão), que acabam a protestar com Montenegro por se recursar a alimentar o circo montado por Ventura.


Circo esse, aliás, que só existe porque estes quadrilheiros reagem pavlovianamente a qualquer mexerico "Sobre o novo arrufo com André Ventura, Luís Montenegro tem, aliás, optado por uma postura de não falar do assunto para não o alimentar, mas sabe que quando duas pessoas se acusam mutuamente de mentir, só os jornalistas podem seriamente apresentar as versões dos factos. Para isso precisam de informações credíveis, de detalhes, de dados para que os possam apresentar aos portugueses. Valorizar o jornalismo é isso: responder às perguntas dos jornalistas. Enfim, informar".


Resumindo, neste mundo de coscuvilhice, se os jornalistas não informam é porque o primeiro ministro faz o que entende em vez de fazer os que os jornalistas entendem.


Uma radiografia poderosa deste mundo do jornalismo político, feita por um dos seus cultores mais empenhados, obrigado, Rui Pedro Antunes.

16 comentários:

  1. Como disse alguem, se não lês jornais não sabes o que se passa, se lês ficas desinformado. 

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  2. "Valorizar o jornalismo é isso: responder às perguntas dos jornalistas," segundo Rui Pedro Antunes.
    Os jornalistas acreditam ser pessoas muito importantes e qualificadas, cujas perguntas, portanto, têm que ser respondidas. (Ao contrário das perguntas em geral, que os inquiridos têm todo o direito de optar por não responder.) Como afirma Rui Pedro Antunes, os jornalistas têm que ser valorizados, o que implica que ele próprio, Rui Pedro Antunes, seja valorizado.
    É, em suma, um jornalista a falar em causa própria.

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  3. Venho aqui muitas vezes, principalmente pela grande admiração que tenho pelo Dr. José Mendonça da Cruz.


    Não costumo comentar, mas tinha acabado de escrever no meu blogue sobre a IA e refleti sobre quando poderia substituir a maior parte dos jornalistas. Talvez mais cedo do que tarde.


    Entretanto, sendo eu também grande admirador do Lou Reed, quero sublinhar que fiquei muito contente com a citação. Suponho que é do álbum New York (1989)?

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  4. Em relação àquilo que passa por "jornalismo" em Portugal, o único valor que se lhe reconhece, sem reservas,  é o de ter restituído a dignidade, comparativamente , á "mais velho profissão do mundo"...
    Juromenha

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  5. Escrevi isto na caixa de comentários do artigo 
    "Um artigo que confirma o jornalixo. 

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  6. Há aqui duas questões.
    A primeira é o Montenegro não responder a uma simples pergunta, fica muito mal o autor deste texto chamar isso circo do Ventura. É notícia saber se o Montenegro mudou ou considerou mudar o não é não e quem está falar verdade. E se o Montenegro nem sequer tem coluna para dizer que falou com o Ventura terá coluna para alguma coisa que não seja um fait divers que o autor critica?


    As ajudas forçadas dos contribuintes para os jornais feitas pelo sistema politico - o PSD+CDS a assegurar cada vez mais aumentos de impostos como sempre que está no poder- mostra o divórcio entre o jornalismo e a população e assinala os jornalistas serem cada vez mais membros da corte e cada vez menos a representarem o publico.

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  7. Como me pude enganar? É um dos meus álbuns favoritos de sempre e de muito antes, suponho que início da década de 70. Lou Reed foi um homem muito à frente do seu tempo, tenho pena de nunca o ter visto (ouvido) ao vivo. Havia muito a falar sobre isto, um dia quem sabe conversaremos. Abraço

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  8. Fiquei com má opinião de Rui Pedro Antunes quando o ouvi, na Rádio Observador, comentar que no congresso da Iniciativa Liberal que se desenrolaria em breve o que contaria seriam os delegados e os núcleos a favor de cada facção. Rui Pedro Antunes tinha obrigação de, antes de comentar, ter aprendido sobre o que comentava, nomeadamente sabendo que nos congressos da Iniciativa Liberal não há delegados nem núcleos, mas tão-somente militantes individuais do partido. Um comentador político que não sabe o básico daquilo sobre que comenta só serve para iludir quem o escuta.

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  9. Quem segue a "informação" internacional sobre esta eleição para PR nos EUA já deve ter reparado na selecção das gravações que os editores de TV fazem, para exibição, do discurso directo dos dois candidatos. Selecção essa feita de acordo com o tom político de cada estação de TV, óbviamente.

    -Trump fala arriscando muito sobre o que vai fazer, sobre o que terá que fazer e deveria ter sido feito. Trump é e fala como um executivo, um "fazedor". Sobre Kamala diz que ela seria simplesmente um desastre como PR, pois é uma carreirista da política.

    -Kamala sim, essencialmente fala exactamente como um personagem da política. Insiste repetindo infindáveis discursos sobre os traços da personalidade de Trump. Na opinião dela muito doentios, tal como a própria saúde física e mental do adversário. Pouco ou nada sobre o que irá fazer como PR, se vencedora, além de indefinidas generalidades, nem sempre minimamente esplícitas. Por vezes associa-se ao exercício de Biden/PR, outras vezes nem por isso.

    Cada um dos candidatos é como é.

    Por cá a informação sobre estes dois candidatos é praticamente toda 100% pró-Kamala.

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  10. Não vale a pena ligar ao jornalismo para fazer juízos de valor. A mentira e deturpação descarada é tanta...

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  11. Cheguei a ouvir durante uns tempos o podcast Vichyssoise do Observador, conduzido por RPA, mas rapidamente deixei de seguir. Vivem mesmo desligados do mundo real, com toques woke e viés de esquerda.


    Jornalismo hoje é opinião travestida de isenção. Mais vale ler/ouvir os colunistas que são atualmente a única mais valia dos OCS. O jornalismo morreu há muito.

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  12. Se uma árvore cair na floresta e ninguém lá estiver, não faZ barulho

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