terça-feira, 15 de outubro de 2024

"Porque falham as políticas florestais"

Rui Gonçalves, que conheço e com quem discuto estas matérias aqui e ali, quando o encontro na rua, escreveu um artigo que o Público publicou ontem, com o título deste post.


É um bom artigo, que defende que as políticas flroestais falham em grande parte por assentarem em mitos, e a mim interessa-me, para este post, as seis medidas básicas que Rui Gonçalves acha que deveriam estar num pacto de regime para o sector.


Concluir o cadastro e mantê-lo actualizado;


Desbloquear as heranças jacentes e indivisas;


Facilitar o emparcelamento e a gestão conjunta;


Consolidar os perímetros urbanos para evitar que as casas entrem pela floresta e vice-versa;


Expandir a utilização de fogo controlado e subsidiar outras acções de gestão de combustíveis;


Criar um quadro qualificado e profissionalizado de bombeiros florestais (não confundir com as corporações de bombeiros voluntários, peça essencial do sistema de protecção civil).


Todas as propostas são facilmente aceitáveis por mim (tenho dúvidas sobre a utilidade de tratar neste âmbito a questão dos perímetros urbanos), o que nos distingue, no entanto, é uma questão de prioridades e urgências.


Concluir o cadastro parece-me bem, é útil sob muitos pontos de vista, mas o efeito disso na gestão do fogo (ou da gestão florestal) é marginal, pelo menos no curto e médio prazo, como demonstra o facto de não haver diferenças entre a gestão florestal das zonas com e sem cadastro.


Desloquear heranças é útil, mas também aqui não se resolve problema nenhum de fundo visto que a questão, antes de ser de acesso à terra, é de rentabilidade, portanto desbloquear as heranças é apenas transferir o bloqueio para outro ponto qualquer do processo, como demonstram as sucessivas tentativas dos vários governos com empresas públicas como a Lazer e Floresta e a Florestgal (de que Rui Gonçalves foi presidente até escrever um artigo lúcido sobre os fogos da Serra da Estrela).


Nada contra facilitar o emparcelamente e a gestão conjunta, matéria em que as celuloses têm demonstrado que a questão, antes de mais nada, é de rentabilidade, sendo por isso que as celuloses têm tido muito mais sucesso que o Estado na obtenção de resultados por esta via.


Sobram as duas propostas em que tenho insistido, embora numa delas prefira uma formulação diferente (não se trata de expandir o uso de fogo controlado e subsidiar acções de gestão, trata-se de pagar a gestão de combustíveis de maneira a que os gestores optem por expandir o fogo controlado e as acções de gestão, é a diferença entre uma formulação mais estatista e centralizada e uma formulação mais liberal).


O caminho faz-se caminhando e espero para ver o que pretende fazer o governo com o famoso plano criado em três meses para o sector.


Não tenho dúvidas que lá estarão as primeiras medidas de que fala Rui Gonçalves, como estão sempre em todo o lado (embora com os resultados práticos conhecidos), mas o que verdadeiramente será a pedra de toque é saber como vai ser tratada a questão do aumento da gestão que, aparentemente, todos estamos de acordo que será preciso promover.


Depois, por volta de 2030, voltaremos às discussões sobre o assunto, nunca volta à estava zero, claro, mas duvido que grande parte dos mitos à volta da actividade florestal em Portugal não continue a produzir políticas ineficientes e inúteis, infelizmente.


Estou como Rui Gonçalves: comecemos por estas seis medidas, e deixemos o resto.

23 comentários:

  1. Rui Gonçalves não foi um adjunto de José Sócrates quando ele foi ministro do Ambiente?

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  2. O que é preciso é transformar a biomassa fina em carne de cabrito e carne de borrego.
    Isso será mais facilmente conseguido se implementarem, rapidamente e em força, reformas estruturais a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.
    Rui Gonçalves é mais outro pateta alegre que esteve no governo de Guterres que tanto desgraçou o país.

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  3. Desbloquear as heranças jacentes e indivisas;


    Que quer isto, exatamente, dizer? O que significa "desbloquear"? Significa que se pretende forçar herdeiros a abdicar da sua herança, cedendo-a a outrém?


    Eu gostaria, francamente, de saber que propostas tem Rui Gonçalves (ou seja quem for) a fazer, no que a isto diz respeito.

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  4. Quando não se conseguem atacar as ideias, ataca-se a pessoa.

