Já várias vezes descrevi esta história, de maneira que os que já a leram podem saltar mais para a frente.
Há uns anos as pessoas que eram contra os organismos geneticamente modificados (que na altura me incluía) eram contra a Monsanto porque a Monsanto tinha desenvolvido umas variedades de milho "Roundup ready".
O Roundup é uma marca comercial do glifosato, sendo essa campanha que deu a má fama que hoje o glifosato tem. O glifosato é um herbicida que actua sobre os mecanismos da fotossíntese, muito eficiente, barato e com muito poucos efeitos ambientais negativos (não afecta os organismos que não fazem fotossíntese e é rapidamente neutralizado no solo), o herbicida mais vendido no mundo, se não me engano, e a Monsanto tinha desenvolvido um milho geneticamente modificado que não era afectado por esse herbicida, o que permitia fazer a sua monda química sem riscos para a produção.
Neste contexto, que tem ramificações no patenteamento de sementes, um agricultor aparecia, aos olhos dos que se opunham aos organismos geneticamente modificados, como uma vítima que tinha sido injustamente condenado pelos tribunais canadianos a mando da Monsanto, porque acidentalmente tinha umas plantas desse tal milho geneticamente modificado na sua exploração.
Se a questão fosse levantada num país em que o sistema de justiça funcionasse manifestamente mal, eu teria registado o que ia lendo, e passado à frente, mas a ideia de que a Monsanto mandava no sistema de justiça canadiano parecia-me absurda e, como faço frequentemente, comecei a ir às fontes originais de informação, nomeadamente os acordãos.
Que um juiz seja corrupto, não me espanta, a natureza humana é o que é, mas os sistemas de justiça evoluídos, como o do Canadá, é feito exactamente no pressuposto de que a justiça é aplicada com regras que limitem os efeitos da natureza humana, e não tendo juízes incorruptíveis (uma impossibilidade prática que apenas serve para diminuir os escrutínio sobre as profissões em que supostamente são todos incorruptíveis).
Naquele caso, não se tratava de decisões de primeira instância, mas em todas as instâncias de recurso o senhor tinha perdido, o que queria dizer que para a Monsanto obter essas decisões de forma fraudulenta, teria de comprar muita gente, num processo altamente mediatizado de um sistema de justiça bastante transparente.
Claro que a coisa era mais simples, a julgar pelo que se pode ler nos documentos judiciais sobre o caso, o senhor tinha tentado usar sementes patenteadas à candonga (não era um herói vítima de dispersão acidental de organismos geneticamente modificados, era um pequeno aldrabão que queria beneficiar do uso de organismos geneticamente modificados sem pagar os custos associados) e, quando apanhado, tentou fazer-se de vítima.
O interessante é que durante anos, e à escala mundial, tinha um conjunto de defensores acérrimos, apenas porque para nós, de acordo com a nossa natureza, quando acreditamos muito, muito numa coisa a ponto de estarmos emocionalmente envolvidos nela, mas a realidade a contraria, procuramos explicações alternativas e somos tão melhores a encontrá-las quanto mais inteligentes e capacitados somos, aparentemente.
Naquele caso, era fácil acreditar que a Monsanto era uma empresa capaz de comprar todo o sistema de justiça do Canadá, sem que sentíssemos que estávamos a alinhar numa vulgar teoria de conspiração que o mais básico bom senso (nunca confundir com o senso comum) invalidaria à partida.
É que a alternativa seria admitir que estávamos errados e talvez devêssemos olhar com atenção para o fundamento das nossas convicções, que é uma coisa que não gostamos de fazer.
A posição do SOS Racismo e de todos os anti-racistas que vivem do racismo (ou que se afirmam socialmente através da histriónica afirmação do seu anti-racismo) é exactamente igual a isto no julgamento de Cláudia Simões.
