quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Mitigação e adaptação

Hoje, no Observador, João Adrião tem um artigo que, no essencial poderia dispensar este post.


De maneira geral, João Adrião e eu temos opiniões que têm uma grande área de sobreposição, mas o João tem mais certezas que eu em relação a muita coisa, o que se nota especialmente nas discussões sobre alterações climáticas, visto que o João discute a substância da argumentação e eu limito-me a reconhecer a minha ignorância e, consequentemente, não discutir o clima do futuro.


De resto, esta é frequentemente a minha posição base em assuntos excessivamente complexos para a minha cabecinha, não me passa pela cabeça discutir se a Terra anda à volta do Sol ou a inversa, parto do princípio de que se a opinião científica sobre o assunto é esmagadoramente num sentido, e se eu não sei o suficiente do assunto para ter posições minoritárias que consiga sustentar, não faz sentido tentar discutir se a menor distância entre dois pontos é sempre uma recta ou não.


Questão diferente é a discussão social decorrente do que hoje se sabe (sim, eu sei, hoje há conquilhas, amanhã não sabemos), em que tenho algumas opiniões (que, de maneria geral, com eventuais nuances, coincidem com as de João Adrião em matérias relacionadas com a gestão da paisagem).


Na discussão das políticas relacionadas com o clima, há dois grandes grupos de políticas, as que dizem respeito à mitigação, isto é, à procura de limitação da dimensão das alterações climáticas (aquilo em que se baseiam os radicais como Greta Thundberg, que acha que vamos morrer todos assados nos próximos anos se não reduzirmos imediatamente a actividade humana para os níveis que ela acha adequados), e as que dizem respeito à adaptação, isto é, as que procuram ter em atenção eventuais alterações de contexto para desenhar políticas de adaptação aos novos contextos.


Quanto às políticas de mitigação, raramente me meto nessas discussões porque tenho uma opinião ideológica, muito clara para mim, que é muito minoritária, sendo razoavelmente inútil qualquer discussão porque as posições estão muito extremadas.


O que defendo é que os mercados e os mecanismos de preços associados são instrumentos muito mais poderosos de criação de eficiência que as medidas normativas centralizadas, como definir em tratados internacionais que não se pode ultrapassar este ou aquele limite disto ou daquilo.


Como sei que mercados perfeitos só existem em livros de economia, naturalmente não tenho problema nenhum em reconhecer o papel que os Estados, incluindo os tratados internacionais, podem ter para influenciar esses mercados, mas a questão central é que o assunto e as sociedades são demasiado complexas para que seja possível impor medidas radicais para a redução de emissões sem que isso acabe, forçosamente, por sacrificar a liberdade e a democracia.


O argumento a que é mais difícil de responder aos que criticam este meu distanciamento das discussões sobre mitigação é o argumento de que, mesmo considerando que as políticas de adaptação devem ter prioridade, o facto é que a adaptação é tanto mais difícil e cara (sob todos os pontos de vista, incluindo sociais) quanto maior for a necessidade de adaptação.


Ainda assim, o risco de asneira e a dificuldade de a corrigir, parece-me demasiado grande para confiar em acções centralizadas, globais e aplicadas coercivamente.


Assim sendo, interessam-me muito mais as políticas de adaptação, mantendo a minha ideia de que os mercados e as sociedades são mais eficientes a produzir soluções que os Estados.


O que se passou por estes dias em Valência, os fogos, a construção no litoral, as políticas de produção de alimentos e fibras (incluindo o regadio e a produção industrial de fibras), ganham em retirar da equação a conversa das alterações climáticas para nos centrar no essencial: com ou sem alterações climáticas, teremos sempre cheias repentinas, teremos sempre fogos, teremos sempre problemas relacionados com a ocupação do espaço, teremos sempre de produzir alimentos e fibras, etc., etc., etc..


E, em cada um desses assuntos, é muito mais útil discutir questões que conseguimos influenciar, a escalas que conseguimos controlar, como reduzir combustíveis finos, não ocupar leitos de cheia, desenvolver mecanismos de alerta precoce eficientes, etc., etc., etc., que andar sempre com a bengala das alterações climáticas na conversa que, além de razoavelmente inútil, tem o efeito perverso de desvalorizar responsabilidades pelas acções que realmente dão origem a problemas sociais graves.


Eu sei que os meus amigos mais radicais chamam a isto confiar excessivamente na tecnologia e nos mercados perfeitos, mas eu posso reconhecer os limites que em cada momento existem nas aplicações das tecnologias e sei muito bem que não existem mercados perfeitos, o que não compreendo é a alternativa de confiar excessivamente no Estado que, para mim, é sempre um instrumento repressivo nas mãos das classes dominantes, mesmo que não seja apenas isso.

21 comentários:

  1. é mais o que ignoro
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  2. Vai ficar tudo bem


    O green movement, para além de ser um bom motivo para cobrar impostos (pelo ambiente), foi tomado pelas corporações que querem vender o seu produto. 
    No fundo, e porque ninguém quer voltar às cavernas (excepto os idílicos que querem viver da terra mas se recusam a ir para a mata), tudo se resume a quem abdica do quê. Porque a tecnologia é o que é, porque o impacto humano (ou de qualquer outro bicho) nunca é zero, porque somos uma catrefada em que cada um ambiciona ter sempre mais, porque temos no Ocidente um modelo económico de consumo.
    Agora, quem dá o passo em frente? Viagens de avião, uso de redes sociais, importação de comida intercontinental, compra de roupa, uso do automóvel,  há muito por onde escolher. 


