
"Uma imagem assustadora da mancha florestal (exótica e densa) que envolve o Mondego -Oliveira do Mondego".
Penso que a fotografia, mas seguramente a legenda, é de Helena Freitas, uma conhecida e reconhecida académica que há anos tem uma posição relevante no movimento ambientalista (foi presidente da Liga para a Protecção da Natureza), participa em numerosos projectos de conservação pelo mundo (penso que através da Universidade de Coimbra tem apoiado a gestão da Gorongosa, por exemplo), foi deputada (eleita pelas listas do PS), foi a coordenadora da estrutura de missão para o interior (de que se demitiu queixando-se amargamente da falta de vontade política de António Costa), escreve frequentemente em jornais, fala episodicamente em programas de debate televisivo, enfim, manifestamente uma participante clara das elites intelectuais relacionadas com a gestão do património natural.
Sobre a imagem acima, no entanto, o que tem a dizer é que é uma imagem assustadora.
Sobre a questão leninistas essencial "Que fazer?", aos costumes disse nada.
Não se pense que é de Helena Freitas que falo, é dessa elite como um todo, em que os mais prudentes, como Helena Freitas, se limitam a fazer comentários emocionais sobre a fotografia e os mais verborreicos falarão da estrutura de propriedade, de ganhar escala, da falta de vontade política, da necessidade de ordenamento, da imprescindibilidade de limitar a produção de eucalipto, dos recursos que o Estado tem de alocar no controlo de invasoras, das centrais de biomassa, dos interesses, nos negócios e dos lucros fabulosos dos que lucram com o que está na imagem, da cativação do Estado pelas empresas de celulose, da necessidade de repovoar e atrair pessoas para o interior, da relevância de prender incendiários, da importância da lei do restauro da natureza, da necessidade de coimar os responsáveis, da necessidade de regular o mercado da madeira, etc., etc., etc..
São poucos, muito poucos, os que escrevem, não por amor, mas por interesse, sobre o que está aqui em causa: a reconstrução de economias que permitam a gestão deste território.
O que está na fotografia é o resultado de sessenta a setenta anos de progressivo abandono ou extensificação de gestão, à medida que as pessoas que geriam a paisagem anterior se cansaram da miséria e este partiu, aquele partiu e todos, todos se foram, terras que ficaram sem homens que pudessem cortar seu pão.
Esse processo de progressivo abandono permitiu que a natureza, na qual se inclui o fogo, um processo natural filho do seu contexto, reclamasse o que era seu, ocupando o vazio que foi sendo deixado para trás.
Voltando à pergunta clássica de Lenine: "Que fazer?".
Há, essencialmente, dois caminhos de resposta eficiente, e um terceiro completamente ineficiente que tem sido apoiado, por acção ou omissão, pela esmagadora maioria da elite bloqueada que bloqueia o país, metralhando tudo o que mexe e pode ter sucesso.
A produção de eucalipto em algumas circunstâncias tem sucesso? Abate.
O turismo em algumas circunstâncias tem sucesso? Abate.
A grande distribuição tem sucesso? Abate.
O regadio em algumas circunstâncias tem sucesso? Abate.
Mais genericamente, alguém fica rico a criar riqueza para todos? Abate.
Esquecendo esta terceira via que a elite propagandeia intercalando manifestações emocionais de superioridade moral com indignações seleccionadas a gosto, existem, como dizia, dois caminhos essenciais: 1) Renaturalização (alguns acham mais vendável dizer rewilding), o que significa aceitar a evolução que está a ocorrer, incluindo o padrão de fogo resultante (tudo o que se vê ardeu em 2017 e está a caminho de arder, de forma mais intensa e mais extensa, por volta de 2030) e procurando gerir o que se considerar socialmente inaceitável, como a expansão das invasoras (embora eu tenha dúvidas de como isso se fará, há quem ache que é com bisontes que se dá cabo das mimosas); 2) Aproveitar as oportunidades de gestão que são economicamente viáveis e trabalhar para aumentar essas oportunidades de gestão com recursos que possam vir do Estado ou da filantropia.
A minha opção base (digo base porque há vantagem em que as diferentes soluções se adaptem a cada circunstância que lhes é mais favorável) é claramente a de aproveitar oportunidades de gestão e aumentar os recursos disponíveis para essa gestão com dinheiro dos contribuintes, esperando que essas oportunidades de gestão criem descontinuidades de combustíveis finos na paisagem, que a mobilização do dinheiro dos contribuintes contribua para orientar melhor a filantropia (quase chorei quando ouvi a actual Ministra do Ambiente falar de plantar muitas árvores a propósito de incêndios, de tal forma fica demonstrado como a contínua propaganda da elite bloqueada e bloqueadora tem mantido a discussão sobre a matéria num nível inacreditavelmente pueril).
Para isso o que defendo são soluções simples, directas e que garantam que a iniciativa de gestão fica do lado das pessoas comuns, evitando tudo o que seja entregar recursos a terceiros, por mais bem intencionados que sejam, que não gerem directamente terrenos (como autarquias, empresas que vendem unicórnios pela manhã, universidades, laboratórios de investigação, etc.).
