sexta-feira, 5 de julho de 2024

"Ui!, Ui!, Ui!, vem aí o chui!"

Tenho ideia de que o título deste post é de Ségio Godinho (de uma peça de teatro, se não me engano) e lembro-me dele muitas vezes, como outras pessoas se lembram da história de Pedro e o Lobo, isto é, sempre que alguém aparece com espantalhos argumentativos (o chique é falar do homem de palha, dado o peso da cultura anglo-saxónica nos dias que correm).


Um dos mais frequentes espantalhos argumentativos diz respeito à ancestral guerra à acumulação de capital, que muitas vezes aparece sob a forma da crítica à "economia de casino baseada na especulação".


Para uma crítica séria a este argumento, e em geral ao uso das emoções na crítica ao capitalismo, ler este artigo de Vítor Bento, hoje, no Observador: "Um carro, uma casa, uma praça, uma empresa, um contrato, uma organização política, uma lei, um sistema fiscal, tal como uma pintura, um livro, ou uma sinfonia, começam por ser uma ideia e é a partir desta que serão convertidos em obra. O mesmo se passa com as organizações e instituições económicas e as suas acções".


Já eu vou apenas fazer comentários básicos sobre a treta da "economia de casino baseada na especulação" e os seus efeitos terríveis na estabilidade dos mercados financeiros e na nossa vida em comum.


Comecemos por diminuir a emoção das palavras para nos centrarmos na racionalidade dos conceitos, o que está em causa é o chamado capital especulativo, isto é, um tipo de investimento de se baseia na compra e venda de activos estritamente com base na expectativa de alterações de preço no curto prazo.


É um tipo de investimento de elevadíssimo risco, não sei quanto representa no mercado de capitais, mas calculo que não existam conselheiros de investimento que sugiram uma percentagem de mais de 10% do portefólio de investimento de uma pessoa neste tipo de investimento (o que significa uma percentagem ainda muito mais baixa do investimento total, visto que a maioria do capital das empresas, quando olhadas de forma agregada, não estar nos mercados de capitais que permitem a existência do investimento especulativo).


É verdade que este tipo de investimento pode, em algumas circunstâncias, favorecer a instabilidade dos mercados e ter efeitos negativos no desempenho económico agregado, mas não é menos verdade que também tem efeitos positivos globais (para a discussão dos seus efeitos, leia-se isto ou isto, que eu não sei o suficiente para ter opiniões consistentes sobre os efeitos positivos ou negativos do investimento especulativo).


O que verdadeiramente me interessa é a técnica habitual de pegar num segmento marginal do funcionamento das economias de mercado, esquecendo que é um segmento marginal, empolar os seus efeitos negativos, esquecer os seus efeitos positivos e generalizar o argumento para uma medida de política, como a taxa de IRC ou, mais geralmente, criticar a acumulação de capital como uma coisa intrinsecamente má.


Eu percebo quem argumenta que é moralmente condenável que tão poucos tenham tanto quando tantos têm tão pouco, mas acontece que isso não é um resultado do capitalismo, é um resultado na natureza humana e todas as tentativas para corrigir este problema pela força, resultaram em menos liberdade e mais pobreza, não menos.


Pelo contrário, a limitação deste problema pela discussão de ideias e pela acção positiva sobre a diminuição da pobreza, em alternativa, têm levado a uma diminuição global da pobreza impressionante que, ao contrário do mito mais difundido, não parece ter grande relação com uma diminuição da acumulação de riqueza, pode haver aumento de acumulação e concentração de riqueza e, ao mesmo tempo, diminuição da pobreza.


Então e os offshores, o Panamá e etc., não contam?


Contam pouco, de facto, para a diminuição da pobreza, e apresentam riscos muito elevados para a liberdade que não podem ser esquecidos, sendo muito pouco provável que as limitações da liberdade dos mais ricos acumularem ainda mais capital resultem, forçosamente, em benefícios para os mais pobres (historicamente têm representado mais transferências de riqueza entre grupos sociais dominantes, com os pobres a assistir das galerias onde falta o pão).

21 comentários:

  1. Antonio Maria Lamas5 de julho de 2024 às 11:14

    A propósito de especulação, nunca percebi porque se prendem e apreendem bilhetes a quem for apanhado a vender a preço superior ao indicado.
    Se há alguém que comprou atempadamente bilhetes para um espectáculo. 
    Se há quem que não comprou a tempo e agora está disposto a pagar o dobro, qual é o problema? 
    Então porque não se prende quem compra um quadro (outro bem) por 1000 e vende por 100.000?
    Não entendo 

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  2. Boa questão.
    Provavelmente porque a segunda transação, na venda de bilhetes, é "isenta" de impostos e o Estado gosta de abichar algum sempre que há movimentação de dinheiro.

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  3. Bem, existem hoje em dia uma série de "instrumentos" financeiros que são economia de casino baseada na especulação. O capitalismo financeiro substituiu o capitalismo económico, e esse é um problema da sociedade "capitalista". Basta atentar ao que o Sr Buffett, que não me parece ser um grande comuna, vai por aí dizendo e escrevendo.

    O mercado bolsista em si, hoje é bastante diferente daquilo idealizado pelos nossos camaradas holandeses.

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  4. Provavelmente pela mesma razão que eu não posso ir para a rua vender bens próprios. Bem ou mal.

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  5. Antonio Maria Lamas5 de julho de 2024 às 15:48

    Pode fazer uma venda de garagem ou de bagageira e não vai lá a polícia prendê-lo. 
    E se o problema é o imposto, que cobrem o IVA na diferença, se conseguirem. 

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  6. Nenhum. Está tudo bem.

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  7. É muito comum invocar particularidades para descredibilizar o conjunto.

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  8. Hoje são os mercados financeiros? Para quando um post sobre as variações semânticas no sânscrito?

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  9. Não são treta, são realidade. 
    As consequências estão documentadas.
    Problemas? Nenhum, eu gosto de casinos e sou cliente ocasional.

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  10. https://finance.yahoo.com/news/warren-buffett-says-stock-market-212445057.html

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  11. Li, de uma ponta à outra, mas não vi nenhum problema social identificado por Buffett (para além da conhecida maior volatilidade dos mercados), mas sim conselhos a quem queira investir.
    Nem sequer uma ténue informação sobre o peso que os especuladores têm nas bolsas (que dizem respeito a uma ínfima parte do capital investido em empresas).
    “For whatever reasons, markets now exhibit far more casino-like behavior than they did when I was young,” Buffett wrote, adding that “though the stock market is massively larger than it was in our early years, today’s active participants are neither more emotionally stable nor better taught than when I was in school.”
    Resumindo, tenciona identificar o problema a que se refere, ou não?

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  12. Nenhum problema, nem sequer nessa pequena citação. Tudo jóia. Seguir em frente

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  13. Até no post eu digo que há problemas e mais, identifico-os (para além de fazer ligações para textos que, com mais propriedade, avaliam efeitos benéficos e negativos).
    O que é espantoso é que continue à roda e não identifique a que problema se está a referir (independentemente de isso ser marginal em relação ao post que se refere ao pouco peso que os especuladores têm no capital das empresas que existem).

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  14. É um problema em si, porquê?
    Qual é a dimensão do problema?

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