    A Greta... a Greta é o Macaulin Culkin  do "activismo". Vale tanto como o taxista que diz que é tudo uma cambada.

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  3. Um colega meu teve há trinta anos um emprego temporário em Valência. Lá foi informado pelos seus colegas que Valência é como um deserto: nunca chove mas, quando chove, anda-se de barco. Sendo que essas chuvas muito intensas ocorrem quase sempre em outubro.
    Ou seja, estas cheias, embora certamente muito pouco usuais na sua magnitude, estão de acordo com o clima valenciano. É normal no mês de outubro haver, nalguns anos, chuvas extremamente intensas em Valência. Cidade na qual, em todo o resto do ano, praticamente nunca chove.

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  4. 99,9% certo, excepto o "temos no Ocidente".



    Montanhas esventradas, vales terraplanados, rios vampirizados ou esmagados,  praias e dunas abocanhadas e desflorestação são realidades em todo o planeta independentemente do modelo económico, político ou que seja.


    A título de exemplo, Lisboa sem o parque de Monsanto teria uma temperatura média superior em 4ºC.
    A mãe Natureza sabe o que faz e tem um dedo muito poderoso. A soberba e gula do Homem, talvez porque se habituou a controlar o clima como o comando do ar condicionado, é que lhe vai causar imensos dissabores!

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  5. Lisboa sem o parque de Monsanto teria uma temperatura média superior em 4ºC


    Não. Aquilo que disseram na rádio é que há dias em que Monsanto está com uma temperatura 4 graus inferior à de Lisboa-cidade.
    O que é expectável: os prédios refletem uma boa parte da luz solar, a qual aquece o ar que fica entre eles; a radiação que não é refletida é absorvida pelos prédios, que aquecem e começam eles próprios a radiar. Pelo contrário, a vegetação de Monsanto absorve toda a radiação sem aquecer.

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  6. Temos no Ocidente uma sociedade de consumo, em que claro todos participam, nem que seja no início cadeia logística.
    As minas de África rebentam África, mas o destino daquele cobalto e lítio são os popós chineses, que acabarão por ser vendidos aos greens americanos e europeus.

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  7. A coisa é mais complexa do que isso. As cidades, em larga medida, não sofrem grande arrefecimento nocturno porque, para além da energia absorvida, há imensa gasta para impedir esse arrefecimento.
     É o mesmo que, simplificando, dizer que o gelo nos polos funciona como o refrigerador do planeta

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  8. Bem certo. Tanto é responsável o que compra como o que vende.
    Esta coisa, à imagem da prostituição em certos países, de responsabilizar/criminalizar o consumidor e desresponsabilizar/ilibar o fornecedor é algo muito falacioso.

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  9. Comparativamente às imagens de satélite de 1900?


    O lucky é misógino, a mãe natureza não existe, só  O planeta

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  10. Só por curiosidade há quem defenda que Lisboa devia ter-se expandido para Monsanto e deixar a Almirante Reis a áreas laterais na horticultura.

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  11. Não. Em 1900 Portugal era uma uma imensa charneca. Hoje tem grandes áreas florestadas. O que é afirmado no post que critica (sem perceber o que está escrito), é que os satélites mostram que o planeta está mais verde. Que as zonas com vegetação aumentaram. Não se fala em comparação com imagens de satélite de 1900.
    E sim, essa coisa da mãe natureza não existe. É um conceito pseudo religioso. 
    Reduzir o comentário a misoginia só porque "mãe natureza" é feminino, só mesmo por má-fé ou porque a cabecita não dá para mais.

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  12. Uma abstracção é uma abstracção. Não carece do ter ou não ter sentido, sequer de veredicto de existência.

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  13. Zonas com vegetação não significam florestação. 
    A mãe natureza existe, tem é diversos nomes,  negá-lo 

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  14. As cidades, Lisboa incluída, não devem é expandir-se para cima das margens dos rios, implantar-se em zonas de cheias, anular ou convergir linhas de água (entubadas) para um mesmo ponto e exceder-se na impermeabilização negligenciando as chamadas zonas esponja.


    Existe conhecimento, saber e ferramentas, preciso é que se aja em conformidade e respeito.

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  15. Pior que fazer convergir linhas de água é bloqueá-las, como se fez com Ribeira das Vinhas em Cascais, com os resultados já conhecidos ou com a construção do parque subterrâneo no Martim Moniz, ainda em espera.

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  16. É conveniente não se deixar influenciar pelas narrativas do jornalismo muitas delas erradas.


    Via Floresta.pt
    "As primeiras estatísticas florestais de Gerardo A. Pery (“Geographia e estatística geral de Portugal e Colónias”, Lisboa, 1875) admitiam que apenas 7% da superfície de Portugal continental (cerca de 640 mil hectares) teria coberto florestal, como lembram os Cadernos de Geografia Nº 21/23 da Universidade de Coimbra. O restante dividia-se entre os cerca de 21% de área agrícola (1,9 milhões de hectares) e os quase 70% de incultos (6 milhões de hectares caracterizados como pastagens naturais pobres).
    (...)
    No seguimento das políticas do Estado Novo, nomeadamente do Plano de Povoamento Florestal (1938) e, ulteriormente dos Planos de Fomento, a área florestal continua a aumentar, chegando aos 30% do território na década de 70."
    E aí se tem mantido com um ligeiro aumento.


    PS:   Obrigado ao M. Sousa pelas respostas à interpelação do Anonimo  01.11.2024 às 08:40

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  17. Correcção: devido a limitações do espaço do blog, não ficou claro que a florestação do país começou logo no fim do século XIX.

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