Todos os argumentos a favor de algum tipo de censura no discurso e no debate político têm implicações que não aceito. Por exemplo, é fácil considerar inadmissível dizer que os turcos são conhecidos por serem preguiçosos. Chamar a alguém preguiçoso é um insulto. Generalizar o insulto a uma nacionalidade, etnia ou religião, além de estúpido, é preconceituoso. Mas, se consideramos esse discurso inadmissível, também devemos considerar inadmissível que alguém de esquerda diga que os portugueses são racistas? Ou que os brancos são racistas? É que posso repetir exatamente a mesma frase, substituindo apenas o adjetivo — “Chamar a alguém racista. Generalizar o insulto a uma nacionalidade, etnia ou religião, além de estúpido, é preconceituoso” —, mas quero que um deputado se sinta à vontade para o dizer.
Haverá quem argumente que há estudos que mostram que os portugueses são racistas. E têm razão. Mas alguém contra-argumentará que há estudos que mostram que a produtividade dos turcos é baixa. Claro que contra-argumentarei que a relação entre produtividade e preguiça é falsa e que há fatores bem mais relevantes (estrutura fiscal, organização do trabalho, capital acumulado, etc.). Mas é igualmente legítimo alguém argumentar que os estudos sobre o racismo dos portugueses são questionáveis. (...)
Classifico como discurso de ódio algumas declarações de Ventura sobre ciganos. Mas, um dia que Mamadou Ba seja deputado, quero que tenha o direito de dizer o que disse em tempos: “Temos de matar o homem branco. O homem branco que se mostrou até aqui tem de ser morto. Para evitar a morte social do sujeito político negro, é preciso matar o homem branco assassino, colonial e racista.” Mamadou fala em sentido figurado, num determinado contexto e, alegadamente, baseando-se na obra de Frantz Fanon. Mas, se aceitamos a contextualização, também temos de aceitar que Ventura contextualize o que diz. Mais uma vez, traçar a linha vermelha do que pode ou não ser dito é muito complicado.
Há quem distinga entre o discurso de ódio e a promoção do ódio, sendo este último mais grave. Para muita gente, o discurso da extrema-direita promove o ódio, comportamentos criminosos e ações violentas. E eu concordo, mas o da esquerda radical também, como mostra o vandalismo contra a sede do Observador, um órgão de comunicação social. Para alguns ativistas de esquerda, o culpado do mundo estar como está é do homem branco. Se também for de meia-idade, heterossexual e de direita faz bingo. Para outros, a culpa é a ganância dos empresários — lembram-se de quem certa esquerda culpava pela inflação? Não se poderá legitimamente argumentar que isto também promove o ódio contra um dado grupo de pessoas? Se um deputado do BE ou do PCP disser “From the river to the sea, Palestine will be free!” deve ser censurado? Espero que não, mesmo percebendo que o slogan implica a destruição de Israel. (...)
Há casos em que a corda necessariamente parte. O presidente da assembleia regional da Madeira não podia ficar indiferente quando o deputado Manuel Coelho se pôs de cuecas. Mas declarações sobre turcos não serem conhecidos por trabalhar estão longe da fronteira que delimita o que é admissível, o que me leva a perguntar o porquê de todo este escândalo. E, quando soube de um comunicado da SOS Racismo dizendo que Aguiar-Branco não tem condições para continuar no cargo e apelando ao Ministério Público que atue, não consigo deixar de pensar que anda muita gente a mamar na teta do Ventura e a promoverem-se à sua custa. O problema é que o promovem também.
Luís Aguiar-Conraria no Expresso aqui na integra
ResponderEliminarÁrvores e os homens medem-se pelos seus frutos.
Medir um político pelo que afirma é necessário mas secundário.
Medir um político sim, mas pelo seu voto em aprovação legislativa e pelas consequências de essa legislação. Depois votar, ou não, nele para re-eleição como deputado.
Em Portugal os eleitores não têm esse seu direito de escolha/sanção.
Quanta abstenção eleitoral será consequência de essa trama partidária?.
parece a história de maluco que exclama depois dum discurso coerente:
ResponderEliminar«também sei cantar de galo»
É hilariante ver seguidores do profeta Marx metidos nisto, sobretudo quando têm no bolso as escrituras em que o profeta advoga a destruição impiedosa da burguesia pelo proletariado, a fim de instaurar o paraíso na terra.
ResponderEliminarNa boca do Marcelo os estereótipos não foram considerados discurso de ódio.
ResponderEliminarO sos racismo e as capazes já foram para a porta da mesquita manifestar-se? Podem levar os activistas lgbt para fazer número
É bom lembrar não só o genocídio de certas classes sociais Marx quis, também qualquer religião era para ser destruída.
ResponderEliminarBasicamente Marx promovia o genocídio de quem não fosse socialista.
Uma parte da abstenção será por essa trama,mas tramas não faltam no sistema político e eleitoral.
ResponderEliminarAs frases mais corretas do artigo são as últimas. O PS quer, desde há anos, fazer escarcéu a propósito e a despropósito do CHEGA, dessa forma dando propaganda a esse partido.
ResponderEliminarPorque é que ninguém fala na censura perpetrada pelo ex-governo socialista das comemorações de Luís de Camões, uma das maiores glórias da Língua e Literatura portuguesas?
ResponderEliminarEspanha orgulha-se do seu Cervantes;
UK universalizou o seu Shakespeare;
Dinamarca eternizou o seu Hans Christian Andresen;
...
Só nós silenciamos a obra de Camões e cancelamos a nossa História.
Há dias chegou-me um texto em língua inglesa a celebrar a História da Marinha Mundial, destacando o grande contributo dos portugueses e dos seus feitos náuticos, como pioneiros na arte da navegação, desde os primórdios do séc. XIV.
Parece que tais feitos não são motivo de orgulho nem de celebração nacional.
(talvez porque andem entretidos a promover outro «orgulho» muito mais colorido).
A ler:
ResponderEliminarhttps://observador.pt/opiniao/de-camoes-aos-descobrimentos-ou-as-saidas-em-falso/
programa das festas”
Sem dúvida. Sugiro o blog "identidade de género ciência ou ideologia?" aqui no sapo.
ResponderEliminarU.S. Naval Institute
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