Para estes radicais, o julgamento é completamente inútil porque é evidente que só há uma vítima inocente e um culpado total do que aconteceu, recusando-se a admitir a complexidade das interacções entre pessoas que são, como todos nós, humanos, demasiado humanos, com as suas virtudes e limitações.
E se ao fim de um longo julgamento o tribunal decide de outra maneira, é porque o racismo estrutural dos tribunais (vamos esquecer o pormenor do polícia ter uma pena maior que Cláudia Simões, embora por factos que não estão directamente relacionados com ela, mas com outras pessoas) os impele a tomar decisões racistas.
Isto é tão, mas tão humano, que quando chega ao futebol, vemos não sei quantas pessoas, razoáveis, frequentemente chamando a atenção para a falta de formação e conhecimento sobre as matérias que conhecem bem para desvalorizar as opiniões de terceiros, a alinhar em teorias de conspiração ou em teses ilógicas para explicar decisões de pessoas que, sendo profissionais reconhecidos no seu campo de trabalho, em princípio sabem o que estão a fazer.
Desde o jornalista inglês formado em língua inglesa por Oxford (e, também por isso, escrevendo uns textos formalmente magníficos) que tem a tese de que é o egocentrismo de Ronaldo que faz toda a gente concentrar-se nele, não perdendo tempo a explicar como consegue Ronaldo comandar os operadores de câmara, o seleccionador, o presidente da federação e até Mourinho (que apareceu a dizer que, com ele, Ronaldo seria o último a sair do campo, mesmo que não jogasse nada), passando pelos ferrenhos adeptos das teorias económicas que explicam que a federação ganha tanto dinheiro com Ronaldo que prefere perder jogos a tirá-lo do campo, até aos mais básicos apreciadores de teorias de conspiração que explicam que a selecção é feita pelos agentes que querem vender os seus jogadores, não tem conta o número de pessoas disponíveis para aceitar teses absurdas, para não terem de lidar com a imensa complexidade de um mundo que não dominam e, frequentemente, conhecem mal.
Não é Ronaldo que se selecciona a si próprio, não é Ronaldo que escolhe o seleccionador, os seus adversários em campo não o largam, porque não acreditam nas teses de que é um jogador a menos na equipa com o qual não vale a pena preocupar-se, não são os seus colegas de equipa que manifestam incómodo por serem prejudicados, não é Ronaldo que impõe aos patrocinadores o que entende e, no entanto, aceita-se facilmente que tudo o que acontece decorre da vontade, completamente livre, de Ronaldo que, enquanto quiser, define tudo o que se passa à sua volta.
Nem a forma como saiu de alguns dos clubes em que jogou, em clara ruptura porque os clubes não estavam de acordo com o que Ronaldo entendia, faz estas pessoas duvidar de que Ronaldo não é dono do mundo, é apenas dono de si próprio e livre que fazer as opções que lhe dizem respeito.
O resto do mundo, camaradas, é com o resto do mundo, que é grande e variado, havendo uns melhores e outros piores a tomar decisões pelas quais são responsáveis.
Uma coisa é discutir decisões que parecem erradas, outra é inventar teorias de conspiração para ganhar vantagem nessas discussões.
Na parte que me toca, com certeza serei tão atreito como qualquer pessoa a esses viezes, mas faço um esforço consciente para discordar de mim sempre que me aparecem explicações lógicas que implicam qualquer coisa oculta nos outros.
O melhor exemplo que tenho disso foi o tempo das longas discussões sobre a epidemia relacionada com a Covid, cuja resposta social contestei veementemente, mas que penso que consegui manter sempre, sempre, do lado da racionalidade, nunca contemporizando com teorias de conspiração frequentes no lado de quem discordava da resposta social à epidemia.
Não só isso implica uma grande auto-vigilância (nem sempre conseguida, claro) como implica, a partir de algum momento, estar no posição do outro que estava mal com el-rei por amor dos homens e mal com os homens por amor a el-rei.