Olhando directamente para a fotografia, um monte de sucata florestal sem grande interesse, não é fácil perceber quem poderá estar interessado em estoirar dinheiro na criação de uma paisagem socialmente mais útil que esta espécie de antecâmara de gás que se vê.
O que vejo tem uma oportunidade clara: a produção profissional de eucalipto.
Não vou perder tempo a argumentar com quem diz que o que está na fotografia é preferível a ter produção intensiva de eucalipto, comercialmente viável, com gestão de combustíveis e uns 15 a 20% de áreas dedicadas à conservação da biodiversidade porque não há argumentação possível contra o pensamento mágico.
E como me parece triste render-me a uma paisagem feia e inóspita como a da produção comercial de eucalipto, volto à minha proposta base: 100 euros por hectare a quem mantiver menos de 50 cm de altura de combustíveis finos na sua propriedade.
Esta proposta não se destina a fazer com que os que não querem gerir mudem de opinião, porque, evidentemente, não paga a totalidade dos custos de gestão de combustíveis, mesmo que com métodos mais racionais que andar a pagar a sapadores para fazer cortes moto-manuais, esta proposta é apenas um incentivo à gestão por parte de quem tem algum interesse nessa gestão: produtores florestais, pastores, conservacionistas, caçadores, resineiros, produtores de medronho, apicultores, não me interessa, qualquer pessoa que resolva ter uma actividade que permita a gestão de combustíveis sabe que pode contar com 100 euros por hectare como pagamento pelo serviço público que está a fazer.
Uma das minhas netas também passa a vida a dizer que tem uns monstros assutadores no quarto que lhe querem comer o pé, mas isso não altera a realidade das noites tal como elas são, e publicar fotografias de paisagens assustadoras não serve para grande coisa sem propostas concretas de como diminuir os riscos associados ao que se vê.
Infelizmente, a generalidade das elites que se dedicam a pensar e discutir sobre este assunto não se afastam muito da racionalidade da descrição da minha neta sobre o que se passa no seu quarto à noite.
Aquilo que Helena Freitas afirma ser "uma imagem assustadora" a mim até me parece uma imagem bem bonita. Parece a Amazónia, uma paisagem totalmente verde, a natureza em todo o seu esplendor, com árvores mesmo até à borda de grandes rios.
ResponderEliminarHá muitos anos (1997) fui passar um fim-de-semana com vários amigos para a zona de Arouca. Foi a primeira vez que visitei a região. Num dos dias, fomos fazer um passeio a pé pela zona. A dada altura, num ponto de paragem do caminho, alcançava-se vasto panorama, com um aspecto não muito diferente do que se vê nesta imagem, com eucaliptos a perder de vista. Uma amiga que ia no grupo olhou para aquela paisagem e exclamou: "Ohhhh! Tão verde! Tão bonito!". Este comentário, embora reflicta unicamente o estado de alma da pessoa que o proferiu, poderia ter sido produzido por muitas outras pessoas, que valorizam a paisagem pela tonalidade verde e não pela sua composição.
ResponderEliminarFast forward até 2017. A amiga que produzira o comentário que acima citei residia agora na região de Castanheira de Pera. No dia 17 de Junho desse ano, um violento incêndio, conhecido como "incêndio de Pedrógão", eclodiu na zona. Ao tentar fugir do incêndio, juntamente com familiares, a minha amiga foi parar à estrada nacional 236-1, de onde não conseguiu sair com vida. Pereceu às mãos de um fogo que devorou um ambiente não muito diferente do que havíamos visto em Arouca vinte anos antes e que ela considerava "tão verde, tão bonito". Ironias da vida...
ResponderEliminarmuitas outras pessoas, que valorizam a paisagem pela tonalidade verde e não pela sua composição
Bem, mas olhando para a fotografia que ilustra este post, eu não consigo distinguir qual a composição de toda aquela manta verde...
Entretanto, mais 5 famílias foram destruídas na queda do helicóptero no rio Douro.
ResponderEliminarInsisto, é necessário implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais, a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.
Exacto. "É verde, logo é bonito."
ResponderEliminarEra exactamente esse o meu ponto, que também pretendi ilustrar na história (verídica) que acima partilhei: a cor pouco ou nada nos diz sobre a qualidade do habitat.
Onde chegámos...agora até os silva filosofam.
ResponderEliminarO país embruteceu e definhou por culpa dessa «elite bloqueada» que há décadas nos asfixia como uma espécie invasora. O país precisa dum novo paradigma de gente bem preparada e competente, mas simultaneamente arrojada, que pensa fora da caixa, que traz soluções e tem criatividade _ a solução que o HPS aqui apresentou é disso um bom exemplo.
ResponderEliminarMas esqueça: não sairemos da cepa torta enquanto durar este "complot" entre as outras duas espécies daninhas que crescem viçosas neste país. Refiro-me exactamente ao conluio (sobretudo nos últimos 8 anos e meio) entre o poder político e seus lacaios da comunicação social pejada de jornalistas-activistas-comentadores saudosistas de "amanhãs que cantam".
Uma coisa é certa: continuam activos a "vender"-nos os seus pechisbeques de contrafacção, i.e., políticos-whatsapp.
Se foossem os também exóticos eucaliptos seria muito pior pois propagam ainda mais o fogo e ao contrário das mimosas empobrecem os solos.
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