quarta-feira, 7 de agosto de 2024

O lugar de fala

Uma das maiores falácias woke é o empolamento do "lugar de fala", uma expressão que, no essencial, reflecte a ideia marxista da natureza de classe, substituindo a classe pelo grupo identitário que se pretender.


É assim que há quem passe o tempo a dizer que só as pessoas que sofreram racismo é que podem falar apropriadamente de racismo, só as mulheres é que se podem pronunciar sobre direitos de mulheres, só as pessoas LGBTI+ é que podem verdadeiramente expressar opiniões sobre matérias relacionadas com identidade de género, só as vítimas de assédio discutem legitimamente o assédio, e por aí fora.


Desta patetice resultam depois elaboradas teorias como a que garante que Mamadou Ba não é racista porque apesar de basear todo o seu discurso e acção pública na luta de classes (desculpem, na luta de raças, ou melhor na luta entre grupos racializados), um negro nunca poderá ser racista porque é apenas uma vítima em luta contra a opressão.


Independentemente de achar a expressão "lugar de fala" uma boa expressão, e de achar um ponto relevante para análise do discurso de cada um, estranho que nunca seja aplicada à direcção totalmente burguesa do Bloco de Esquerda que insiste em falar em nome dos trabalhadores, ou aos dirigentes dos sindicatos que se deslocam de onde vivem e trabalham as pessoas que pretendem representar para a profissionalização sindical, alterando o seu "lugar de fala".


Na verdade, acho toda esta conversa sobre o "lugar de fala" excessivamente manipulada pelos que pretendem vedar a entrada na discussão dos que discordam dos seus pressupostos, seja qual for a discussão.


O exemplo que mais me divertiu nos últimos dias é do candidato a vice-presidente dos EUA que acompanha Trump e resolveu dizer uma coisa qualquer sobre "cat ladies" que dominariam a candidatura adversária, isto é, mulheres que têm gatos em vez de filhos, questionando a sua legitimidade para tomar decisões que afectam o futuro dos filhos dos outros.


A declaração em si é bastante tonta, provavelmente injusta para muita gente (nem sequer é evidente quando a ausência de filhos decorre de uma opção, aliás legítima, ou de circunstâncias que as pessoas envolvidas não controlam, sendo portanto involuntária) mas, e é isso que me interessa neste post, é uma aplicação bastante canónica da argumentação baseada no "lugar de fala".


E, desse ponto de vista, uma boa demonstração da falácias das argumentações baseadas na crítica ao "lugar de fala" do adversário.


Vance não tem razão nenhuma em questionar a legitimidade das adversárias falarem do futuro com base no seu "lugar de fala", mas isso não se prende com a substância do assunto, é mesmo um problema da natureza das argumentações que pretendem atribuir ao "lugar de fala" uma legitimidade superior nas discussões.

11 comentários:


  1. Cat ladies é a expressão "politicamente correcta" do mal f****.
    Desgraçadas que nenhum homem lhes pega, porque elas se afirmam feministas, mas no fundo a sua solidão é consequência de nenhum homem as aturar, logo viram-se para os gatos. Wokismo de direita no seu melhor.
    Em jeito de nota, foi engraçado ver alguns pseudo-centristas afirmarem que o Donald viria um homem diferente, mais comedido nas palavras, após ter escapado à morte.

    ResponderEliminar
  2. Lugar de fala cheira mesmo a tradução literal, na linha de uma resiliência...

    ResponderEliminar
  3. O Bloco de Esquerda é um bom exemplo do "lugar de fala" e também (não resisto ao trocadilho) do "lugar do falo". Todos nós recordamos de Francisco Louça para Paulo Portas: "Você não sabe o que é o sorriso de uma criança".

    ResponderEliminar
  4. Está enganado, quer quanto a lugar de fala, quer quanto a resiliência.
    Lugar de fala é uma expressão brasileira, não é uma má tradução, que tem sido adoptada fora do Brasil.
    Resiliência é um conceito da física (a capacidade de um corpo retomar a sua forma inicial depois de sofrer uma pressão que o alterou), mal aplicada frequentemente, é verdade, mas não é uma má tradução.

    ResponderEliminar
  5. Resilience equivale a resistência.  Não resiliência (sim, eu sei o que é resiliência dos materiais).
    Se é uma expressão brasileira, não duvido que tenha sido traduzida do anglicismo, são peritos nisso. Ninguém a usava na anglofonia ou francofonia?

    ResponderEliminar
  6. Se sabe o que é resiliência e diz que é o mesmo que resistência é porque não sabe o que é resistência, em português.
    Se em inglês resilience se traduz por resistência, isso não sei (não sei Inglês suficiente para discutir isso, o que sei é que todos os dicionários que consultei agora dizem que não é assim), o que sei é que em português, resiliência não é o mesmo que resistência.

    ResponderEliminar
  7. Nas palavras de Aquilino, homem ruivo e mulher bigoduda, de longe os saúda.

    ResponderEliminar
  8. Leia o que escrevi.
    Em lado algum está escrito "







    ResponderEliminar
  9. Tal como agora não há provas, há evidências, não há vícios, há adições,  etc... 'anglicismo semântico'


    O anglicismo-semantico

    ResponderEliminar
  10. https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/o-dia-mundial-do-portingles/4898

    ResponderEliminar
  11. LGTBI+
    Em português corrente diz-se de outra(s) maneira(s).
    Juromenha

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...