Muito bom artigo de opinião, especialmente quando refere que começou
ResponderEliminarNão é preciso uma conspiração quando uma cultura já tem respostas pre definidas. E quando mais regras tiver essa cultura mais respostas pre definidas tem.
ResponderEliminarVejamos na extrema esquerda, numa discussão entre um pobre e um rico por definição o pobre terá razão independente dos argumentos e milhões de pessoas de esquerda o dirão porque isso faz parte da identidade.
É paradigmático o caso do Joe Biden com os que se auto intitulam jornalistas a aceitarem pré-entregarem perguntas ao candidato.
Foram comprados? corrompidos com dinheiro? claro que não. Partilham da mesma cultura de Biden, foram para a profissão para fazer propaganda para a mesma cultura.
Ainda hoje tenho fortes dúvidas sobre o milho transgénico por recear os riscos desconhecidos da tendência para a monovariedade cultural.
ResponderEliminarNão é conhecimento, que não tenho. Não sei se terá algo de intuição se apenas de receio atávico e retrógrado, tipo Belho do Restelo. Mas o que é certo é que tive o mesmo receio em relação às vacinas mRNA que evitei na primeira toma mas já não pude evitar nas 2ª, 3ª e 4ª.
Pouco depois, um cancro velhinho de 10 anos deixou parcialmente de reagir ao tratamento farmacológico e tive de repetir radiologia. Apareceu-me um novo cancro num pulmão e fiz uma lobectomia. Tive zona (implica uma baixíssima autoimunidade). Também sem conhecimento especializado mas acredito mesmo que houve um relação. Já a minha família, entende que eu sou tão pessimista que provoco o azar o que também não nego ser possível. Se assim for, devo estar prestes a sofrer um caso grave de Covid porque, na impossibilidade de aceder a vacinas clássicas, nunca mais me vacinei.
Já quanto a Cláudia Simões, lendo as notícias iniciais, fiz um quadro bastante aproximado e que a sentença judicial apenas confirmou.
Felizmente não gosto de futebol e o protagonismo de Ronaldo passa-me ao lado. Prefiro orientar o meu pessimismo para o futuro de França, o que ajuda a esquecer o de Portugal.
conheço imensa gente que teve zona depois de vacinado , uma quantidade de gente nuca vista. não reparou aos anúncios de medicação para zona na mesma altura?
ResponderEliminaras suas melhoras.
já quanto aos transgénicos , essa gente toda alérgica ao glúten assim de repente , pois , não sei não..
O Ronaldo (e sua entourage) em nada influenciam as escolhas da Selecção, tal como as gémeas foram tratadas no SNS sem influência de qualquer político ou afiliado.
ResponderEliminarCom excepção de governos, farmacêuticas e funcionários europeus, quase toda a gente se apercebeu da expansão da zona. Depois de diagnosticado (receitaram-me 5 medicamentos) o anti-viral específico, estava esgotado nas duas farmácias da vila mais próxima, na única farmácia da outra vila da área e só na segunda farmácia da sede do concelho o encontrei.
ResponderEliminarO facto de praticamente todos nós termos o vírus que só se manifesta quando a imunidade é extremamente baixa, é prova mais do que suficiente que houve uma alteração ambiental que provocou esse efeito e, realmente, a vacinação é a candidata perfeita.
Por regra não sou adepto de teorias da conspiração mas o facto dos governos não terem feito quaisquer estudos nem associado essa baixa de imunidade à mortalidade acima da média por causas não Covid e que perdurou por largos meses depois do surto, levanta-me muitas dúvidas.
Os transgénicos, de facto, são bons suspeitos mas apenas uns de muitos pois o aumento das alergias é muito anterior.. Quando eu era novo nem me lembro de ouvir falara em alergias e hoje alergologia infantil já é uma especialidade médica. Obviamente por causa do que comemos e do que respiramos.
Obrigado pelo desejo de melhoras.