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  5. Eu a pensar que era agora que ia anunciar que tinha decidido fazer alguma coisa de útil (por exemplo, fundar uma empresa para transformar biomassa fina em carne de cabrito) e afinal é a mesma repetição da lenga-lenga de que a culpa é dos outros.

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  6. Não ataquei Rui Gonçalves, nem pretendo fazê-lo.
    Somente pergunto se é a mesma pessoa que um adjunto de Sócrates que, salvo erro, tinha o mesmo nome.

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  7. Sim, é o mesmo, não sei se foi adjunto de Sócrates, foi várias coisas, incluindo chefe de gabinete de Sócrates, penso que quando Sócrates era Secretário de Estado. Quando era Ministro, Rui Gonçalves foi Secretário de Estado.

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  8. Obrigado.
    Propõem a partilha obrigatória de heranças indivisas no prazo de cinco anos. (Presumo que, se os herdeiros não quiserem ou não puderem partilhar, serão forçados a vender ao desbarato.)

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  9. Porque é que mudanças profundas na lei que regula os contractos de trabalho teria alguma influência na gestão das florestas ?



    Assumindo que baixa os custos salariais, porque é que alguém iria querer trabalhar por salários mais baixos e/ou sem Segurança Social ? Ou você pensa que o abandono rural que começou nos anos 60 foi porque a malta quis ir passear a Paris ?

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  10. Ok, se assim é, percebi mal a pergunta.

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  11. O que o leitor pretende é exactamente ter cada vez mais contractos de trabalho.

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  12. E porque é que precisa de mudar a lei para isso ? Ofereça antes um salário alto o suficiente, e não lhe vão faltar interessados.

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  13. Também é verdade que propõem uma alternativa: os herdeiros serem forçados a constituir uma sociedade, em nome da qual ficaria a herança.

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  14. contractos de trabalho


    ?!  Contratos.

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  15. contractos de trabalho


    Contratos sem c antes do t.
    Contractos quer, na melhor das hipóteses, dizer contraídos.

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  16. Eu explico: em Portugal prevalece o esquema do "não assino!" nas heranças indivisas. Como não querem ou não podem ir para processo judicial de inventário a coisa dura anos, décadas, com o património a degradar-se. A única forma que vejo de atalhar a isto é através do IMI. A partir de X anos sem partilhas o IMI agrava continuadamente. Vai chegar o dia em que quem diz não vai ter de pensar duas vezes. E se não pagarem o imposto, hasta pública. Alguém compra. Não há expropriação, não é socialismo, nada disso, é apenas impedir a chantagem familiar de manos, cunhados, primos e por aí.

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  17. Um bom exemplo com uma francesa, a actual duquesa de Orléans. Há 1000 anos que a família tinha um chateau no sul de França. Ela tinha parte, mas o mano correu-a de casa. Coproprietária mas não se podia aproximar do chateau. Passadas umas décadas perdeu a paciência: exigiu partilhas. Como não havia dinheiro para lhe pagarem a parte dela o chateau foi para venda e parar nas mãos de Pierre Cardin. O mano com o dinheiro comprou um chalet na aldeia.

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  18. Cada vez mais contractos, os contratos 

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  19. Exatamente. Na prática, se se exige a realização de partilhas, o que irá acontecer serão, muitas vezes, vendas ao desbarato. Como nenhum dos herdeiros tem dinheiro para pagar aos outros as partes deles, terão todos que vender a totalidade.

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  20. A única forma que vejo de atalhar a isto é através do IMI. A partir de X anos sem partilhas o IMI agrava continuadamente.


    Quem paga o IMI de uma herança indivisa é somente o cabeça de casal - um dos herdeiros que é responsável perante o fisco (e somente perante ele) pela herança. Os outros, em princípio, se forem desonestos deixam de pagar a sua parte do IMI ao cabeça de casal. Se o IMI sobe, o cabeça de casal é que fica lixado, e pode nem ser ele quem tem culpa de não se fazerem partilhas.

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  21. Simples de resolver: basta que peça partilhas judiciais. Em alternativa: não paga. Nessa altura entra o arresto e hasta pública, seguido de venda judicial. 


    Este estado de coisas ainda é mais grave à medida que vai passando de geração em geração. Às tantas não são dois bem três mas trinta, muitas vezes emigrados. Juntá-los para assinarem um papel é quase impossível. 

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